Considerações sobre o bullying

Crônica de Josué Orrico no blog “O Cachorro Tá Preso?”

Chris - bullyingRafael morava na mesma rua da escola. Isso, no entanto, não o impedia de estar sempre atrasado para as aulas. Apesar de estarmos na terceira série, ele já havia repetido de ano duas vezes. Já tinha bigode, sobrancelhas grossas, sardas espalhadas pela pele e uma voz ressoante. Sendo o mais velho da classe, era também o mais alto. Estava sempre com uma expressão nervosa esculpida no rosto severo, que usava para impor respeito. Não tinha amigos, andava se intrometendo nos grupinhos e nas brincadeiras. Era um clichê. Certo dia me cansei das agressões gratuitas e quis revidar. Levantei da cadeira, atravessei a sala e lhe dei um chute na canela. Ele, de esperado, não gostou. Na saída para o recreio ele passou por mim e enfiou a ponta do joelho em meu estômago. Apesar do golpe, aquela foi a última vez que agiu violentamente comigo.

O inesperado deu as caras pouco tempo depois: Em um trabalho de pares, acabei ficando sem grupo e Rafael também. A professora olhou com desconfiança para a dupla, mas acabou permitindo. Combinamos de pesquisar juntos naquela tarde. Assim feito. Depois do almoço, pegamos cada um sua bicicleta, nos encontramos em uma esquina e saímos a pedalar pelo bairro. Não me lembro direito, mas tenho a certeza de que visitamos um campo de argila que ele conhecia e tinha me mostrado o caminho. Na volta, perguntei o que ele preferia, se Matemática ou Português. “Matemática”, ele disse, “a professora de português é muito chata”.

Rafael foi só mais um. Houve muitas outras agressões, de diferentes tipos, em diferentes lugares. Sempre fui o alvo predileto de quase todo mundo. Da minha voz ao meu Pokemon de estimação, tudo era motivo de chacota. Mas o tempo passou. Hoje estou vivo, saudável, realizado e satisfeito. Não há nada que aconteceu antes que não possa ser lembrado com carinho. Pensar nisso me levou a uma conclusão. Em tempos de politicamente correto, a sociedade parece abrir os olhos para concepções artificiais e virar as costas para algo muito mais importante: a natureza. A mesma natureza que diz que o mais forte prevalece sobre o mais fraco, que diz que quem não sabe se defender é cortado do jogo sem piedade nenhuma. Que diz que o ser humano, desde criança, é um ser vil e egoísta, disposto a qualquer coisa por seus objetivos torpes e gananciosos.

Enquanto o governo federal produz cada vez mais campanhas contra isso que batizaram de bullying, a tradição se repete incontrolável: os valentões e as gostosas continuam a reinar incólumes, acima de gordos, baixinhos, afeminados e nerds. Esses, por outro lado, crescem torturados, sem qualquer capacidade de se virarem sozinhos. Seus defensores ativistas não sabem, mas em nada ajudam. As campanhas, por sua vez, direcionam-se ao agressor ao invés do agredido. O resultado talvez seria outro se, ao invés de dizer “não pratique bullying“, elas se virassem para a vítima, apontasse o dedo em suas caras e gritasse: “Aprenda a se defender!”. A vida não é fácil. Crianças não devem achar o contrário, apenas por que ao lado delas está alguém capaz de protegê-las de quem quer que seja. É na infância que se aprende a viver, a sofrer, a não confiar em qualquer um e a não aceitar injustiças. É na infância e na adolescência que se supera todas as dolorosas fases do crescimento. O bullying é só uma delas. Quem sabe Rafael no fundo precisasse apenas de um chute na canela. Ou então de alguém com quem sair, andar de bicicleta, conversar. Quem sabe eu também precisasse disso. Fica a sugestão.

.

A vingança do bullying

Bullying é um termo em inglês utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo ou grupo de indivíduos (“bully” = valentão) com o objetivo de intimidar ou agredir outro indivíduo incapaz de se defender. Na prática, o lugar onde o bullying aparece com mais frequência é nas escolas, onde aquele aluno que se destaca de uma forma negativa, seja por ser gordo, pobre, nerd, tímido, afeminado, etc. é atacado pelos colegas de turma. Sempre tem um que é o centro das piadas, e esse, uma hora ou outra, vai descarregar toda a sua fúria de alguma maneira. O vídeo abaixo foi um dos mais vistos do YouTube na semana passada. Um aluno gordinho vítima de bullying chegou ao limite de sua paciência e resolveu reagir.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Uma opinião sobre “Considerações sobre o bullying

  • 4 de abril de 2016 em 14:52
    Permalink

    Quando pedimos para uma criança se “defender”, você acha mesmo que ela o fará? Como você mesmo disse, existem valentões e uma minoria que infelizmente possui o “comando” das escolas.
    É necessário então estas campanhas. Os agressores, aqueles que você guarda raiva, também precisam de tratamento, eles são desda maneira por que algo os fez assim.
    A proteção dos agredidos por sua vez é colocada, já que a escola entende e participa do convívio escolar – graças as campanhas que aumentam e a fiscalização também.
    Bullying não é brincadeira, brincadeira é quando ambas as partes se divertem.
    A partir do momento em que a agressão é incentivada, os jovens acham que é somente dessa maneira com que se resolve as dificuldades da vida, mas nós sabemos que não é tão fácil assim. Violências não ocorrem somente no âmbito escolar, mas também na sociedade em geral. Verbalmente, fisicamente, sexualmente e até mesmo negligenciando alguém que precisa de ajuda.
    Resposta de uma Pedagoga especialista em bullying e também uma vítima dessa horrível realidade.

    Resposta

Deixe uma resposta:

%d blogueiros gostam disto: