Direitistas querem liberdade, esquerdistas querem igualdade: essa é a diferença

liberdade igualdade fraternidade

Toda a nossa filosofia política ocidental, pelo menos após o iluminismo, é baseada em três grandes princípios, os quais compõem o famoso lema da Revolução Francesa: LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE. Historicamente, a bandeira da fraternidade sempre foi promovida pelas religiões, pelo esoterismo ou pelo humanismo secular. Desde que Igreja e Estado se separaram, isto é, desde que a sociedade se tornou laica, porém, promover a fraternidade entre os homens deixou de ser uma atribuição da política. Na civilização ocidental contemporânea, portanto, liberdade e igualdade reinam absolutos como os dois valores mais fundamentais de toda a nossa filosofia política.

O problema que alimenta praticamente todas as nossas diferenças políticas, partidárias e ideológicas é que esses dois princípios são mutuamente excludentes, ou seja, formam uma proporcionalidade inversa. Isto significa que, em qualquer sociedade politicamente organizada, quanto mais liberdade, menos igualdade temos; de igual modo, quanto mais igualdade, menos liberdade. Não é difícil entender essa lógica: deixadas livres para agir social e economicamente, as pessoas tendem a potencializar as suas diferenças naturais, gerando desigualdade social. Por outro lado, quando o Estado intervém na sociedade para reduzir a desigualdade, as liberdades individuais são reduzidas em nome daquilo que se convencionou chamar “justiça social”. Imperativo torna-se, então, escolher aquilo que deve ser priorizado em determinada sociedade: liberdade ou igualdade. Nisso consiste, no fim das contas, toda a disputa política, partidária e ideológica entre direita e esquerda: direitistas querem liberdade, esquerdistas querem igualdade.

Nesta acirrada disputa política, há ainda os que se posicionam como “centro”, seja porque defendem um suposto equilíbrio entre esses dois princípios, seja por pura indecisão, ou – mais frequentemente – simplesmente para não abrir mão da situação confortável e conveniente de não se posicionar, angariando simpatia e votos de ambos os lados, em nome de uma suposta isenção. Deixemos esses indecisos de lado – ou melhor, no centro mesmo – e vejamos o que pensam a esquerda e a direita em política. Tentei ser imparcial o máximo possível. Talvez isso ajude a tirar muita gente de cima do muro.

Veja também: Teste de perfil ideológico


O QUE PENSA A ESQUERDA

socialismoO discurso político de quem prefere se posicionar à esquerda é todo baseado na noção de “justiça social”. Teoricamente, todas as suas ações políticas têm como objetivo principal reduzir a desigualdade social entre ricos e pobres, que para eles é o maior problema que a sociedade enfrenta. Os esquerdistas entendem que uma das principais funções do governo é arrecadar dinheiro dos mais ricos por meio de impostos e redistribuir essa riqueza para a população mais pobre através de programas sociais. Com vistas a esse fim, defendem políticas públicas que promovam a redistribuição de renda, tais como a reforma agrária e o assistencialismo.

Seu pensamento encontra suporte teórico nas doutrinas econômicas e sociais do marxismo, socialismo e comunismo – ideologias revolucionárias baseadas na noção de “luta de classes”. Segundo essa ideologia, todas as nossas interações sociais refletem um conflito de interesses entre ricos e pobres, burguesia e proletariado. Para defender os interesses dos mais pobres frente ao poder econômico das chamadas “elites”, os esquerdistas costumam apoiar governos populistas, altas cargas tributárias, intervenção estatal no comportamento das pessoas, movimentos sociais em defesa das minorias, políticas de ações afirmativas (cotas), greves e sindicalismo. Alguns mais extremistas defendem ainda uma ditadura do proletariado, que seria alcançada depois de uma revolução socialista. Os principais exemplos contemporâneos de regimes de esquerda no mundo são Venezuela, Cuba, Coreia do Norte e China, além da extinta União Soviética.


O QUE PENSA A DIREITA

americaO discurso político de quem prefere se posicionar à direita baseia-se nas noções de liberdade e meritocracia. Pelo menos em teoria, suas ações políticas têm como objetivo principal reduzir a presença estatal nos assuntos privados e promover o capitalismo de livre marcado, assegurando as liberdades individuais dos cidadãos. Os direitistas entendem que uma das principais funções do governo é garantir serviços básicos como educação, saúde e segurança pública, mantendo sua atuação discreta, restrita ao que é essencial, sem maiores intervenções nas demais esferas da sociedade. Com vistas a esse fim, defendem políticas públicas e atitudes que promovam o Estado mínimo, tais como privatizações e empreendedorismo.

Seu pensamento encontra suporte teórico nas doutrinas do liberalismo econômico e do conservadorismo clássico – visão de mundo baseada em valores que perduram por séculos e sustentam os três grandes pilares da civilização ocidental, a saber: moral judaico-cristã, filosofia grega e direito romano. Para defender o direito à propriedade privada frente ao poder político do Estado, os direitistas costumam apoiar a redução dos impostos e da burocracia, o controle da inflação, a iniciativa privada, e a valorização da família tradicional. No Brasil, alguns extremistas, temendo a ascensão do comunismo, defendem ainda uma intervenção militar – solução claramente contrária ao princípio da liberdade. Os principais exemplos contemporâneos de regimes capitalistas no mundo são Estados Unidos, Canadá, Austrália, Reino Unido, França, Alemanha e Japão.


ESPECTRO POLÍTICO HEXAGONAL

Deu muito trabalho, levou muito tempo e passou por muitas versões, mas finalmente consegui desenhar um espectro político decente, que representa bem a realidade política brasileira na atualidade. Ele é autoexplicativo. Você vai facilmente perceber que, na vertical, o espectro vai desde a liberdade absoluta (na parte de cima) até as ditaduras totalitárias (na parte de baixo). Dividindo-o ao meio em duas metades, todo o lado esquerdo representa ideologias de esquerda, assim como todo o lado direito, ideologias de direita. Sem mais explicações óbvias, eis abaixo, para vossa apreciação, a minha mais nova criação. Dei-lhe o nome de “espectro político hexagonal” ou, se me permitem ser menos modesto, “espectro político Andrade”. O que acharam?

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Ranking do custo de vida nas capitais

De acordo com o ranking abaixo, elaborado pelo site Custo de Vida, São Paulo é a capital brasileira mais cara para se viver, junto com Brasília e Rio de Janeiro. A minha João Pessoa é a mais barata. Aqui, mesmo com a crise e a inflação, seu dinheiro vale mais.

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HQ sobre igualdade de oportunidades

O ilustrador australiano Toby Morris, em um quadrinho intitulado On a Plate (De Bandeja), mostra como não existe meritocracia sem que haja igualdade de oportunidades. Veja abaixo a versão em português traduzida pelo portal Catavento.

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Amarrando cachorro com linguiça

Artigo de opinião de Alexandre Versignassi na Superinteressante.

Dinheiro é uma forma de estocar trabalho: permite que o cara do petshop compre seis pãezinhos sem ter de tosar o cachorro do padeiro. Engenhoso. Mas, para o dinheiro valer dinheiro, não basta ser dinheiro. Ele precisa cumprir dois requisitos básicos: ser uma coisa que todo mundo quer e, ao mesmo tempo, algo relativamente escasso, que não dê em árvore. Justamente por isso, a coisa que mais fez o papel de dinheiro ao longo da história, e da pré-história, foram os metais preciosos. Cobre, prata e, principalmente, o ouro, um campeão de escassez: tudo o que mineraram até hoje no mundo todo só daria para encher um prédio de sete andares. São 142 mil toneladas em seis mil anos – é o que a Vale escava de minério de ferro no Brasil em apenas seis horas.

Ouro e prata eram tão dinheiro que as primeiras notas de papel da história nem eram exatamente dinheiro, mas recibos que davam direito a uma certa quantia de ouro ou de prata, guardada nos cofres do governo. O Estado pagava pelas obras públicas com esses recibos, essas “notas”. E elas acabavam circulando na economia no meio das moedas de ouro e de prata, já que era mais fácil carregar recibos do que bolsas cheias de metal. Um dos primeiros países a usar esse esquema em larga escala foi a Inglaterra do século 18 – tanto que “libra esterlina” significa “meio quilo de prata da boa”. Mas quase ninguém voltava ao Banco Central inglês para resgatar seu meio quilo de prata da boa – era melhor ficar com a nota de uma libra de uma vez. Dava na mesma, já que todo mundo aceitava o papel como dinheiro. O governo britânico percebeu isso rápido, e não demorou para fazer uma malandragem institucional: emitir muito mais notas do que a quantidade de prata que tinha nos cofres, basicamente para pagar as próprias contas e garantir que nunca faltasse champanhe nas festas do palácio. Se alguém viesse resgatar sua prata, tranquilo: era só dizer que agora uma libra valia apenas 250 gramas de prata, ou 100, ou 10.

Parece tosco. É tosco. Mas faziam exatamente isso. Pior é que isso pode ser bom para a economia. Mais dinheiro começa a circular. As pessoas saem para gastar. Os padeiros fazem mais pão. Os fabricantes de fornos de padaria fazem mais fornos. Os cachorros ganham mais banhos e tosas. Juntando tudo, dá para dizer que a produção de bens e de serviços cresce. E é verdade: o PIB sobe mesmo. Mas não para sempre. Se o governo continua nessa toada por muito tempo, uma hora vai ter mais dinheiro circulando do que produtos que podem ser comprados com esse dinheiro. O cara que faz fornos vai acabar com mais pedidos do que pode entregar. Se ele tem quatro pedidos no mês e só consegue produzir três fornos, o que é que ele faz? Manda o quarto cliente embora? Nem a pau. Ele vai e aumenta o preço. Nisso, o padeiro repassa o custo para a freguesia. E, quando o cara do petshop vai até a padaria, descobre que o preço do pão subiu. Inflação.

Bom, foi exatamente isso que aconteceu na Inglaterra do fim do século 18, começo do 19. Até que em 1810 veio uma virada. O Parlamento entendeu que isso de fabricar notas à vontade era amarrar cachorro com linguiça: os governantes sempre tenderiam a fazer mais dinheiro de papel do que a economia pudesse suportar. Sempre criariam inflação, mesmo que o intuito inicial nem fosse comprar champanhe, mas só reaquecer o PIB mesmo. Então o Parlamento estabeleceu que, dali em diante, uma libra valia 7,3 gramas de ouro. E ponto final. Se o Estado quisesse imprimir um milhão de libras em notas de papel, que arranjasse 7,3 toneladas de ouro para guardar em seus cofres na forma de lastro. Era um freio garantido contra a inflação. Como a libra era o dólar da época, essa regra acabou valendo para boa parte do planeta. Todo país grande tinha uma reserva em libra como lastro da própria moeda local. Logo, o ouro acabava sendo o lastro, e o freio, de vários governos. Os Estados Unidos até foram mais longe e, em 1900, passaram a lastrear seu dólar com o ouro dos seus próprios cofres, com US$ 1 valendo 1,67 grama. Era a época do “padrão-ouro”, entre o final do século 19 e o início do 20. Um tempo de paz econômica, sem inflação. Não no caso do Brasil, que continuou imprimindo suas notas sem lastro nenhum, mas essa é outra história.

Aí veio a Primeira Guerra Mundial e estragou tudo. Inglaterra e EUA deram uma brasilzada e voltaram a imprimir notas sem lastro para pagar pelos esforços militares. O padrão-ouro até voltaria depois, mas seria minado pela Grande Depressão, a dos anos 1930, que bagunçou mais ainda a economia mundial. Dali para a frente, os Bancos Centrais deixaram de usar o ouro como referência. O negócio agora era lastrear o dinheiro no braço mesmo. Como? Maneirando na impressão das notas, de modo a não criar inflação de bobeira. Para se autopoliciar, alguns governos tornaram seus Bancos Centrais independentes do próprio governo. Assim: o presidente do país indica um responsável pelo Banco Central no meio do mandato. E esse chefe do BC, com sua diretoria, continua pelo menos até o meio do governo seguinte, sem poder ser demitido sem justa causa. Aí, se o Poder Executivo ficar tentado a imprimir dinheiro demais para bombar o PIB, o Banco Central pode negar e pronto, pelo simples fato de ter mais competência técnica para saber se a medida vai ou não vai gerar a inflação.

A expressão tecnicamente correta para “imprimir dinheiro”, diga-se, é “baixar os juros”, coisa que irriga a economia com moeda nova. Mas dá na mesma. O BC está lá para manter os juros, a criação de dinheiro novo, num patamar seguro o bastante para que o governo governe sem criar inflação. Esse caminho do autopoliciamento foi o adotado pela Inglaterra, pelo Japão e pelos EUA, onde presidentes do BC chegaram a passar quase 20 anos no cargo – caso de Alan Greenspan, que controlou os juros americanos nos governos Reagan, Bush pai, Clinton e Bush filho, tendo o mandato renovado a cada presidente novo. No Brasil, não: muda o governo, muda o BC. E a inflação continua assombrando, década atrás de década. A história indica que, sim, uma coisa tem a ver com a outra. Então talvez seja a hora de vermos com menos preconceito a ideia de um Banco Central independente. A hora de repensar se linguiça é mesmo o melhor material para a coleira da nossa economia.

A gritante diferença entre os juros que os bancos cobram e os que eles pagam

Você sabe qual é a diferença entre os juros que você ganha do banco quando empresta dinheiro e os que você paga quando toma emprestado? Quando olhamos para os números no curto prazo, já enxergamos um abismo. O CDB (Certificado de Depósito Bancário), o papel que você recebe quando empresta ao banco, está rendendo atualmente 7,8% ao ano, em média. Já o crédito pessoal, aquele dinheiro que você toma emprestado sem nenhuma garantia, rende 73% ao ano para a instituição financeira.

Ao pensarmos em como isso ficaria no longo prazo, então, a diferença é muito mais gritante. O banco que tomou emprestado R$ 100 de uma pessoa física (ou seja, que emitiu um CDB a esse preço) em 1º de julho de 1994, início do Plano Real, teria que devolver, hoje, R$ 2.038 a esse cliente. Descontado o Imposto de Renda, o pequeno investidor poderia resgatar R$ 1.733. Considerando que a inflação foi de 333% no período, a rentabilidade real dessa aplicação foi de 370%. No caminho inverso, se porventura uma pessoa física fizesse exatamente o mesmo que o banco fez, ou seja, tomado emprestados R$ 100 em 1994 e nada ter pago nesse período e nem mesmo renegociado, sua dívida estaria hoje na casa dos milhões (precisamente R$ 7.205.180,78).

A conta foi feita pelo economista Fabiano Guasti Lima, a pedido do blog Achados Econômicos. Ele é pesquisador do Instituto Assaf e professor da USP em Ribeirão Preto. É claro que um banco jamais deixaria a situação chegar a esse ponto. Muito antes de a dívida atingir a casa do milhão, o credor já teria interpelado judicialmente o devedor, de modo que o saldo pudesse ser pago, ainda que após renegociação. Mesmo assim, esses números são mais do que mera curiosidade. São uma forma de mostrar o que é o chamado spread bancário, a diferença entre quanto o banco paga para quem lhe empresta e quanto ele cobra quando empresta ao outros. Os números mostram o enorme poder de barganha das instituições financeiras.

Fonte: Anonimous Brasil.

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