Como elaborar uma pergunta científica

Artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

Uma pessoa se torna cientista não para salvar o mundo, enriquecer ou ficar famosa: acima de tudo, a motivação é simplesmente saciar uma curiosidade infinita. Ser cientista é fazer e responder perguntas. Mas como se elabora uma boa pergunta científica?

Primeiro, a pergunta deve ser respondível. Além disso, a não ser no caso de trabalhos teóricos, a pergunta deve ser respondível com as ferramentas conceituais e operacionais disponíveis no momento. Mesmo que a pergunta central de um trabalho seja ótima, caso a tecnologia para respondê-la ainda não exista, ela será temporariamente tão improdutiva quanto uma má pergunta. Segundo, a pergunta deve ser original. Boa ciência precisa ser criativa, não pode chover no molhado. Mesmo quando estudamos problemas antigos, já trabalhados por outros, precisamos criar perguntas originais, que levem a novas perspectivas. Você já parou para se perguntar que sentido tem um artigo, cuja discussão só tem “descobertas” acompanhadas de citações? Onde está a novidade? Terceiro, a pergunta precisa ser o mais objetiva e simples quanto possível. Perguntas complicadas ou mesmo indecifráveis costumam gerar má ciência. A grande maioria dos trabalhos inovadores tem uma pergunta simples e elegante como fio condutor.

Para elaborar uma pergunta relevante, estude o assunto do seu interesse exaustivamente, dando prioridade às grandes revisões e artigos seminais na área. Procure pelas lacunas no conhecimento. Dentre essas lacunas, escolha aquelas que te motivam mais a trabalhar. Isto é fundamental, então preste bem atenção: você precisa estar apaixonado pelo seu projeto! Não se limite a seguir a moda, tentando responder apenas as perguntas com as quais todo mundo está trabalhando. Quem segue por estradas conhecidas vai apenas onde os outros já estiveram. Por fim, dentre as lacunas de conhecimento que realmente te interessam, escolha uma que pareça possível de ser trabalhada com os recursos que você tem disponíveis. Tendo feito essa escolha, elabore uma pergunta mais específica que ajude a completar essa lacuna de interesse ou ao menos parte dela. Ataque um problema de cada vez; não se perca atirando para todo lado.

Depois de criada a pergunta, você precisará imaginar qual resposta espera encontrar para ela. A isso damos o nome de hipótese. Pense também em hipóteses alternativas, caso sua pergunta seja relativamente complexa. Depois de criar a hipótese, você precisará imaginar o que espera observar concretamente no seu sistema de estudo, supondo que sua hipótese é realmente a melhor resposta para a pergunta de interesse. A essa versão operacional da hipótese damos o nome de previsão. Perguntas complexas podem levar  a mais de uma hipótese; hipóteses complexas podem levar a mais de uma previsão.

No começo, provavelmente você vai achar muito difícil elaborar uma boa pergunta científica. Quando somos crianças é muito mais fácil fazer perguntas, mas nosso sistema de ensino baseado na repetição automatizada e na prolixidade mata a criatividade aos poucos. Você pode até achar esse exercício frustrante e desistir, fugindo para o velho e preguiçoso refúgio do descrever só por descrever ou comparar só por comparar. Mas não adianta vir com a velha desculpa de que os antigos naturalistas não se preocupavam com perguntas. Muito pelo contrário: o trabalho de Darwin, por exemplo, só mudou o mundo porque estava centrado em perguntas geniais. Quem tem talento para a ciência e, além disso, muita persistência, acaba desenvolvendo essa habilidade após algum treinamento. É como qualquer outra habilidade complexa: a maestria vem da prática.

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