Como medir a qualidade de uma cidade

Artigo publicado na revista Gangorra para comemorar o Dia Mundial Sem Carro.

Quer saber se uma cidade é boa ou ruim? É simples: olhe para fora da janela e tente calcular a proporção de crianças entre as pessoas que estão na rua. A cada 100 pessoas que passam, quantas são crianças caminhando para a escola, pedalando pela rua, brincando na calçada? Se forem muitas, sua cidade está saudável. Se forem poucas, sua cidade está doente. Se não houver nenhuma, a doença é grave: sua cidade precisa de uma intervenção urgente. Seu prefeito está trabalhando errado. A quantidade de crianças na rua é o melhor indicador para medir a qualidade de uma cidade porque ele é multidimensional: traz ao mesmo tempo informação sobre saúde, segurança e educação, três itens centrais para definir qualidade de vida. Pelo seguinte:

Saúde: Caminhar ou andar de bicicleta por meia hora ao dia é o suficiente para uma criança afastar muito o risco de sofrer das típicas doenças de estilo de vida que estão afetando tanta gente nas grandes cidades: diabetes, câncer, doenças do coração. Criar condições para que todas as crianças façam exercício na ida-e-volta da escola é uma forma infalível de garantir uma população saudável e economizar uma fortuna de dinheiro público em hospitais.

Segurança: Está bem estabelecida a relação estatística entre o número de crianças e mulheres pedalando e a segurança no trânsito. Crianças de bicicleta são um indicador preciso: se há muitas delas na rua, praticamente não ocorrem acidentes, em parte porque seres humanos são geneticamente programados para tomar cuidado quando há pirralhos por perto. Além disso, crianças aumentam muito a quantidade de “olhos da rua”, que são as pessoas que ficam na entrada de casa olhando para o movimento da calçada, e que fazem com que o índice de crimes naquele lugar caia imensamente (um conceito criado pela grande urbanista americana Jane Jacobs). Ruas com muita vida comunitária tendem a ter muitos “olhos”, e portanto são bem mais seguras. Crianças ajudam muito a fazer com que haja vida comunitária.

Educação: Uma pesquisa divulgada este ano com 20.000 estudantes dinamarqueses entre 5 e 19 anos demonstrou que crianças que vão para a escola a pé ou de bicicleta têm uma capacidade bem maior de se concentrar na aula, e aprendem mais do que aqueles que vão de carro. A pesquisa revelou que, quatro horas depois do começo da aula, os alunos que pedalaram ou caminharam continuam mais atentos e aprendendo mais do que os outros. Outra pesquisa reveladora foi feita na Califórnia, em 1993. Os cientistas pediram a crianças que vão para a escola a pé, de bicicleta ou de carro para que elas desenhassem o bairro, e depois as entrevistaram. A conclusão foi que crianças que caminham ou pedalam tem habilidades cognitivas muito maiores: elas têm mais noção de espaço e desenvolvem mais suas capacidades sociais.

Enfim, para resumir: cidades onde não há crianças nas ruas têm índices maiores de obesidade infantil e gastam mais combatendo diabetes, câncer e doenças do coração, são mais violentas no trânsito e têm maior criminalidade, atrapalham o rendimento escolar das crianças, reduzem a eficácia da educação, prejudicam as capacidades cognitivas e sociais das crianças. E, ainda assim, muitas cidades brasileiras medem a qualidade de suas vias simplesmente contando quantos veículos passam por determinada rua em uma hora. Quanto mais veículos, maior a “eficácia da via”. Ou seja: para os administradores urbanos das principais cidades brasileiras, cidade boa é aquela onde as filas de carro não param jamais de passar, espalhando fumaça tóxica pelo espaço urbano e expulsando as crianças. É um critério ruim, e isso ajuda a entender por que nossas cidades estão tão ruins – como a blogueira Natália Garcia, do Cidades para Pessoas, costuma dizer, uma cidade que define as metas erradas não tem nenhuma chance de chegar ao lugar certo. Deveríamos exigir dos nossos prefeitos que eles adotem esta nova meta: que contem a proporção de crianças no espaço público e que governem todos os dias com um objetivo central: aumentar essa proporção. Simples assim.

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