Como se lê um ensaio de filosofia

Artigo do professor James Pryor, da Universidade de Princeton (EUA),
traduzido por Álvaro Nunes para o portal Crítica.

Veja também:
Como ler um texto de filosofia
Como ler um texto filosófico
.

Vais ter dificuldade em compreender alguns dos textos que iremos ler. Isto é em parte devido a esses textos discutirem ideias abstratas em que não estás acostumado a pensar. Podem também usar vocabulário técnico que é novo para ti. Algumas vezes não será evidente qual é o argumento geral do texto. A prosa pode ser complicada e podes precisar de separar cada frase do texto. Eis algumas indicações para tornar o processo mais fácil e mais eficaz.

.

1. Lê superficialmente o texto para encontrar a sua conclusão e ter uma ideia da sua estrutura

Quando se tenta ler um texto difícil, uma boa maneira de começar é ler primeiro superficialmente o texto para identificar a conclusão principal do autor. Tem em especial atenção os parágrafos de abertura e de fecho, uma vez que frequentemente os autores dir-te-ão aí aquilo a favor de que tencionam argumentar. Quando souberes qual é a conclusão principal do autor, tenta reescrevê-la com as tuas próprias palavras. Isto ajudar-te-á a ter a certeza de que compreendes realmente aquilo que o autor pretende demonstrar. Quando estiveres a ler superficialmente o texto, tenta também ter uma compreensão geral do que trata cada parte da discussão. Qual é a estrutura do texto? Às vezes os autores dizem no início do texto como será a sua argumentação. Isto torna o teu trabalho mais fácil. Os textos que lemos nem sempre têm uma estrutura fácil de compreender. Nem sempre terão a forma: “Esta é a conclusão que quero que aceites. Aqui está o argumento a favor dessa conclusão…”.

Os filósofos frequentemente fornecem argumentos auxiliares, argumentos para premissas importantes a que apelam para suportar a conclusão principal. Por exemplo, a discussão do autor pode ter a forma: “A conclusão que quero que aceites é A. O meu argumento para essa conclusão é o seguinte: B e C são verdadeiros, e se B e C são verdadeiros, então A tem de ser também verdadeiro. É geralmente aceite que B é verdadeiro. Contudo, é controverso se C é verdadeiro. Penso que deves aceitar C pelas razões seguintes…”. Aqui o argumento principal do autor é para suportar a conclusão A. Ao defender A ele avança um argumento auxiliar para suportar C. Tenta identificar estes argumentos auxiliares e as alegações que pretendem suportar, evitando confundir um destes argumentos auxiliares com o argumento principal do autor.

Os textos podem ser igualmente complexos noutros aspectos. Nem tudo o que o autor diz é uma conclusão positiva ou uma premissa para suportar a sua conclusão. Às vezes o autor suportará o seu ponto de vista com uma experiência mental. Outras vezes argumentará a favor de uma distinção em que o seu ponto de vista se apoia. Outras vezes defenderá que o ponto de vista ou os argumentos de outro filósofo devem ser rejeitados. Outras ainda defenderá um ponto de vista contra as objecções de outra pessoa. Estejas atento a palavras como estas enquanto lês: porque, desde, dado este argumento, assim, portanto, por isso, segue-se que, consequentemente, no entanto, contudo, mas, em primeiro lugar, por outro lado… Estes são indicadores que te ajudam a compreender a estrutura da discussão. Por exemplo, um artigo filosófico pode ter este aspecto: “O filósofo X avançou o argumento seguinte contra o dualismo… O dualista tem duas respostas ao argumento de X. Primeiro… Contudo, esta resposta tem problemas, porque… Uma resposta melhor é dizer… X pode ser tentado a contrapor o seguinte… Contudo…”. E assim por diante.

Eis outro exemplo: “O cético diz que não podemos dizer se estamos a ver as coisas como elas realmente são, ou se somos cérebros numa cuba alimentados com experiências falsas, como os habitantes de Matrix. Y fez a seguinte objecção ao cético… Por isso, concluo, que não temos razão para pensar que a nossa situação é tão má quanto o cético diz. É tentador responder desta maneira ao cético, mas não creio que funcione, pela seguinte razão… Y pode responder a este problema de uma de duas maneiras. A primeira é… Contudo, esta resposta não é bem-sucedida porque… A segunda maneira é… Contudo, esta resposta também não é bem-sucedida porque… Pelo que no fim de contas penso que a objecção de Y ao cético não pode ser mantida”. Nesse caso, o autor não precisa ser um cético. Concorda com Y que a conclusão do cético é falsa, mas pensa que temos que refletir mais no assunto para ver qual é realmente o defeito do raciocínio do cético. Neste texto, o autor passa a maior parte do tempo a defender o cético contra as objecções de Y, e a examinar as respostas que Y pode dar. A principal conclusão do autor é que as objecções de Y ao cético não funcionam. Mas note que a conclusão principal não é que o ceticismo é verdadeiro.

.

2. Volta atrás e lê o texto cuidadosamente

Quando tiveres percebido qual é a conclusão principal do argumento e qual é a estrutura geral do texto, volta atrás e lê o artigo cuidadosamente. Toma atenção à forma como as várias partes se encaixam umas nas outras. Mais importante: vê quais são os argumentos centrais do autor. Que razões apresenta em suporte das suas conclusões? Em que parte do texto apresenta estas razões? Tem também em atenção o seguinte: Aponta onde o autor diz explicitamente o que entende por um determinado termo. Aponta que distinções o autor introduz ou defende. Tem em conta em particular os pressupostos injustificados em que pensas que o autor se apoia. Considera várias interpretações do que ele diz. Há alguma ambiguidade importante de que a sua argumentação não dê conta? Tudo isto te ajudará a compreender melhor o texto e será crucial quando tentares avaliar o argumento do autor e decidir se deves aceitar ou não a sua conclusão. Nas tuas notas podes esboçar as “peças” argumentativas mais importantes. Desenha esquemas de modo a representar a forma como achas que estas peças se encaixam. Se não o podes fazer, então precisas voltar a ler o texto de modo a compreender melhor o que o autor defende.

Deves estar preparado para ter de ler um texto filosófico mais de uma vez. Eu faço filosofia há mais de 10 anos e ainda tenho que ler os artigos várias vezes antes que consiga compreendê-los completamente. Digerir intelectualmente um texto de filosofia demora tempo e exige esforço e concentração. É mais do que certo que não vais compreender tudo num texto a primeira vez que o lês, e podem existir partes do texto que não compreenderás mesmo depois de o ler várias vezes. Deves fazer perguntas sobre essas partes do texto (nas aulas ou depois das aulas, como queiras). Podes dizer: O que é que se passa na página 13? Descartes diz X, mas não percebo como isto se ajusta com a sua anterior alegação Z. X segue-se supostamente de Z? Ou está a tentar aqui apresentar um argumento a favor de Z? Se é isso, por que pensa ele que X é uma razão a favor de Z?

.

3. Avalia os argumentos do autor

Como é óbvio, só estarás em condições de avaliar os argumentos do autor quando tiveres feito o trabalho necessário para compreender o que o autor está realmente a dizer e como os seus argumentos funcionam. Quando o tiveres feito, podes começar a fazer perguntas como estas: Concordas com o autor? Se não, o que pensas que está errado no seu raciocínio? Apela ele a alguma premissa que penses ser falsa? (Por que pensas que é falsa?) Há algum pressuposto que o autor não explicite, mas que pensas ser falso? O argumento é confuso ou mal dirigido? Sentirás com frequência que os debates que examinamos são muito confusos e que não sabes em que argumentos acreditar. Não há forma de escapar a isto. Sinto-me assim constantemente. Tudo o que posso dizer é que se trabalhares muito, serás capaz de te orientares na confusão. Começas a compreender como os diferentes pontos de vista se relacionam mutuamente e quais são os seus prós e contras. Podes até chegar à conclusão de que as coisas são mais confusas do que pensavas, que são frustrantes e que tens de voltar aos esquemas. Isto pode repetir-se várias vezes e podes nunca chegar a uma conclusão definitiva. Mas cada vez que tentas entender o debate, descobres que compreendes as coisas um pouco melhor. É assim que progredimos em filosofia. Esse é o único caminho.

Às vezes uma questão filosófica conduz a três outras, que por sua vez conduzem a outras… e não podes explorar essas ligações imediatamente. De modo que tens que aprender a passar sem respostas definitivas. Podes não ser capaz de chegar a uma conclusão segura acerca de se deves aceitar um argumento filosófico, porque isso depende de outras questões P, Q e R, que ainda não abordaste. Isto é normal. Os teus próprios professores de filosofia sentem-se frequentemente desse modo a propósito de muitos argumentos que leram. Outras vezes, podes estar seguro de que um argumento é defeituoso, mas não tens tempo nem meios para compreender, ou explicar e sustentar tudo o que pensas estar errado no argumento. Nesses casos, podes provisoriamente aceitar uma das premissas do argumento, e avançar para outras que penses serem mais importantes ou mais fáceis de criticar. (É por este motivo que frequentemente ouves os filósofos dizerem que “Mesmo se admitirmos por hipótese tal e tal, continuo a pensar que o argumento de X é malsucedido, porque…”)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Uma opinião sobre “Como se lê um ensaio de filosofia

  • 16 de fevereiro de 2016 em 10:57
    Permalink

    Como faço para deixar de receber emails?

    Resposta

Deixe uma resposta:

%d blogueiros gostam disto: