Como ler um artigo de filosofia

Artigo do professor Jeff McLaughlin (Ph.D., University College of the Cariboo). A tradução do original (How to Read a Philosophy Paper) foi feita pela minha professora na UFPB, Dra. Maria Clara Cescato. Este artigo é o primeiro de uma série de três. Veja também como planejar e como escrever um texto de filosofia.


Como aluno, talvez novo, de filosofia, o que vai preocupar você de forma mais imediata é como lidar com os textos sem se ver completamente desencorajado e arrasado. Muitas vezes é difícil para os que começam a se familiarizar com a filosofia simplesmente compreender alguns dos artigos que devem ser lidos. As dificuldades que talvez você encontre muitas vezes são simplesmente devidas a sua pouca familiaridade com os estilos de escrita dos filósofos acadêmicos. Nesta rápida discussão, vou apresentar algumas sugestões de como trabalhar um artigo ou capítulo de filosofia. Antes, duas pequenas recomendações. Primeiro: não leia descansando num sofá ou cama… você provavelmente vai querer cair no sono. Segundo: você terá de ler cada texto mais de uma vez. Eis aqui algumas dicas de como melhorar sua compreensão de textos de filosofia.

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Compreensão

Em primeiro lugar, dê uma lida rápida no artigo, a fim de obter uma ideia geral do que o autor está tentando dizer. Preste atenção no título e subtítulos, pois eles muitas vezes informam sobre a área da investigação. Preste atenção nos parágrafos de abertura, uma vez que os autores muitas vezes apresentam sumários ou sinopses de seus artigos. Ao compreender em que direção se encaminha a conclusão, você vai querer anotá-la: ela é justamente aquilo que o autor está tentando convencer você a aceitar. Sublinhe ou ilumine-a (desde que a cópia utilizada seja sua e não a da biblioteca). Experimente anotar a conclusão num pedaço de papel, empregando suas próprias palavras. Agora, retorne ao início do texto e, com a conclusão em mente, tente perceber como o autor procura encaminhar a argumentação rumo a ela. Em outras palavras, pense no desafio como algo próximo à releitura de um romance policial: foi divertido tentar descobrir quem era o assassino, você percebeu pistas aqui e ali e talvez tenha conseguido dar solução a algumas delas, mas outras escaparam a você. Agora que sabe quem é o culpado, pode ser divertido examinar como todas as pistas que lhe escaparam se encaixam na trama.

Em cada parágrafo, a primeira e a última sentença muitas vezes podem oferecer a você os elementos chave envolvidos no processo de pensamento do autor; você pode, por exemplo, encontrar uma conclusão ou premissa de um argumento ou sub-argumento. Vou explicar alguns desses termos. Um argumento é constituído por pelo menos uma premissa e pelo menos uma conclusão. Esse argumento, por sua vez, pode ser empregado para defender uma outra conclusão. A conclusão é a tese que o autor está tentando convencer você a aceitar. A premissa ou as premissas são a razão que ele oferece para tentar levar você a aceitar sua conclusão. O importante é que o autor de fato oferece ao leitor uma razão para a conclusão, caso contrário ele estaria apenas expressando uma opinião. Se eu dissesse: “O serviço de saúde universal é uma boa coisa”, tudo que você poderia fazer seria apenas sorrir ou dizer algo como: “Isso é ótimo”. O que ofereci a você foi nada mais que uma simples declaração daquilo em que acredito. Apresentei a você apenas uma declaração sem justificação. Assim, você pode concordar ou discordar de mim, mas como não forneci nenhuma justificação para minhas opiniões, você não sabe o que fazer com elas. É preciso que eu apresente uma defesa de minha posição para que você possa determinar racionalmente se a aceita ou rejeita.

Mesmo que você concorde com minha opinião, você não vai querer se antecipar e concordar comigo, uma vez que pode ser que você não concorde com meu raciocínio e isso é tão importante quanto concordar com meu ponto de vista. Eis aqui um exemplo. Eu digo: “Em minha opinião, a pena de morte é um erro”. Você diz: “Concordo!”. Então eu digo: “Acho que é um erro porque os que matam alguém deveriam, em vez disso, ser torturados lentamente!”. Agora, como você não esperou para ouvir minhas razões, você concordou, ou pelo menos deu a impressão de concordar, com minha convicção bastante repugnante – mas mais provavelmente você gostaria é de discordar dela. As pessoas podem concordar sobre as mesmas questões, mas por razões diferentes e algumas dessas razões podem ser boas, outras más. Um outro exemplo simples: você e eu concordamos em que a soma de 2 + 2 não é 5. Você (com razão) acredita que 2 + 2 não é igual a 5 porque de fato é igual a 4, mas eu (equivocadamente) acredito que 2 + 2 não é igual a 5 porque é igual a 17. Portanto, você deve considerar tanto as premissas quanto a conclusão antes de chegar a sua decisão final.

Palavras que indicam as premissas e as conclusões muitas vezes (mas nem sempre) irão ajudar você a distinguir as diferentes partes dos argumentos, assim como a distinguir os argumentos dos não-argumentos. Entre as palavras que indicam ou sinalizam que há uma razão (ou premissa, ou prova, ou justificação etc.) sendo apresentada em apoio a um ponto de vista (ou conclusão) estão: porque, uma vez que, devido a, segue-se que, etc. Entre os indicadores da conclusão estão: portanto, dessa forma, assim, consequentemente, etc. Se não há palavras indicadoras, tente inserir uma palavra indicadora de sua escolha para verificar se faz sentido. Fazer anotações à margem é útil. Por exemplo, você pode acrescentar uma ou duas palavras ao lado de cada parágrafo, destacando o conteúdo do parágrafo. Não sublinhe indiscriminadamente todas as palavras, uma vez que nem tudo que o autor diz é importante e/ou relevante para a tese principal. Ele pode estar apresentando a você informações fatuais básicas, comentários introdutórios, digressões pessoais etc. Verifique se ele oferece distinções entre suas próprias concepções e as de outros autores. Em seguida, tente formular os principais argumentos (as premissas e as conclusões) do texto em suas próprias palavras. O desafio, posteriormente, será verificar se o que você acredita que o autor está defendendo é, de fato, o que ele está efetivamente defendendo.

Observe o que aconteceu. (1) Você leu rapidamente o artigo, a fim de obter uma ideia geral de seu assunto. (2) Você formulou a conclusão (ou o que você acredita ser a conclusão) em suas próprias palavras. (3) Você retornou ao início e releu cuidadosamente o artigo, a fim de extrair os vários argumentos que o autor levanta ou rejeita em seu texto (lembre-se de que nem tudo que o autor diz vai ser uma tese por ele defendida; muitas vezes ele estará ao mesmo tempo argumentando contra outras pessoas, tentando mostrar por que a concepção do adversário é insatisfatória e, em seguida, por que suas próprias concepções estão corretas). (4) Você selecionou esses pontos (muitos dos quais você anotou à margem do texto) e os relacionou num pedaço de papel. (5) Agora você dedica um momento ao exame do caminho percorrido. Você consegue acompanhar o fluxo do texto? Talvez você possa traçar setas e diagramas conectando os vários pontos. Você compreende o que o autor disse e por que ele o disse? Caso não, adivinhe o que você precisa fazer. Sim, você precisa ler o texto novamente e, se isso não resolver suas dúvidas, faça perguntas bem elaboradas a seu(sua) orientador(a) ou colegas. Por exemplo, tente formular a pergunta da seguinte forma: “Na página 34, o autor afirma x, mas não entendo como isso se encaixa na conclusão z. O autor está dizendo que x leva a y e y leva a z?”. Somente após compreender o artigo você poderá retornar e avaliá-lo.

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Avaliação

Assim, em benefício do argumento, vamos supor que você compreendeu bem o que o autor está tentando em última análise convencer você a aceitar. Agora a questão é: o autor teve êxito nessa tarefa? Ninguém está dizendo que você deve aceitar ou rejeitar cada um dos argumentos apresentados. Alguns argumentos podem ainda se manter, mesmo você tendo colocado em questão algumas de suas premissas. Talvez você tenha gostado do argumento em geral, mas tenha encontrado algumas áreas pouco convincentes. Talvez você ache que o argumento é precário e está seriamente comprometido desde o início. Seja qual for sua avaliação, você em última análise deverá convencer outras pessoas disso. Para fazer isso, você precisará saber como escrever um texto de filosofia. No entanto, não vamos nos adiantar precipitadamente. Eis aqui uma abordagem que você pode utilizar para avaliar a posição do autor. Em primeiro lugar, você precisará isolar as razões que ele apresenta em defesa de suas conclusões (isto é, as premissas dos argumentos) assim como precisará avaliar se elas são racionalmente aceitáveis ou não. Isso significa, entre outras coisas, que você terá de determinar se a justificativa ou premissa é defendida por meio de um sub-argumento dedutivamente coerente ou indutivamente consistente. Por exemplo, a premissa é defendida com êxito pelo autor em um sub-argumento em alguma outra parte do texto, ou mesmo num outro artigo, ou por alguma outra pessoa? Trata-se de uma questão de conhecimento geral, ou ela é sustentada pelo recurso apropriado a uma autoridade?

Se por alguma razão você não sabe se a premissa é aceitável e não tem indicações que sugiram que ela é inaceitável, então você pode aceitá-la provisoriamente e passar ao exame dos outros argumentos utilizados pelo autor (essa é a razão por que ouvimos as pessoas dizer: “somente para argumentar, vamos supor que tal coisa é verdadeira”). No entanto, se não compreende o argumento, por favor, não empregue a aceitação provisória como uma forma de justificar sua preguiça. Às vezes a leitura de um texto específico sobre um tema filosófico exige que você faça um pouco de leitura de base. O autor continuamente se refere ao argumento de uma outra pessoa – você precisa ler o artigo original? Qual o contexto do artigo?  Você precisa se familiarizar com detalhes das questões a ele vinculadas? Assim como é inapropriado entrar na conversa de outras pessoas e começar a discutir com elas, é também intelectualmente inapropriado iniciar uma discussão contra um autor antes de ter todos os dados da questão. Faça um pouco de pesquisa. A pesquisa não precisa se limitar à tarefa de localizar outros livros volumosos. Você pode tentar uma enciclopédia filosófica, para uma boa visão geral. Você pode tentar um dicionário de filosofia, para ajuda com a terminologia. Você pode conversar com colegas, pode pedir ajuda diretamente a seu orientador e assim por diante. A pesquisa, nesse sentido, consiste simplesmente em descobrir o que você precisa saber para poder tomar decisões bem justificadas quanto ao texto que está avaliando.

O estágio seguinte de sua avaliação envolve examinar se as premissas são positivamente relevantes para a(s) conclusão(ões). Para ser “positivamente relevante”, a verdade de uma premissa deve contribuir para a verdade da conclusão. Por exemplo, a premissa “hoje está um dia quente e ensolarado” é positivamente relevante para a conclusão “preciso usar bermuda e camiseta, para evitar me sentir desconfortável hoje”. Enquanto a premissa “todos os corvos são negros” não é relevante para a mesma conclusão: “preciso usar bermuda e camiseta, para evitar me sentir desconfortável hoje”. Em outras palavras, as premissas são relevantes quando apresentam alguma prova em apoio à conclusão. Somente após identificar o argumento e suas partes e após determinar se as razões apresentadas nas premissas são relevantes para a conclusão é que você pode avaliar se o autor apresentou provas suficientes ou não para você racionalmente aceitar a conclusão. Para poder fazer isso, você tem de empregar seu “pensamento crítico”. Infelizmente, o pensamento crítico não é algo que você pode aprender apenas lendo a respeito dele, em especial num artigo curto como este aqui. Você não pode simplesmente ler sobre como desenvolver suas habilidades de pensamento crítico porque, para poder aprender filosofia, você tem de fazer filosofia.

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