Destino existe?

Matéria publicada na revista Superinteressante.

Só podia ser destino. Eu, um dos autores desta reportagem, tinha 17 anos e estava apaixonado. Platônico total: tinha conhecido a menina 8 meses antes, numa viagem. A gente ficou junto e no dia seguinte foi cada um para o seu canto. A menina, para a cidade dela, e eu, para a minha. Não teve troca de telefone nem nada. Fim. Mas a moça não saía da minha cabeça. Seis, sete, oito meses e a coisa só aumentava. Ir atrás dela? Esquece. A mulher morava numa metrópole de mais de 1 milhão de habitantes – e nem o sobrenome dela eu tinha. O certo mesmo era pôr a cabeça no lugar e partir pra outra. Então pensei bem e tomei a decisão mais sensata: ir atrás dela. Desci na rodoviária do lugar, fiquei umas horas andando por lá sem eira nem beira… Mas aí, minha nossa! Ela, a própria, me passa andando bem ali, do outro lado da calçada. Atravesso a rua com o batimento acelerado. Tinha dado certo. Só podia ser destino.

Encontrar um amor, ganhar na loteria, escapar de uma batida de carro, bater o carro… Vários capítulos da vida acontecem de um jeito tão inesperado que não dá para não pensar: é tudo acaso mesmo? Ou existe algo misterioso regendo a existência? A ideia de um futuro predeterminado move filosofias e religiões. E serve de combustível para um dos conceitos mais antigos da humanidade: o de que alguma coisa rege nossa vida. A crença de que nosso futuro já está determinado é parte do que somos. O problema é que nosso cérebro tem um defeito congênito: ele é programado para encontrar sentido em qualquer coisa, inclusive para a existência. Quer ver como isso funciona, Rafael? Bom, quem se chama Rafael acabou de ver. Poderíamos ter escrito qualquer nome aqui. Mas se for o seu, Juliana, isso vai parecer especial. Claro que ver o seu nome impresso do nada já é algo especial. Mas sua mente tende a achar mais especial. Até as mentes mais céticas imaginam naturalmente que uma força superior determinou isso. O destino, talvez. Mas a realidade é que escolhemos Rafael e Juliana porque são nomes comuns. A chance de acertarmos o nome de vários leitores não era desprezível.

Um exemplo mais claro: imagine que o próximo sorteio da Mega-Sena dê 01, 02, 03, 04, 05 e 06. Seria destaque do Jornal Nacional, conversa de almoço de domingo… Mas a chance de dar uma sequência dessas é estatisticamente a mesma de sair uma que o cérebro entende como mais comum, tipo 06, 13, 17, 27, 45 e 54. A diferença é que a nossa mente adora padrões. E a ideia de que todos os acontecimentos da nossa vida orquestram-se rumo a um destino predefinido é a quintessência dessa coisa de ver padrão em tudo. E basta uma coincidência qualquer, como seu nome impresso aqui ou a menina encontrada no meio de uma cidade grande, para engatilhar essa impressão. Por isso mesmo todas as culturas desenvolveram métodos de prever o futuro. Ele podia estar desenhado em tripas de carneiro, nuvens, restos de placenta… Mas nenhuma forma de tentar prever o futuro chegou com tanta força ao presente quanto a astrologia.

Ligar o movimento dos astros aos trancos e barrancos da vida aqui embaixo é algo que começou na pré-história. Esse hábito deriva de uma observação simples: a de que a posição do Sol não varia apenas de acordo com as horas do dia, mas também com a passagem do ano. Observando os pontos em que o Sol nascia no horizonte, nossos ancestrais notaram que ele ia mudando de direção com o passar dos meses. E logo identificaram um grupo de constelações posicionadas perto dessa rota aparente do Sol. Ao contrário das outras estrelas, que se movem visivelmente ao longo do ano, aquele anel de constelações, que os gregos batizaram de “círculo de animais” (ou “zodíaco”), parecia fixo. Também notaram que a posição do Sol em relação ao zodíaco tinha ligação com o clima e as estações. O nascimento do Sol próximo à constelação de Áries marcava o equinócio de primavera – o momento em que o dia e a noite têm duração idêntica.

Essa data sempre teve importância simbólica: marcava a entrada da primavera no hemisfério norte e era centro de celebrações religiosas relacionadas à fertilidade. A conclusão era que aquelas constelações influenciavam a duração dos dias e o clima – parecia lógico, então, que também tivessem poder sobre a vida humana. Daí vieram os primeiros horóscopos, que já eram produzidos na Mesopotâmia de mil anos antes de Cristo de maneira idêntica à de hoje. Se uma criança vinha ao mundo no período em que o Sol nasce na parte do céu ocupada por Libra, a vida dela era “regida” pela constelação – na prática, o conjunto de estrelas era entendido como uma divindade. O costume passou para os gregos, romanos, e daí para o mundo. A astrologia já teve prestígio de ciência – até o século 17 quase todo astrônomo também era astrólogo, incluindo aí gênios científicos como Johanes Kepler. Isso acabou. Mas o poder da astrologia não. Estima-se que 70% das pessoas no Ocidente leiam o horóscopo.

O conceito de destino sofisticou-se com o tempo. Ele se tornou fundamental para a filosofia e a religião. E continua até hoje. Tanto que uma das doutrinas mais antigas sobre o assunto ainda está em voga: a do carma, elaborada há pelo menos 3 mil anos na Índia. De acordo com ela, nada acontece por acaso: todos os fatos na vida de um indivíduo são consequência de suas ações em existências passadas. “Nosso caráter é resultante total de nosso passado, e o nosso futuro será determinado por nosso presente. Quando dizemos que algo ocorreu por acaso ou por acidente, isso se deve ao nosso conhecimento limitado dos fatos”, diz Swami Nirmalaiatmananda, líder do movimento religioso vedanta no Brasil. Embora o plano geral de nossa vida já esteja traçado antes do nascimento, a teoria do carma deixa espaço à liberdade humana: cada pessoa pode tentar agir com virtude e ir “descontando” a carga das vidas passadas. Quem acertar as contas cármicas será recompensado na próxima reencarnação; mas quem ficar no vermelho terá de pagar com acidentes e desgraças.

Alguns pensadores da Grécia Antiga tinham uma visão parecida, mas menos liberal: defendiam que não dá para escapar do que estiver reservado para você. Eram os adeptos do estoicismo, uma das correntes filosóficas mais influentes da Antiguidade. De acordo com os estoicos, o futuro é tão inalterável quanto o passado. Zero de livre-arbítrio. Na mesma época em que o estoicismo ganhava força, por volta do século 4 a.C., surgiu uma corrente com ideias opostas: o epicurismo. Se os estoicos achavam que o Universo era uma ordem perfeita, Epicuro afirmava que a essência de tudo o que existe é o caos. O nosso mundo e a nossa vida seriam fruto do acaso. E pronto. Essa ideia seria retomada no século 20 por filósofos existencialistas, como Jean-Paul Sartre. Para ele, acreditar em um futuro com cartas marcadas equivalia a escapar da responsabilidade de tomar decisões. Os existencialistas afirmaram, com isso, a total liberdade humana – mas também legaram o receio de viver num mundo sem sentido. Afinal, isso vai contra aquele instinto básico do cérebro de tentar ver sentido e ordem em tudo.

Na história do cristianismo – e das outras religiões monoteístas -, o problema do destino assumiu vestimentas teológicas. A história da traição de Judas a Jesus ilustra bem isso. Os Evangelhos deixam bem claro que a crucificação de Cristo fazia parte dos planos divinos – mas a cruz só foi possível graças ao maligno feito de Judas. Nesse caso, Judas estaria predestinado a ser mau? A resposta mais radical foi dada pelo protestante francês João Calvino no século 16. Na obra Instituição da Religião Cristã, ele formulou a teoria da predestinação. Segundo ela, Deus escolheu de antemão um (pequeno) número de pessoas para a salvação eterna – e condenou previamente a maioria das pessoas ao inferno. Assim como Judas, a maior parte da humanidade estaria simplesmente destinada ao mal e à punição. “Se a negação do destino traz angústia pela responsabilidade das escolhas humanas, a doutrina da predestinação angustia porque, no fundo, não temos como saber qual a escolha divina”, explica Franklin Leopoldo, da USP.

A Igreja Católica sempre frisou o livre-arbítrio como uma peça necessária à responsabilidade moral. Afinal, se as pessoas fossem boas ou más por decreto divino, qual o sentido de recompensá-las ou puni-las? A teologia muçulmana procurou um meio-termo entre o livre-arbítrio e a providência divina: o homem é livre para agir, mas Deus já sabe de antemão o que cada um de nós vai fazer ou deixar de fazer. “Deus tem o pré-conhecimento de todas as escolhas que tomaremos, mas não nos obriga a tomá-las; sabe tudo o que vai acontecer, mas não provoca os acontecimentos”, explica Sami Arrmed Isbelle, diretor da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro. O surreal é que a ideia de um futuro predeterminado e ao mesmo tempo inescrutável tem uma colaboradora inusitada: a ciência. Ela indica que, sim, seu futuro está escrito. Como disse Einstein: “A distinção entre passado, presente e futuro é uma ilusão”.

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O que a Teoria da Relatividade diz sobre destino?

Imagine tudo o que está acontecendo agora, neste segundo. Você acaba de piscar o olho. Uma moeda afunda na água da Fontana di Trevi, em Roma. Mick Jagger escova os dentes. O Sol se põe num vale de Marte. Alguma forma de vida de uma galáxia muito, muito distante, acorda para ir trabalhar. Só dá um desconto: pode ignorar que você não tem como saber se tudo isso está acontecendo mesmo. Só pense nessas imagens como um retrato do Universo inteiro neste momento. Agora vou pedir que um leitor de uma galáxia muito, muito distante faça o mesmo exercício. Na ideia de agora que ele faz do Cosmos vai estar você piscando o olho, a moeda e tudo o mais? Vai. Mas aí o leitor da outra galáxia fica com sede e se levanta para tomar um copo de arsênico. Agora que ele está na cozinha eu peço que ele faça outro retrato mental do Universo. Neste momento muda tudo. Na nova imagem dele, feita só 10 segundos depois, a Terra estará no ano de 2100. Isso acontece porque a forma como os indivíduos percebem a passagem do tempo muda conforme eles se movimentam.

Foi o que Einstein descobriu: quando a sua velocidade aumenta, você corre em direção ao futuro mais rápido do que quem está parado. Se você vai de bicicleta até a padaria, chega lá mais no futuro do que se tivesse ido a pé. Uma fração de quatrilhonésimo de segundo no futuro, mas chega. Se a bicicleta andasse a 1,07 bilhão de quilômetros por hora (quase à velocidade da luz), você sairia de casa em janeiro de 2011 e compraria seu pão no século 22. Sob as velocidades do dia a dia, o efeito temporal é minúsculo. Mas existe. Só que a história muda quando entram distâncias muito grandes na jogada. A geometria da coisa é complexa demais para entrar neste texto. Mas, resumindo, é o seguinte: distâncias intergaláticas de bilhões de anos-luz amplificam o efeito da velocidade. Por isso que no exemplo do leitor de outra galáxia bastou uma caminhada até a cozinha a menos de 10 km/h para dar aquele salto de 100 anos. Esse exemplo, criado pelo físico Brian Greene, da Universidade Columbia, entrou aqui para deixar claro um postulado da física: o de que todos os pontos de vista são válidos, mesmo o de um personagem hipotético, como o nosso.

Se ele existisse, sua noção de agora, as coisas que o personagem imagina como reais no presente dele, poderiam incluir fatos que para nós ainda não foram resolvidos – como quem será o presidente da República em 2100 (se ainda houver República). Naquilo que para ele é um passado remoto, estaria o dia e a causa exata da sua morte. E você não tem como mudar isso. Em outras palavras: seu destino está decidido. Por isso Einstein disse que a diferença entre passado, presente e futuro é ilusória. Na prática, tudo o que ainda vai acontecer já aconteceu. Para enxergar isso melhor, pense no Universo como ele realmente é: um grande rolo de filme. Cada frame ali é um instante no tempo. No primeiro, está o início de tudo, o Big Bang. No último, o fim do Universo (seja lá como for esse momento). No meio há um frame com uma fração de segundo do dia da fundação de Roma, outro com o primeiro ensaio dos Beatles, outro com o melhor dia da sua vida, outro com a formatura do seu neto… A Teoria da Relatividade mostra que todos os momentos da existência “acontecem” ao mesmo tempo.

Mas, se o futuro já está determinado, não dá para saber o que tem lá na frente? Aí os físicos são unânimes: nem a pau. “Para fazer isso, precisaríamos de uma espécie de supercomputador. Mas nada pode computar mais rápido que a própria natureza”, diz o holandês Gerard Hooft, Nobel de física de 1999. Ou seja: para desvendar a natureza, as fatias do futuro, só com uma máquina maior que a própria natureza. Mas, para alguns (poucos) cientistas, esse artefato existe. É você. Nosso cérebro seria capaz de sentir o futuro. Um desses pesquisadores é o psicólogo americano Daryl Bem, da Universidade Cornell, uma das mais respeitadas dos EUA. Daryl pesquisa a influência do futuro sobre o nosso inconsciente. Ele usa experimentos clássicos da psicologia, como este aqui: primeiro coloca um grupo de voluntários com telas de computador na frente. Então ele vai mostrando fotos e os voluntários têm que dizer se a imagem é “positiva” ou “negativa” (tem um botão para cada resposta). Básico: se aparecer uma foto feia, de vermes sobre carne podre, por exemplo, você tem que apertar “negativo”. Se surgir a de um bebê ou outra coisa bonitinha, aperta “positivo”.

Mas tem um extra aí. Esse experimento serve para testar o efeito de mensagens subliminares. Antes de aparecer a foto da carne podre, por exemplo, os pesquisadores fazem uma palavra negativa (tipo “nojo”) piscar na tela por uma fração de segundo. Não dá tempo de ler. Mas o “nojo” fica impresso no subconsciente dos voluntários. Aí, quando eles veem a foto da carne podre, apertam o botão de “negativo” mais rápido. É uma reação clara à mensagem subliminar. A diferença é que Daryl faz o mesmo experimento ao contrário: coloca a mensagem depois da foto. A influência dela deveria ser zero nesse caso, óbvio. Mas não: alguns dos voluntários passam a apertar o botão com mais rapidez, como se tivessem visto a palavra antes da imagem. A conclusão de Daryl é que eles conseguem ver o futuro. Só tem um problema: os resultados são pouco convincentes. A mensagem subliminar do futuro “faz efeito” em coisa de 52, 53% das vezes – e o acaso já garantiria 50%. Seja como for, a verdade é que a ciência ainda não criou uma forma de conciliar livre-arbítrio com Einstein.

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Nosso destino pode ser traçado na gravidez

Aos 29 anos, Charles Gaston entrou em uma loja de conveniência na cidade de Sacramento, capital do estado da Califórnia, nos EUA, com o indicador esticado sob a jaqueta. Fingindo ter uma arma, ele ordenou ao balconista que esvaziasse o caixa. Mas o funcionário tinha um revólver de verdade e tentou colocar o gatuno para correr. Seu erro foi não ter disparado, pois Gaston se aproximou da vítima, tomou a arma e atirou na cabeça do infeliz, que morreu na hora. O assassino ficou ao lado do corpo até a chegada da polícia e não levou nada da loja. A julgar pela gravidade do crime e pela ficha suja do réu, que tinha no currículo duas prisões por roubo, a Justiça não hesitou em decretar a pena máxima: execução. Mas o advogado do criminoso alegou que ele era um desequilibrado mental e conseguiu livrá-lo do corredor da morte. O argumento: como havia nascido de uma mãe alcoólatra, Gaston tinha desenvolvido alguns sintomas que caracterizam o que os médicos chamam de síndrome alcoólica fetal.

Segundo uma testemunha, a mãe tinha entornado umas e outras até mesmo na noite do parto. Por causa desse comportamento inadequado – o álcool é proibido durante toda a gravidez, até mesmo em pequenas doses -, o filho, ainda no útero, sofreu danos irreversíveis no cérebro, que se transformaram em graves problemas de comportamento na infância e na adolescência. De acordo com a defesa, na vida adulta de Gaston, a irresponsabilidade materna teria tido uma grande parcela de culpa na sua entrada no mundo do crime. O juiz se comoveu com a história, mas não a ponto de livrá-lo do xilindró. O assassino foi condenado a passar o resto da vida na cadeia, sem possibilidade de recurso. A decisão do juiz, com base no relato de uma testemunha, pode parecer polêmica. Mas, do ponto de vista científico, faz todo sentido. O seu destino pode, sim, ser influenciado pelos 9 meses que você passou dentro do útero – e pelas decisões que a sua mãe tomou durante o período.

O julgamento de Charles Gaston aconteceu em 1989. Na época, o conceito de “origens fetais”, que defende que o cérebro e o corpo do bebê são influenciados e alterados diretamente pelo ambiente, pela alimentação e pelas emoções da mãe, ainda estava engatinhando. Os primeiros estudos que confirmavam essa tese estavam apenas começando a ser levados a sério. Ainda havia resquícios de um consenso antigo, de que nenhuma substância tóxica era capaz de atravessar a placenta – órgão responsável pelo leva e traz de substâncias entre a mãe e o feto. De acordo com essa tese, a placenta só deixaria passar moléculas benéficas ao organismo em desenvolvimento. Essa crença foi aniquilada na década de 1960, de forma trágica, com o nascimento de milhares de bebês com membros mais curtos e dedos a mais ou a menos. A comunidade científica descobriu rapidamente que os defeitos de nascimento tinham relação com a talidomida, uma droga que estava sendo prescrita para ajudar as grávidas a enfrentar os enjoos, dores de cabeça e insônias típicos da gestação. O remédio foi banido por ter propriedades teratogênicas, o que significa que suas moléculas são capazes de interferir diretamente nas células do feto, matando ou provocando efeitos devastadores – e que, muitas vezes, duram a vida toda.

Em junho de 1967, Israel entrou em confronto direto com alguns países árabes, numa disputa por territórios e pelo controle político da região. E saiu vitorioso da chamada Guerra dos Seis Dias, que matou milhares de pessoas. Mas a supremacia não garantiu que seus cidadãos – e suas grávidas – ficassem imunes ao estresse causado por um conflito militar. A psiquiatra Dolores Malaspina, da Universidade de Nova York, pesquisou os registros de nascimento de quase 90 mil pessoas que nasceram em Jerusalém entre 1964 e 1976. E descobriu que os filhos das mulheres que estavam em gestação durante a guerra tinham, na vida adulta, índices altos de esquizofrenia – doença mental das piores, que provoca delírios e perda de contato com a realidade. As meninas concebidas e geradas no período do conflito tinham cerca de 4 vezes mais incidência da doença. Entre os meninos, o índice foi de 1,2.

Mas condições adversas durante a gravidez podem mudar até a cara de um país inteiro. De acordo com um estudo conduzido na Universidade de Southampton, na Inglaterra, países como a China e a Índia estariam enfrentando epidemias de obesidade, diabetes, hipertensão e problemas cardíacos com origem na alimentação. E não porque os chineses e os indianos comam mal – a dieta deles é mais saudável que a nossa. Mas porque, até algumas décadas atrás, esses países, que hoje são relativamente prósperos, eram pobres – e as grávidas que viviam por lá em geral tinham uma alimentação precária. Resumo: muitos fetos chineses e indianos foram programados dentro do útero para extrair o máximo possível de energia e nutrientes da dieta limitada da mãe. E depois viraram adultos com acesso a lanchonetes de fast food. O excesso de gordura é problemático por si só, mas nesses casos é ainda mais maléfico, pois o organismo dessas pessoas simplesmente não sabe como lidar com tanta comida.

E se os acontecimentos dentro do útero pudessem determinar a orientação sexual da pessoa já desde o feto? Pois uma série de estudos aponta que essa ideia não é tão descabida assim. O psicólogo Anthony Bogaert, da Universidade Brock, em Ontário, no Canadá, se debruçou sobre o histórico de cerca de mil homens e publicou um estudo, em 2006, no qual indicava que filhos mais novos de mães que tiveram outros meninos têm mais chances de ser gay. A base científica, segundo a pesquisa, é o sistema imunológico da mãe. Na primeira gestação de um menino, ela cria anticorpos que atacam as proteínas produzidas pelo feto do sexo masculino, que são estranhas ao corpo feminino. Nada muito radical acontece com o primeiro bebê. Nas gestações seguintes, no entanto, esses anticorpos, cada vez mais potentes, agem diretamente sobre o cérebro do feto e – de uma forma ainda desconhecida – fazem com que a orientação sexual seja definida antes do nascimento. “Segundo nossos estudos, de 15 a 25% dos gays desenvolvem a homossexualidade dentro do útero por causa desse fator”, afirma Anthony Bogaert.

Os dados são recentes, mas já tinham sido pincelados em estudos anteriores, como os do célebre pesquisador Alfred Kinsey, que, nas décadas de 1940 e 1950, apontou que a prevalência de gays era maior em homens com irmãos mais velhos. Os estudos de Bogaert não são os únicos que tentam localizar fatores biológicos para a homossexualidade. Uma das ideias mais difundidas é a que atribui a orientação sexual aos hormônios femininos da mãe – os gays seriam fetos masculinos que sofreram mais influência desses hormônios dentro do útero, o que explicaria um “cérebro” feminino em um corpo de homem. Essa linha de investigação também explicaria a percepção de que há mais gays do que lésbicas no mundo. Afinal, é muito mais fácil o feto masculino ser exposto ao excesso de hormônio feminino (porque está dentro do corpo de uma mulher) do que o contrário. Se essas pesquisas forem comprovadas, acabaria de vez a crença de que a homossexualidade é algo reversível. Ela seria de nascença – estava predestinada.

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Os genes não definem nosso destino

Jim Springer e Jim Lewis eram gêmeos idênticos americanos que foram adotados por famílias diferentes ao nascer. Passaram a infância e a juventude separados, casaram e descasaram, e se reencontraram aos 39 anos de idade – apenas para descobrir que eram realmente iguaizinhos. “Ambos se casaram com mulheres chamadas Linda, divorciaram-se e casaram-se pela segunda vez com mulheres chamadas Betty. Um deu a seu filho o nome de James Allan, o outro deu a seu filho o nome de James Alan, e ambos tiveram cães chamados Toy”, observou Thomas Bouchard, psicólogo britânico da Universidade de Minnesota, em 1979. Essa história inacreditável faz parte do Projeto dos Gêmeos de Minnesota, organizado por Bouchard, que há décadas estuda centenas de gêmeos para estabelecer elos entre traços psicológicos e a genética. Nesse caso, gêmeos idênticos separados no nascimento são os favoritos dos pesquisadores: como eles compartilham os mesmos genes, mas não foram criados juntos, é mais fácil separar o que vem do DNA e o que vem do ambiente.

Além dos dois Jims, o estudo encontrou diversos exemplos impressionantes. Como o par de gêmeos que foi criado separadamente, mas lia revistas de trás para a frente, dava descarga antes de usar o banheiro, e gostava de espirrar em elevadores. Ou as duas gêmeas que entravam no mar de costas e apenas até a altura dos joelhos. Lendo essas anedotas, fica impossível não acreditar que o destino está no nosso DNA – e que as decisões que tomamos ao longo da vida pouco importam, frente ao poder dos genes. Mas será que somos realmente tão impotentes em determinar nosso futuro? Durante muito tempo, ninguém duvidou da força do DNA, e o objetivo da ciência era desvendar a função de cada um dos nossos 25 mil genes. Os estudos de gêmeos foram muito importantes nesse processo. Descobriu-se até que decisões que pareciam pessoais ou sociais podiam vir da genética. As taxas de divórcio, por exemplo, são muito parecidas entre gêmeos idênticos (o que indica, por exemplo, que quem tem pouca paciência para discussões ou quem trai o cônjuge pode ter um irmão gêmeo que se comporte igual).

Já foram comprovadas similaridades em dezenas de características, da religiosidade ao QI. “Normalmente, dizemos que aproximadamente metade da variação em inteligência, personalidade e resultados de vida é hereditária”, afirma Steven Pinker, psicólogo evolucionista da Universidade Harvard. Ainda assim, é claro que não há possibilidade alguma de genes estimularem alguém a se casar com pessoas chamadas Linda ou Betty, por exemplo. “Em termos estatísticos, numa lista de mil atributos – marca e modelo de carro, programa de televisão favorito, etc. – de quaisquer duas pessoas, é inevitável encontrar várias coincidências”, aponta James Watson, codescobridor do DNA e primeiro líder do Projeto Genoma Humano. E mais: novas descobertas da genética mostram que os genes são muito mais flexíveis do que se imaginava – e que as decisões que tomamos, e nosso livre-arbítrio, felizmente têm um papel muito maior do que se esperava.

Överkalix é uma cidadezinha de 946 habitantes no norte da Suécia. O vilarejo vive do comércio local e muitos dos trabalhadores são empregados em indústrias de telecomunicação. Foi nesse fim de mundo que um grupo de pesquisadores notou um fenômeno estranho, que veio a público em 2001, e que está mudando a forma como os geneticistas entendem a sua área. Eles perceberam que os registros históricos indicavam um impacto ambiental violento na moldagem de seus habitantes. Depois de passarem por períodos de escassez de alimentos, os överkalixenhos começaram a viver mais. Até aí, tudo bem, não fosse por um detalhe surpreendente: os dias de fome aconteceram no século 19 – e a mudança na longevidade aconteceu com os avós dos atuais habitantes. Ou seja, alguma coisa na falta de comida fez com que as pessoas vivessem por mais tempo e ainda passassem essas características para as gerações seguintes.

Seria um indício do ambiente alterando os genes e perpetuando-os em seus descendentes? Como isso seria possível? Esse fenômeno lembra uma antiga teoria da evolução, anterior à de Darwin, concebida por Jean-Baptiste Lamarck. É aquela, tão ridicularizada por professores de escola, que sugeria que as girafas ficaram com o pescoço comprido porque suas ancestrais se esticavam para alcançar os galhos mais altos das árvores. Ao estender seu pescoço, elas então passariam a característica a seus descendentes. Hoje sabemos que a evolução não funciona assim, mas pelo processo de seleção natural, descrito por Darwin. No entanto, os dados de Överkalix parecem dar razão a Lamarck, não a Darwin: de algum modo, os avós dos habitantes foram modificados pelo ambiente e transmitiram a mudança à posteridade. Entra, então, em cena o novíssimo campo da epigenética, onde ambiente e genética trabalham juntos para decidir o seu destino.

Os cientistas estão mostrando que o funcionamento dos genes do DNA não depende somente das letrinhas inscritas nele. Algumas outras substâncias podem se conectar ou desconectar dos cromossomos e, assim, mudar a maneira como eles se expressam. É como se o seu genoma fosse o hardware e a epigenética o software: você já vem ao mundo com um aparelho prontinho (seu corpo com o DNA), mas o ambiente pode instalar e desinstalar programas que mudam quem você é. Essa revelação explicaria diversas perguntas ainda não respondidas. Seria possível entender como diferentes células do corpo humano podem cumprir funções distintas, apesar de todas terem o DNA idêntico. Também ajuda a explicar como um bebê tem alguns genes ativos que vieram do pai e outros da mãe. E permite, enfim, entender o que aconteceu em Överkalix. A epigenética é um campo que está ainda começando. Afinal de contas, estudar efeitos que combinam fatores ambientais e diversas gerações humanas não é coisa simples de ser feita. É preciso observar décadas de dados, com pelo menos algumas dezenas de famílias participantes, para obter resultados confiáveis. Por isso, o caso sueco é um dos poucos exemplos bem documentados.

Entretanto, os estudos com animais também permitem a detecção do destino agindo. Estresse, por exemplo. Ficou demonstrado em experimentos que ele pode ser herdado pelos filhos, uma vez que os pais adquirem o hábito. E essa conclusão veio de um experimento curioso realizado por cientistas da Universidade de Linköping, na Suécia. Tudo começou quando eles decidiram perturbar a paz de um grupo de galinhas. Normalmente, esses animais se guiam pela luz do Sol para se alimentar. Quando é dia, comem sem parar; à noite, descansam. Mas os pesquisadores resolveram expor as galinhas a padrões aleatórios de luz e escuridão. Estressadas, as bichinhas começaram a ser mais seletivas na alimentação, optando apenas por comidas nutritivas – afinal, não sabiam quando poderiam comer novamente. O curioso é que esse mesmo comportamento foi herdado por seus pintinhos, muito embora eles tenham passado a vida com os padrões regulares de luz solar. E não é que eles aprenderam esse padrão de comportamento com os pais. Os cientistas tomaram o cuidado de deixar que os pintinhos fossem criados longe das mães genéticas, e as adotivas que chocaram seus ovos não tiveram essa experiência estressante nem exibiam esse comportamento. Se o mesmo valer para humanos (e não há por que pensar que não), você pode ser particularmente nervosinho se seus pais passaram por muito estresse quando jovens.

Outros estudos, feitos com camundongos, demonstraram impactos igualmente inquietantes. Uma pesquisa da Universidade do Alabama, nos EUA, mostrou que mães roedoras que eram submetidas a estresse, e por isso se tornavam negligentes com seus filhotes, viam mais tarde sua cria maltratando os netinhos. Novamente, para eliminar o fator “aprendizado”, os cientistas experimentaram deixar que os filhotes fossem criados por mães adotivas amorosas. Mesmo assim, eles continuaram sendo maus pais quando adultos. Claramente o estresse sobre as mães mudou algo que foi transmitido hereditariamente aos filhos – e os tornou igualmente estressados. Com os humanos, há um estudo parecido, que mostra a má influência dos pais sobre os filhos. Uma pesquisa mostra que homens que começaram a fumar antes da puberdade (por volta dos 11 anos) têm risco muito maior de ter filhos obesos na vida adulta. Ou seja, um erro ainda durante a infância pode determinar a vida do filho que nem nasceu.

Mas esses são só os primeiros exemplos. Conforme as pesquisas forem evoluindo, e os geneticistas se aprofundarem no conhecimento do epigenoma humano, com toda a sua riqueza de variações, a tendência é descobrirmos mais e mais casos do tipo. Finalmente encerraremos essa falsa disputa entre natureza e criação na concepção do ser humano. Com essa descoberta, fica claro que o seu destino não está só nos seus genes mas também no seu estilo de vida, no ambiente em que você vive e na maneira como você lida com seus problemas. O DNA é cheio de contradições. Durante muito tempo achava-se que cada gene trazia a receita para uma proteína que, por sua vez, cumpria uma função específica (cor dos cabelo, por exemplo). Hoje, já se sabe que pedaços diferentes de genes se combinam para produzir novas proteínas: não dá mais para falar em um só gene da inteligência. Agora, então, que sabemos que o ambiente influencia a expressão do DNA, a ciência vai ter que voltar à sala de aula.

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