Genialidade e superdotação

Matéria publicada pela revista Superinteressante.

Diante dos olhares de espanto da imperatriz Maria Teresa, da Áustria, Wolfgang Amadeus Mozart, aos 6 anos de idade, fazia brotar do piano os acordes inspirados de suas primeiras sonatas. Três anos mais tarde, tomado por uma irremediável aversão ao estudo convencional, decidiu que dali em diante só leria partituras. Ninguém pode lamentar ter perdido em Mozart um químico medíocre ou um escriturário esforçado. Pior seria se a humanidade tivesse inibido a floração de um dos seus mais talentosos compositores – o que poderia perfeitamente bem acontecer se Mozart não vivesse na Salzburgo do século 18, uma cidade voltada para as artes. Hoje em dia Mozart talvez já tivesse sido induzido pela família ou pelos professores a esquecer o fascínio pela música em troca de um 10 no boletim. Lamentável, pois Mozart é um exemplo de pessoa superdotada.

O conceito de superdotado, até há pouco tempo, servia de legenda para a imagem caricatural do garoto franzino, craque não no futebol e sim em complicadas questões de Química, Matemática ou Física, entre outros saberes que costumam driblar a meninada dita normal. Hoje se sabe que nem todo superdotado tem o perfil de primeiro da classe. Além das pessoas com inteligência acima da média, superdotados também são aqueles com capacidade excepcional para realizar tarefas, muitas vezes à distância de salas de aula e laboratórios. É certo que existe algo diferente que as faz alguns geniais. Sem dúvida, os fatores culturais impõem seus limites à genialidade. Ao esboçar um helicóptero em pleno século 15, quando o homem nem sequer podia imaginar o automóvel, o florentino Leonardo da Vinci só poderia, no mínimo, ser tachado de visionário. Da mesma forma, se Isaac Newton tivesse nascido numa tribo da Nova Guiné, e não na Inglaterra do século 17, não teria chegado a formular a lei da gravitação, porque para os guinéus, ser inteligente é saber de cor e salteado o nome de 10 mil clãs.

Entre os limites erguidos pelos valores culturais, porém, nascem três superdotados em cada cem pessoas, independentemente de raça, sexo ou classe social, segundo as estatísticas. Isso significa que, dos cerca de 4 milhões de brasileiros que devem nascer este ano, 120 mil merecem estar nessa categoria – o equivalente à população inteira de uma cidade como Teresópolis, no Estado do Rio. Significa também que o Brasil, com seus mais de 140 milhões de cidadãos, teria uma formidável legião de 4 milhões de gênios em potencial, como se toda a população de Santa Catarina, por exemplo, fosse constituída de superdotados. Não é preciso que alguém os ensine a ser brilhantes. Eles desenvolvem espontaneamente o seu talento – daí fenômenos como os de crianças que até aprendem a ler sozinhas ou que desmontam e montam o rádio do pai sem causar danos.

“A habilidade do superdotado costuma aparecer cedo. Mas isso não significa que não possa haver um superdotado adulto perdido na multidão”, esclarece o psicólogo paulista Oswaldo Barros Santos, que há 10 anos observa o comportamento dessa gente tão especial, na condição de um dos fundadores da Associação Brasileira para Superdotados, com sede no Rio de Janeiro. Oswaldo aponta como característica marcante no superdotado o amor intrínseco pelo trabalho. “Eles costumam fazer as coisas para si e muitas vezes nem divulgam o que criam ou descobrem, dispensando a plateia”. Essa atitude, em certas ocasiões, é interpretada como timidez. Contudo, dificilmente a timidez impede o superdotado de chamar a atenção. Isso porque, embora possa desenvolver bem mais certas habilidades do que outras, o superdotado não costuma ser muito ruim em nada. Seu desempenho, em geral, é sempre superior ao da média das pessoas. “O interesse pelo assunto é recente e ainda não existem amplos estudos do cérebro de superdotados que permitam o entendimento dessa condição”, justifica o neurologista infantil Saul Cypel, da Universidade de São Paulo (USP). Cauteloso como seus colegas diante do fenômeno, Cypel não encontra explicações na medicina para a simples existência de pessoas excepcionalmente talentosas. Só há hipóteses e mesmo assim ainda à espera de comprovação no exame de cérebros.

Quando morreu Albert Einstein – um gênio acima de qualquer suspeita -, seu crânio foi aberto em busca de indícios físicos para sua genialidade. Mas o estudo do cérebro einsteiniano não levou a nada – talvez por falta de comparações. Uma hipótese, em todo caso, é a de que as células cerebrais no superdotado têm um número maior de conexões entre si do que numa pessoa comum. “Teoricamente, quanto mais conexões nessas células, melhores os recursos intelectuais de alguém, explica Cypel. Ampliadas pelo microscópio, essas conexões formadas no decorrer da vida parecem finas ramificações das células nervosas. É como se cada célula ou grupo de células guardasse certa quantidade de informações e essas conexões permitissem toda sorte de associação entre elas. “Mais conexões ajudam a buscar na memória pistas para criar soluções adequadas a qualquer problema”, suspeita Cypel. Segundo ele, também é possível que os neurotransmissores – substâncias responsáveis pelos estímulos nervosos – funcionem de maneira peculiar nos superdotados. Outros cientistas desconfiam que a superdotação possa ser causada por pequenas lesões ocorridas antes ainda do nascimento. A estranha ideia surgiu da observação dos idiots savants (idiotas sábios), pessoas retardadas devido a lesões cerebrais e, não obstante, capazes de exercer alguma atividade extremamente bem. Assim, os médicos citam casos de retardados capazes de realizar de cabeça complexos cálculos matemáticos. A superdotação não teria a mesma origem? “É apenas uma teoria”, acautela Cypel.

Para a bióloga gaúcha Eni Peinado Viñolo, da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre (PUC-RS), qualquer explicação isolada para o fenômeno é incompleta. “Todo o organismo do superdotado parece funcionar de forma mais harmônica do que na maioria das pessoas, frisa ela. Uma das razões estaria nos hormônios, produzidos em doses ideais no superdotado. Como os hormônios mexem com as emoções, o superdotado nem é muito lento para decidir, nem explode de impaciência. Também demora mais para alcançar o estado de estresse, o que o deixa mais apto ao estudo ou ao trabalho”, diz Eni. Hormônios bem sintonizados não fabricam superdotados, mas seriam parte da resposta para o enigma. A bióloga aponta ainda um fator, insuspeitado para os leigos, que após anos de estudo ela considera “importantíssimo”: a capacidade do organismo de absorver proteínas, substâncias essenciais para o sistema nervoso. Essa característica, transmitida geneticamente, faz com que certas pessoas consigam assimilar mais nutrientes até do que outras, beneficiadas por uma quantidade maior de alimento. “Isso ajuda a explicar o porquê da mesma proporção de superdotados independentemente da condição social e econômica”, diz Eni.

Tampouco há sinais de grandes diferenças entre homens e mulheres nesse terreno. Mas testes realizados por psicólogos americanos na década de 1970 produziram um curioso resultado: em matemática, os homens superdotados são, inexplicavelmente, melhores do que as mulheres superdotadas – e nas outras áreas testadas os resultados se equivalem. De acordo com outro estudo, entre crianças superdotadas a incidência de miopia é quatro vezes maior do que nas demais crianças da mesma idade. Em compensação, as crianças superdotadas tendem a ser mais altas e mais robustas. Além disso, uma terceira pesquisa indica que em cada três canhotos, dois são superdotados. Mas não se tem a menor ideia da relação – se é que existe – entre genialidade, de um lado, e miopia, robustez ou canhotismo, de outro.

Por enquanto, os cientistas estão mais preocupados em verificar o papel da genética na superdotação. A crença de que filho de gênio é gênio difundiu-se muito, embora a ciência não assine embaixo. Nos Estados Unidos, por exemplo, centenas de mulheres se candidataram a uma doação de um certo Instituto de Seleção Germinal, fundado por um magnata americano em 1980, com o expresso objetivo de “aperfeiçoar a espécie”. Seria, talvez, mais um banco de esperma, não tivesse entre os seus doadores prêmios Nobel como o físico William Shockley, que na década de 1950 inventou o transistor. No entanto, para a decepção das candidatas, as mães de superdotados (mulheres geralmente casadas com homens estéreis) filhos de pais ilustres, até hoje não nasceu nenhum gênio. Outra linha de pesquisa sustenta que qualquer um pode ser gênio, independentemente da bagagem genética desde que seja estimulado nos primeiros anos de vida.

Pesquisadores soviéticos acreditavam que o terceiro ano de vida é o limite máximo para se aumentar a capacidade intelectual de alguém. Por isso, os pais são exortados a proporcionar aos bebês todo tipo de estímulo sensorial: jogos de luzes, audição de ruídos diversos, massagens, além de muita ginástica, porque o desenvolvimento do sistema nervoso acompanharia o desenvolvimento físico geral. Nos Estados Unidos, métodos muito parecidos estão sendo usados, e o treinamento pode começar na barriga da mãe. Através de aparelhos ligados ao ventre da gestante, o feto ouviria de sinfonias a concertos de rock, além das vozes dos pais. Os adeptos dessa prática asseguram que os bebês, após esse aprendizado intra-uterino, nascem mais fortes e desenvolvem reflexos precocemente. Na pior das hipóteses, mal não fará.

O psicólogo americano Glenn Doman, citado até no filme Presente de grego, estrelado pela atriz Diane Keaton, é um dos pioneiros na educação de superbebês. No seu instituto, na Filadélfia (EUA), Doman alega que consegue ensinar crianças de 3 anos a ler, falar uma língua estrangeira e ainda dominar as quatro operações com números de até dois algarismos. Essas proezas costumam ser divulgadas com boa dose de sensacionalismo, mas as explicações são relativamente simples. Uma criança tem facilidade natural para aprender mais de um idioma, como qualquer filho de emigrante sabe. Em relação a saber ler e calcular, Doman admite que seus superpacientes não entendem nada do que fazem, apenas decoram o que lhes é mostrado em desenhos e fotos. Esse tipo de treinamento é visto com extrema reserva pela maioria dos pedagogos. Eles acham que decorar coisas demais nos primeiros anos de vida pode até inibir a criatividade. Mas Doman insiste que a criatividade pode ficar para depois: o importante, segundo ele, é armazenar o máximo de informações num primeiro momento. O cérebro seria programável como a memória de um computador, diz ele.

Outros centros de estudos surgem não propriamente para criar gênios, e sim para desenvolver os superdotados identificados em escolas comuns. Japão, Estados Unidos e Israel são os países que mais investem em centros de estudos especiais para superdotados e têm, juntos, cerca de 2 mil desses centros. Entre os educadores, porém, há uma polêmica. Muitos, como a pedagoga Therezinha Fram, presidente da Associação Brasileira para Superdotados, em São Paulo, acham que “os superdotados não devem ser separados. As escolas comuns é que devem enriquecer seus currículos, prevendo que terão alunos com um nível de exigência maior do que a média”. Propostas nessa direção foram apresentadas no I Encontro de Brasília sobre Superdotados. Após três dias de debates, 180 especialistas entregaram ao Ministério da Educação um documento no qual solicitam que empresas e escolas criem projetos para superdotados aperfeiçoarem seus talentos. Serve de modelo o projeto da Universidade de Campinas (Unicamp), onde haverá cursos para crianças com grande habilidade para a informática.

Na reunião de Brasília, também se apontou a necessidade de ensinar as professoras a identificar alunos superdotados. Muitos educadores, por exemplo, parecem achar que estudante com nota baixa não pode ser superdotado em hipótese alguma. Mas nem sempre o boletim é o melhor atestado de superdotação – o contrário pode ser verdade. “É relativamente comum o superdotado ir mal na escola”, conta Therezinha. “Por exemplo, alguém com muito talento em matemática pode se fechar num mundo de cálculos e se esquecer das demais matérias”. Outra característica comum é a indisciplina, porque o superdotado aprende em 5 minutos aquilo que seus colegas levam uma hora. “E daí o resto do tempo é consumido em atitudes que muitas vezes irritam o professor mal preparado”, comenta a pedagoga. Além disso, os cientistas sabem que a inteligência não é um atributo que se define exclusivamente como uma rua de mão única. Observando os superdotados, eles descobriram que existem pessoas com um incrível poder de síntese e que são apenas medíocres na capacidade de analisar um problema; outras são criativas, mas não usam a lógica. Na maneira convencional de ver as coisas, só é gênio quem sabe usar a cabeça de modo excepcional. Na verdade, qualquer aptidão humana exercida com soberba mestria é coisa de superdotado.

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