Como escrever um artigo de filosofia

Artigo do professor Jeff McLaughlin (Ph.D., University College of the Cariboo). A tradução do original (How to Write a Philosophy Paper) foi feita pela minha professora na UFPB, Dra. Maria Clara Cescato. Este artigo é o segundo de uma série de três. Veja também como ler e como planejar um texto de filosofia.


O processo de escrita de um bom texto pode começar quando você avalia o trabalho de outros; isto é, você pode aprender a partir de exemplos. Infelizmente, por diversas razões, nem todos os “clássicos” são bons candidatos a ser seguidos como exemplo. O que se segue são apenas algumas sugestões sobre como escrever seu próprio texto de filosofia. É claro que as exigências ou recomendações de seu(sua) professor(a) ou orientador(a) terão preferência com relação a essas instruções.

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Título

Embora seja a primeira coisa vista pelo leitor, talvez seja melhor que a escolha do título seja feita por último. Isso porque um título deve dar uma boa indicação da natureza do trabalho – e você terá uma ideia melhor disso quando seu texto estiver terminado. Por que o leitor deve ler seu texto e não o de outra pessoa qualquer? Faça com que o título seja informativo, sem ser específico demais – é um título, não a declaração prolixa de uma tese. Sinta-se à vontade para personalizar seu título, mas cuidado com os exageros! Vamos supor que você está escrevendo um trabalho sobre Epistemologia. Um título possível seria: “A Verdade”. Problemático? Definitivamente sim. “Verdade” é genérico demais, além de ser um pouco pretensioso. Que tal “A Teoria da Correspondência da Verdade”? Bem melhor, mas continua demasiado abrangente e não dá ao leitor uma ideia do objetivo do texto. “A Teoria da Correspondência da Verdade: uma Defesa” – Esse é ainda melhor, pois dá ao leitor uma indicação a respeito do assunto que você está abordando e sugere qual será o seu ponto de vista. É claro que não é muito atraente, mas nós deixamos isso para você decidir.

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Introdução

Seus parágrafos introdutórios devem situar o contexto para o restante do texto. Neles você está inteirando seu leitor a respeito do conteúdo de seu trabalho. Isso dá subsídios para que ele perceba por que o assunto é importante, a definição do problema e qual será sua tese. Se tiver espaço, você pode querer fazer um pequeno resumo com os principais pontos a serem abordados – mas tome cuidado, você não vai querer gastar um terço de um pequeno ensaio apenas para explicar do que ele vai tratar. Assim como o título, talvez você queira escrever o primeiro parágrafo por último. Isso porque pode ser que você não esteja totalmente seguro com respeito ao rumo que o trabalho vai afinal tomar ou quais serão os argumentos que você vai empregar. Assim, evite tentar forçar seu texto a se adequar aos limites que você estabeleceu em um mero parágrafo introdutório, trace apenas um plano para começar a escrever e vá direto ao texto propriamente dito. É claro que o esboço prévio de um esquema pode ajudar. Uma vez escrita a primeira versão, você poderá voltar e reelaborar o primeiro parágrafo.

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Desenvolvimento

Ao mesmo tempo em que a primeira sentença de cada parágrafo deve conter uma nova ideia ou a expansão de uma ideia anterior, ela deve fluir naturalmente a partir da última sentença do parágrafo anterior. Tome cuidado para não pular de um ponto para outro, sem antes avisar o leitor – senão ele ficará perdido e não saberá para onde você está indo e o que você quer demonstrar. É claro que há muitas maneiras diferentes de se escrever um ensaio e às vezes é apenas da questão de saber o que funciona melhor para você, para o assunto e para o que seu professor deseja. Por exemplo, você pode querer descrever a questão e os pontos de vista a seu respeito, para depois abordar os possíveis contra-argumentos e suas respostas; ou você pode querer desenvolver todas essas questões ponto a ponto. Isto é, apresentar um argumento e uma objeção possível, para depois resolver a crítica e seguir adiante.

As sentenças centrais do parágrafo devem dar detalhes e ampliar a discussão que está sendo desenvolvida, enquanto a sentença final deve deixar o leitor com uma percepção clara de qual o ponto chave da questão, ao mesmo tempo em que deve situar o parágrafo seguinte. Além disso, os parágrafos não devem ser demasiado longos. Como regra geral, os argumentos mais fortes devem ser reservados para o final de seu trabalho. Comece com os mais fracos ou menos relevantes e então desenvolva seu argumento. Você não quer terminar seu trabalho num tom fraco, já que as últimas coisas que você disser serão as primeiras coisas de que o leitor vai se lembrar logo após a leitura. Não tenha medo de apresentar um ponto aparentemente fraco – desde que você consiga reconhecer que se trata de uma dificuldade e tenha condições de responder a ela com êxito.

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Conclusão

A conclusão deve reunir todas as partes de seu texto num argumento final. Essa é a última chance que você terá para cativar o leitor. A conclusão é usada para reafirmar sua tese e os principais argumentos referentes tanto aos tópicos específicos de seu texto quanto ao assunto em geral. Ela deve terminar o que você começou de forma a permitir que o leitor siga adiante, tendo compreendido algo do que você quis comunicar com o texto.

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Como citar suas fontes

Notas de rodapé ou notas de fim podem ser usadas para duas finalidades diferentes. Uma delas é fornecer informações sobre a fonte que você está citando, a outra é utilizar as notas para os comentários que não se encaixam no corpo do texto, apesar de relevantes e de merecer alguma atenção. Por exemplo, numa nota de rodapé você pode fornecer na íntegra uma passagem da qual você citou uma parte ou então introduzir uma observação geral sobre o autor ou a fonte utilizada. Muitos professores permitem a inclusão de citações de referência no corpo do texto. Por exemplo: “Dualistas e mesmo idealistas contestam as teses dos reducionistas, uma vez que essas duas escolas de pensamento defendem a tese de que ‘a mente não é uma coisa material’ (Wilson, 63)”. Em minha opinião, no entanto, as citações incluídas no corpo do texto podem interromper seu fluxo argumentativo. Se estou pensando no argumento do autor, a inserção de referências pode romper o fluxo visual do argumento e, em consequência, minha concentração. Além disso, se o autor que você está citando tiver mais de um artigo publicado no mesmo ano, isso pode ocasionar confusão, a menos que você inclua parte do título do artigo em sua citação. Isso, em minha opinião, somente afasta ainda mais a atenção do leitor com relação ao fluxo do texto. Posto isso, em geral procuro utilizar notas de rodapé para ambos: comentários e referências. Prefiro usar notas de rodapé para tudo – mas essa é uma mera preferência pessoal. Você deve verificar com seu(sua) orientador(a) qual formato ele(a) espera em seu trabalho.

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Algumas considerações finais

  • Os números de referência devem ser fornecidos em ordem sequencial: 1, 2, 3, 4, 5…
  • Os números devem ficar “sobrescritos” (números pequenos, posicionados acima da linha do texto). Todos os programas de edição de texto (Word, etc.) fazem isso, basta digitar o número pressionando a tecla “Alt Gr” (exemplo¹).
  • As citações longas devem ser separadas do corpo do texto, com recuo de parágrafo e em espaço simples. Aspas são desnecessárias nesse caso e as passagens devem ser seguidas de um número de citação.
  • Se você quiser omitir alguma parte do texto citado por achar irrelevante, use três pontos entre colchetes […] para indicar que parte do texto foi excluída.
  • Se precisar adicionar ou mudar uma palavra para deixar mais claro o sentido da frase ou enfatizar, use colchetes [ ].
  • Lembre-se de que e.g. (uma abreviação do latim exempli gratia) é usada para dar exemplos (em português, geralmente se usa p. ex.) e que i.e. (uma abreviação do latim id est) é usada para explicar ou esclarecer o significado de um termo em outras palavras (em português, geralmente se usa i.é., com o sentido de “isto é”).
  • Nunca use “acho” quando você de fato quer dizer “penso” ou “acredito”. O termo “acho” sugere que você tem apenas uma intuição ou hesita quando pensa sobre o que é a verdade. Você não conseguirá persuadir ninguém a aceitar suas concepções com base em algo que você sente. Tente evitar por completo o uso de “acho”, uma vez que o uso da primeira pessoa num trabalho escrito muitas vezes é redundante. Se você escreve: “acho que a prática do aborto é errada”, isso não dá ao leitor nenhuma informação além da afirmação de que “a prática do aborto é errada”. O leitor já sabe que você acha que a prática do aborto é errada, porque você é o autor do texto! Não há necessidade alguma de lembrá-lo desse fato. Além disso, omitir o “acho” valoriza sua afirmação. Você está tentando persuadir alguém de que o aborto é errado e não apenas de que você acredita que é errado. Fazer essa última afirmação deixa seu texto vulnerável à crítica óbvia de que “o que você escreve pode levar você a acreditar que o aborto é errado, mas isso certamente não me convence”.
  • Assegure-se de que o tamanho de seu trabalho esteja o mais próximo possível do estabelecido. Parte do exercício está em perceber se você consegue desenvolver seus argumentos com propriedade dentro dos limites estabelecidos. Se o trabalho ficar muito pequeno, muito provavelmente o assunto não terá sido abordado de forma apropriada. Se ficar muito longo, ele não estará tão conciso quanto deveria estar. Esses dois extremos estão sujeitos a penalidades.
  • Use o bom senso quando for imprimir e encadernar seu trabalho. Se ainda não tem grampeador, compre um amanhã! Não use papéis pautados ou decorados com flores que você encontrou na gaveta só porque “foram os únicos que sobraram”. Não use tinta de cores estranhas ou ainda margens ou tipos de fonte impróprios. O fato de não levar a sério a aparência de seu trabalho indica o quanto você se importa ou não com o que está fazendo.
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Uma opinião sobre “Como escrever um artigo de filosofia

  • 30 de julho de 2015 em 5:10
    Permalink

    Sou Quilombola, auto didata, arte educadora e defensora da Educação Diferenciada, por uma educação que respeite e valorize a cultura dos povos tradicionais. Gosto de escrever.Minha escrita é muito subjetiva. Hoje se exige muito a objetividade dos textos. Este curso será de grande aprendizado para mim. Ajuda muito na organização do pensamento.

    Resposta

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