Essa não é Clarice Lispector!

Crônica de  no blog Livro e Café.

A internet proporciona ótimas possibilidades, entre elas, conhecer pessoas que possuam os mesmos gostos por determinada arte, por exemplo, a literatura. É claro que na nossa vida fora da rede isso também acontece, porém a internet, se bem usada, pode ser um facilitador de conhecimento. Mas se há muita facilidade de chegar ao conhecimento, esse caminho também pode ser recheado de aprendizados falsos. Vamos a um exemplo: Clarice Lispector, a escritora mais falsificada nas redes sociais. Eu quero escrever em letras grandes, eu quero colar outdoors na cidade inteira para dizer: essa sua frase de auto-ajuda não é Clarice Lispector! A Clarice Lispector de verdade nunca disse essa tosquice sobre amizade, amor e ser feliz! Eu quero repetir um milhão de vezes adicionando palavrões diferentes a essas minhas frases revoltadas! Mas corro o risco de, ao final, receber como resposta a citação: “A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena” – Clarice Lispector.

Nós, que apreciamos literatura e não frases, livros bem escritos e não frases, citações formais e não frases, sofremos demais com essa disseminação falsa do que é a literatura. E lamento também por todos os outros escritores que sofrem com isso: Caio Fernando Abreu, Luis Fernando Veríssimo, entre outros. Sem falar nos que nem escritores são: Bob Marley, Charlie Chaplin, Albert Einstein, etc. Quem são os compartilhadores de frases falsas? O que eles representam? O que fazem da vida? As respostas são fáceis, pois tenho certeza que ao ler essas perguntas você visualizou as fotos de colegas seus no Facebook, Twitter e similares. Vinicius Linné, escritor, professor e mestre em literatura, registrou o seu desabafo no Papo Literário sobre o que foi feito com o nome Clarice Lispector, a profética (e você já vai entender porquê):

“Eu já presenciei no Facebook uma página da “Clarisse Linspector” recebendo comentários voltados à autora. Como se ela estivesse toda viva e lépida mantendo aquele perfil – com o nome errado – e escrevendo baboseiras sem tamanho. Pobre Clarice… Profética Clarice! “Acordei com um pesadelo terrível: sonhei que ia para fora do Brasil (vou mesmo em agosto) e quando voltava ficava sabendo que muita gente tinha escrito coisas e assinava embaixo meu nome. Eu reclamava, dizia que não era eu, e ninguém acreditava, e riam de mim. Aí não aguentei e acordei. Eu estava tão nervosa e elétrica e cansada que quebrei um copo”. (Clarice Lispector, em carta escrita a uma amiga 3 anos antes de sua morte). Pior de tudo é que você que realmente conhece e estuda o trabalho do Caio [Fernando Abreu] ou da Clarice – como é o caso da minha dissertação de mestrado – acaba passando por farinha do mesmo saco dessa gente que nunca leu um livro deles na vida e só fica compartilhando frase falsa. Aí você comenta que o seu trabalho é sobre a Lispector e ouve de volta: “Ai, eu também adoro as frases que a ClariSSe coloca no Facebook”. É de matar!”

Clarice Lispector (a verdadeira) tinha uma escrita peculiar, diferente, original e difícil. Quem já leu  alguns livros dela é capaz de reconhecer o texto escrito por um dos maiores nomes da literatura. É como saber que aquela sua amiga tão elegante e fina jamais cantaria uma música de Michel Teló. As redes sociais fazem Clarice Lispector cantar Michel Teló! Essa massa compartilhadora de frases nas redes sociais nunca leu, de fato, o livro onde contém a tal citação. Compartilham porque é legal, fácil e parece “cool”. Um reflexo do quanto nossa sociedade é alimentada por superficialidades. Eu desconfio das frases óbvias demais, elas não representam a literatura, tampouco Clarice Lispector. Eu desconfio de frases sem referências e fora de contexto. Só acredito em frases compartilhadas por pessoas que conheço muito bem ou se conter o livro de onde a frase foi retirada (e, se possível, página, editora e ano de publicação). Se não for assim é mentira. E ponto.

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