Como ser um estudante profissional

Todas as pessoas devem encontrar a sua vocação profissional e viver daquilo que mais sabem fazer. A maioria delas, quando descobrem o que querem fazer da vida, estudam até conseguir se tornar um profissional na sua área. Quando conseguem, param de estudar e vão procurar um emprego no mercado de trabalho, para exercer a profissão que aprenderam e colocar os conhecimentos adquiridos em prática. Algumas pessoas, porém, têm vocação para o próprio estudo: estudam muito para se tornar um estudante profissional e continuar estudando para o resto da vida. Esses optam por seguir a carreira acadêmica, continuam seus estudos na pós-graduação até o doutorado e se tornam pesquisadores, que são, podemos dizer, algo como “estudantes profissionais”.

Muita gente tem o hábito de preencher a palavra “estudante” na área destinada à profissão em formulários e documentos oficiais. Na grande maioria dos casos, isso é um erro. Um erro não porque a pessoa não seja de fato um estudante, mas porque isso quase sempre não é uma profissão. Profissão é aquilo que fazemos para sobreviver, é aquilo de onde tiramos nosso sustento, é a nossa principal fonte de renda. Qualquer atividade que eu pratique, por maior que seja a minha competência e excelência naquilo, não pode ser considerada a minha profissão se essa não for a minha principal fonte de renda. Portanto, mesmo que você não tenha um emprego formal e só faça isso da vida, ainda que com bolsa integral em uma instituição particular, não pode dizer que estudar é a sua profissão. Estudar pode ser a sua principal atividade, mas profissão é outra coisa.

Isso não quer dizer, todavia, que não haja estudantes profissionais. Como eu já disse, em nossa sociedade costumamos dar o nome de “pesquisador” a quem faz da carreira acadêmica a sua profissão. Na maioria dos casos, esse tipo de profissional trabalha também como professor universitário – essas duas atribuições, estudar e ensinar, quase sempre estão juntas. Mas, rigorosamente, um pesquisador é alguém que ganha a vida estudando (na verdade, pesquisando, que é um pouco diferente) e recebe um salário para estudar (ou pesquisar), quer seja do Estado (como é o caso das universidades públicas) ou da iniciativa privada – muitas empresas e indústrias contratam pesquisadores para desenvolver novas tecnologias. Em geral, para ser um pesquisador profissional, exige-se o título de doutor ou equivalente (PhD). No entanto, conquistar o título de doutor requer bastante tempo e esforço intelectual (pelo menos em tese, sem trocadilho). Além disso, antes de se tornar um pesquisador, você em geral precisa ser aprovado em um concurso público para fazer parte do corpo docente de uma universidade pública.

Antes de ser pago para estudar, portanto, é preciso se dedicar bastante e investir muito tempo e esforço nos estudos de maneira, digamos, “amadora”, ou seja, não remunerada, até conseguir provar o seu valor e passar a receber um salário por isso. É claro que, uma vez recebendo um salário pago com dinheiro público, esses “estudantes profissionais” (leia-se pesquisadores) não podem simplesmente estudar de qualquer jeito, como bem entenderem. Além de planejar e dar aulas, corrigir provas e trabalhos, orientar alunos, participar de bancas e eventos acadêmicos e desenvolver projetos de pesquisa e extensão, o professor universitário precisa produzir trabalhos acadêmicos relevantes para o avanço da ciência, publicá-los em periódicos e revistas especializadas para a apreciação da comunidade científica e julgar o mérito do trabalho de seus colegas. Portanto, se você gosta de estudar e quer fazer isso pelo resto da sua vida, se você acha que tem vocação para a carreira acadêmica, arregace as mangas e comece desde já a levar a sério os estudos, pois você tem muito trabalho pela frente.


O que é um professor universitário?

Trecho de um artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

Há muita confusão sobre quais seriam as reais atribuições de um professor universitário. Como esse é o cargo mais importante na carreira acadêmica, vale a pena dedicar um post inteiro a esclarecer essa questão. É claro que, na prática, o que cada professor faz no dia a dia varia muito entre universidades. Na verdade, há uma enorme variação mesmo entre professores de uma mesma universidade. As atribuições também mudam conforme se progride verticalmente na carreira: substituto, assistente, adjunto, associado, titular.

Em outros idiomas e culturas, a diferença entre um professor universitário e outros tipos de professor fica clara já no vocabulário. Por exemplo, no inglês, o termo professor se aplica apenas ao professor universitário, teacher é o professor de escola e lecturer é o docente universitário, geralmente com doutorado, mas sem título de professor. Sim, nos EUA, Inglaterra e outros países, professor, mais do que um cargo, é um título.

Então o que diferenciaria o professor universitário dos outros? Simples: esse cargo foi inventado para ser ocupado por profissionais que associam pesquisa e ensino. Essas duas atividades são indissociáveis no conceito original de professor universitário. Espera-se que um professor universitário esteja sempre na vanguarda da sua área, atuando na formação de profissionais de nível superior, ensinando-lhes não apenas o conhecimento já sedimentado, mas também as novidades e macetes. Para se formar em uma profissão de nível superior, o aluno tem que ser apresentado tanto aos fundamentos quanto à vanguarda. Acima de tudo, espera-se que um professor universitário produza ele mesmo algumas novidades. Um professor universitário tem a obrigação não apenas de transmitir, mas também de produzir conhecimento. E a transmissão de conhecimento se dá principalmente em sala de aula, passando informações consolidadas para os “aspiras”, e também divulgando descobertas em revistas técnicas indexadas e revisadas por pares.

Pelas leis brasileiras, a carreia de professor universitário envolve, em geral, os cinco pilares listados a seguir. Dependendo da universidade e do seu regimento interno, espera-se que o professor universitário envolva-se com no mínimo dois ou três desses pilares:

Ensino: disciplinas de graduação e pós-graduação, presenciais ou à distância.

Pesquisa: investigação científica ou tecnológica para produção de conhecimento. Na verdade, a área da pesquisa envolve mais um monte de coisas além da investigação e publicação, como revisão de artigos, editoração de revistas científicas, organização de congressos, administração de sociedades científicas, consultoria para agências de fomento, assessoria à imprensa, assessoria política dentro da área em que é perito, etc.

Orientação: formação de novos cientistas através de estágios e projetos orientados de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado.

Extensão: assessoria e divulgação de conhecimento científico e técnico para o público externo à universidade através de consultoria, palestras, cursos, exposições, museus, etc.

Administração: cargos de chefia em geral, cargos em órgãos representativos da universidade (câmaras, conselhos, congregações), gerenciamento de projetos, captação de verbas externas, contabilidade, direção de laboratórios, etc.

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