Estudar não é o mesmo que ler

Artigo do professor de filosofia Alexandre Machado, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), publicado no blog Problemas Filosóficos.

estudandoÉ muito comum ouvir que no curso de filosofia devemos ler muito, que é um curso para quem gosta de ler, e coisas semelhantes. Isso é verdade, é claro. Todavia, a ênfase que se costuma dar à leitura, principalmente para aqueles que estão iniciando seus estudos em filosofia, ofusca a importância primordial que outra atividade tem nesses estudos: a escrita. Mas por que a escrita é importante? Ela é importante por mais de uma razão.

É muito comum ouvir também coisas como: “Eu entendi, mas não sei explicar” ou “Eu sei, mas não sei dizer”, como se tudo estivesse correndo bem no âmbito dos pensamentos e o problema fosse apenas uma inabilidade linguística de expressar os pensamentos de maneira clara e ordenada. Os pensamentos estariam lá, todos claros e bem ordenados. Mas na hora de colocá-­los no papel, as palavras parecem fugir. Não vou dizer que um fenômeno semelhante a esse nunca ocorra. Mas na maioria esmagadora dos casos, o que ocorre é simplesmente a ilusão de entendimento. A pessoa acha que entendeu, mas de fato não entendeu.

Para se desfazer dessa ilusão, pergunte­-se: como eu sei que entendi? A certeza de que entendeu não pode ser suficiente para justificar a alegação de entendimento. Que outro critério poderia haver para o entendimento se não a habilidade de explicar o que foi dito ou lido, de colocar em palavras de forma tão clara e ordenada quanto a daquele que falou ou escreveu? A escrita funciona no estudo como uma espécie de experimento ou teste para verificar o entendimento. Essa é a razão pela qual, em provas discursivas de filosofia, o que se pede é que o aluno explique problemas e teorias filosóficas, que expresse em palavras o entendimento que se tem delas.

A ilusão de entendimento não ocorre apenas nos níveis elementares de estudo. Mesmo pós-­graduados estão sujeitos a ela. Essa ilusão ocorrerá, então, num nível não elementar do trabalho filosófico, mas é o mesmo fenômeno. O exercício da escrita também serve para que nosso modo de expressão se torne mais e mais claro, preciso, não­ambíguo, etc. Uma razão menos importante, mas ainda assim importante, é o fato de que escrever é uma maneira de memorizar o que foi lido ou ouvido e o nosso entendimento do que foi lido ou ouvido. Memorizar coisas certamente não é tudo o que se faz ao estudar. Todavia, isso é certamente uma condição necessária para um bom estudo. Memorizar não significa aceitar de forma não crítica. Antes de criticar uma teoria ou a formulação de um problema filosófico, devemos memorizar essa teoria ou problema. Se não temos a capacidade de lembrar a teoria ou problema, como vamos ter a capacidade de criticá-los?

Mas como deve ser esse exercício de escrita? Essa escrita deve expressar nosso entendimento do que foi lido ou ouvido. Mas o que tentamos entender quando lemos um texto de filosofia ou assistimos a uma aula? Um texto de filosofia é um texto em que se procura apresentar e lidar com problemas filosóficos. Boa parte desse trabalho consiste em analisar definições, teses e argumentos. Portanto, o que se deve exercitar escrevendo é a capacidade de explicar definições, teses e argumentos. Para isso às vezes é necessário ler o mesmo texto várias vezes. Se for uma exposição oral, às vezes é necessário fazer muitas perguntas. Dado que se trata de entender definições, teses e argumentos, a qualidade desse entendimento é proporcional à sua competência lógica.

Na busca de uma forma de expressão mais clara, precisa e não ambígua, alguma regras bem gerais são úteis. Uma delas consiste em não multiplicar o vocabulário sem necessidade. É melhor ser repetitivo do que perder clareza em função da substituição de uma palavra por um (suposto) sinônimo apenas para evitar a repetição. Não se deve inventar novas palavras para o que já tem nome, exceto se houver uma boa razão para isso. O uso de frases curtas é sempre preferível. Frases mais longas, cheias de vírgulas e parênteses, geralmente são menos claras e o risco de se cometer erros gramaticais na sua redação é maior. Deve-­se colocar a clareza sempre à frente da beleza. Um texto ideal é um texto claro e belo. Mas nem sempre isso é possível. Entre uma formulação bela porém obscura e outra feia porém clara, esta última é preferível. Um bom texto geralmente é resultado de muitas revisões.

Veja também: Como escrever um texto de filosofia

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