Investigação revela mercado ilegal de publicações científicas na China

Precisa publicar um trabalho em uma revista científica de respeito para subir na carreira, mas não tem tempo nem competência necessários para isso? Não tem problema! Na China, com um pouco de dinheiro, pode-se comprar uma “vaga” de autor no trabalho de outra pessoa, ou até comprar um trabalho já pronto para colocar seu nome nele – com a garantia de que ele será publicado numa revista indexada pela Elsevier ou pela Thomson Reuters, as principais empresas de referência no ramo de publicações científicas. É o que revela uma investigação de 5 meses condizida pela revista Sciencepublicada recentemente.

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Repórteres chineses infiltrados, posando de cientistas, pesquisadores ou alunos de pós-graduação, investigaram as atividades de 27 empresas chinesas suspeitas de comercializar autorias e artigos científicos para publicação em revistas indexadas da base SCI (Science Citation Index). Ter trabalhos publicados na base SCI é condição quase que obrigatória para se formar e obter promoções em muitas instituições chinesas, de forma que muitos alunos e cientistas estão dispostos a pagar para conseguir isso. E onde há demanda, claro, há oferta: das 27 agências consultadas, apenas 5 se recusaram a escrever trabalhos ou vender autorias, segundo a reportagem. Várias dessas empresas anunciam seus serviços abertamente na internet. “É incrível: você pode publicar trabalhos na SCI sem fazer nenhum experimento!”, anuncia uma delas, chamada Sciedit.

Outra empresa, chamada Wanfang Huizhi, ofereceu ao repórter uma vaga de co-autor num trabalho de pesquisa sobre câncer por US$ 14.800. O artigo sairia no International Journal of Biochemistry & Cell Biology – o que de fato aconteceu, algumas semanas depois, com dois autores principais, um dos quais (Wang Yu) não tem nenhum histórico de produção científica (acesse aqui o artigo). Após ser procurada pela reportagem da Science, a editora da revista, Joanna Kargul, reconheceu que “a mudança de autoria passou despercebida pelo radar dos revisores e do editor responsável” pelo trabalho. Já o gerente, Huang Wei, negou as acusações de que a empresa comercializa autorias em trabalhos científicos e disse que quem fez a oferta poderia ser algum ex-funcionário, agindo fora dos canais oficiais da empresa.

Em outros casos investigados pela reportagem, os valores ofertados por autoria em trabalhos alheios variaram de US$ 1.600 a US$ 26.300. Caso o pesquisador tivesse medo de incluir seu nome num trabalho sem conhecer a origem dos dados, não tinha problema: ele poderia optar por “encomendar” um artigo de revisão, ou meta-análise, baseado em dados já publicados por outros autores. Afinal, o que vale para a promoção é ter um trabalho publicado na SCI — o conteúdo, a qualidade ou a relevância da pesquisa são questões secundárias. A íntegra da reportagem, que certamente terá grande impacto na reputação da ciência chinesa, pode ser lida no site da Science (o acesso é pago, mas vale a pena para quem se interessa pelo assunto).

Fonte: Estadão.

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