O retrato de Eurídice – Mário Quintana

Não sei por que há de a gente desenhar objetivamente as coisas: o galho daquela árvore exatamente na sua inclinação de 47 graus, o casaco daquele homem justamente com as ruguinhas que no momento apresenta, o próprio retratado com todos os seus pés-de-galinha minuciosamente contadinhos… Para isso já existe a fotografia, com a qual jamais poderemos competir em matéria de objetividade. Se tivesse o dom da pintura, eu seria um pintor lírico. Quero dizer, o modelo serviria tão-só de ponto de partida. E só me dispusesse a pintar Eurídice, talvez viesse a surgir na tela um hastil, o arco tendido da lua, um antílope, uma flâmula ao vento, ou uma forma abstrata qualquer, injustificável a não ser pelo seu harmonioso ímpeto em câmara lenta, pela graça da linha curva em movimento, porque Eurídice afinal é tudo isso… É tudo isso e outras coisas que só os anjos e os demônios saberão.

QUINTANA, Mário. Da preguiça como método de trabalho.
Rio de Janeiro: Globo, 1987. p. 93.

Saudades do amor

Crônica de Pablo Capistrano, professor de filosofia de Natal-RN, extraída do livro Simples Filosofia – A história da filosofia em 47 crônicas de jornal (Rocco, 2009, p. 148-151).


Somos uma civilização analfabeta na cartilha do amor. Andamos esquecidos da sutileza com que os antigos compreendiam a complexidade desse estranho fenômeno. Na Torah judaica, o verbo para designar o amor era deah, que é a palavra hebraica para os relacionamentos sexuais íntimos, mas também designa opinião ou conhecimento. Biblicamente, amar é conhecer, partilhar, atingir certo grau de intimidade com o outro. Os velhos sábios da Grécia falavam de vários “amores”. O amor sexual do eros, o amor divino e sagrado do ágape (a caridade de Paulo de Tarso), o amor da intimidade e da afinidade retratado no termo filia e o amor doença do pathos (o distúrbio dos apaixonados).

Curiosamente, a paixão era vista com receio e qualquer família ponderaria várias vezes em permitir que seus filhos se casassem por paixão. Afinal, a paixão não se sustenta, ela é fogo que arde sem se ver e é infinita só enquanto dura. O conhecimento, a intimidade adquirida com a aprendizagem de uma vida a dois, sempre foi vista como uma base mais sólida para o amor até o final do século 18, quando jovens alemães foram possuídos por um estranho furor. Em 1774, o mundo conhecia Os Sofrimentos do Jovem Werter, a fatal história de amor e loucura escrita por Goethe, que gerou uma onda de suicídios na Alemanha. Na verdade o livro apenas fez eclodir um impulso que andava retido no subsolo cultural do ocidente.

A paixão e seus desdobramentos fatais foram transformados com o movimento romântico na totalidade do amor. Tudo que se refere a essa palavra extremamente complexa e multifacetada foi reduzido àquela poderosa e nauseante descarga bioquímica que distorce a razão dos apaixonados e faz correr, de baixo para cima, aquele relâmpago gelado que empurra nosso estômago para o alto. A mitologia do amor romântico tem raízes nas histórias medievais de cavaleiros torturados por amores impossíveis e belas damas casadas e intangíveis, adoradas como a própria Virgem Maria, representação mais particular da grande deusa da cultura celta.

Suas imagens foram apropriadas pelo mundo burguês e acabaram produzindo uma imensa indústria de serviços de casamento, filmes românticos, seriados de TV, telenovelas, advogados especializados na área de família e sessões de psicanálise semanais. A paixão, o amor que é para a morte e a loucura, o amor intenso e sagrado, o amor que devora os limites, as imposições das convenções sociais e arrebata os apaixonados para os céus e depois os lança de volta aos portões do inferno acabou se tornando a totalidade do amor e não apenas uma de suas facetas.

Para Schopenhauer, autor de um livro que dedica um capitulo sobre o amor intitulado As Dores do Mundo, a redução do amor à paixão era o sinal de uma das misérias fundamentais dos humanos. Se Schopenhauer tivesse vivo hoje talvez não fosse um conselheiro sentimental muito popular. Sua ideia sobre o amor romântico (o pathos dos antigos) carregava uma forte crítica à sociedade do século 19, com sua autoconfiança no avanço da técnica, no progresso da ciência e na razão humana.

De certa forma, As Dores do Mundo ataca o espírito romântico de confiança na evolução da civilização, que serviu de base para a popularidade do pensamento de Hegel, um outro filósofo Alemão, contemporâneo de Schopenhauer e também seu mais profundo desafeto. Tendo experimentado uma vida extremamente solitária e obscura (até a velhice, quando atingiu a fama repentina), é de se espantar que alguém que tenha cunhado uma frase como “A vida é uma inútil perturbação na tranquilidade do nada” tenha alguma coisa a nos dizer sobre o amor.

Schopenhauer não era um cético quanto as possibilidades humanas de convivência, apesar de frequentemente admitir que gostava mais dos poodles do que de gente. Sua ideia fundamental é que a paixão é um engodo. Uma estratégia da espécie que engana os apaixonados. Acreditando estar a serviço dos próprios interesses e desejos, comumente nos apaixonamos por pessoas que muito pouco tem a ver conosco. Isso se dá pelo fato que a paixão não trabalha para os indivíduos. É ao gênero humano que ela serve, atuando sobre a vontade de cada um, criando uma força que nos empurra no sentido da reprodução. Espantosamente atual essa interpretação, não é? Em um mundo sem ciência genética e com um arremedo de teoria da evolução, Schopenhauer teceu uma visão típica das modernas teorias biologicistas.

A paixão não é uma boa medida para o amor. Transformar a intensidade auto destrutiva da paixão em uma base sólida para uma vida construída junto é uma arte que poucos sabem realizar com maestria e que anda esquecida esses dias. Na matemática sentimental das Dores do Mundo, o amor romântico é uma das grandes melancolias que afligem o homem. Saber transformar paixão em amor é a chave da arte da convivência. O segredo dessa arte é nunca esquecer (como diz o pessoal do Teatro Mágico) que os opostos sempre se distraem, e que apenas os dispostos verdadeiramente se atraem.

Línguas europeias surgiram na Turquia há 9.000 anos, sugere estudo

A saga do mais importante grupo de línguas do mundo, com quase 3 bilhões de falantes nativos, começou há 9 mil anos, na atual Turquia, e está ligada às origens da agricultura. Em última instância, portanto, seria graças à descoberta de como cultivar trigo e cevada que os brasileiros falam português e os americanos falam inglês. A conclusão está em uma pesquisa publicada hoje na revista especializada Science e que almeja colocar um ponto final no debate sobre a origem das chamadas línguas indo-europeias. A afirmação pode soar estranha à primeira vista, mas há boas razões para achar que esse grupo imenso de idiomas, que coloca no mesmo balaio o grego, o alemão, o russo e as principais línguas do Irã e da Índia, descende de um ancestral comum. A prova disso é o vocabulário básico de todas elas – como as palavras usadas para designar parentes próximos, partes do corpo, numerais e os pronomes pessoais. Apesar das diferenças, elas conservam um núcleo comum de som e significado, e as mudanças que ocorrem de um grupo de línguas para outro não são aleatórias: seguem “leis” estabelecidas. Um exemplo é a transformação do “p” em “f” nas línguas germânicas, como o inglês. É por isso que “peixe” e “pé” viram “fish” e “foot” no idioma de Shakespeare. O diabo era saber quando e como o ancestral dessas línguas todas começou sua carreira de sucesso.

A equipe de cientistas liderados por Quentin Atkinson, da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, resolveu responder à questão “emprestando” um método normalmente usado para estudar a evolução e propagação de vírus como o da gripe. Grosso modo, o método compara as “letras” químicas do DNA de vários tipos de vírus para saber qual está mais próximo do ancestral comum de todos eles e, a partir disso, monta uma árvore genealógica dos parasitas usando estratégias sofisticadas de estatística. A mesma coisa, raciocinaram Atkinson e companhia, pode valer para línguas -desde que, em vez de mutações no código genético, sejam avaliadas “mutações” no som das palavras. Também foram incorporados elementos geográficos – com base na distribuição histórica e atual das línguas, o método calculava qual o trajeto de expansão mais provável para elas. O resultado, em vários tipos de simulação, apontou a Turquia, há 9 mil anos, como o lugar e o tempo de origem do tronco indo-europeu. O método foi testado só para as línguas latinas, grupo do português, e deu indícios de ser confiável: mostrava o centro da Itália (onde está Roma, berço do latim) como fonte da nossa família de idiomas.

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Origem da língua já foi ligada a domínio do cavalo

Uma hipótese que esteve em voga por décadas dizia que os primeiros indo-europeus estariam associados à domesticação do cavalo e ao aparecimento de túmulos conhecidos como kurgans há 6 mil anos, na atual Ucrânia. O cavalo, espécie de tanque de guerra pré-histórico, teria permitido ao povo dos kurgans dominar vastas áreas, legando a língua a seus descendentes e às tribos conquistadas. Nos últimos tempos, vinha ganhando força a hipótese da origem mais antiga, na Turquia. As línguas indo-europeias mais primitivas, como o hitita, eram faladas por lá. Também se sabe que povos que dominam a agricultura têm vantagem sobre os demais porque “produzem” mais gente. Estudos em esqueletos pré-históricos mostram que o DNA dos primeiros europeus agricultores (nos Bálcãs) têm grande contribuição do Oriente Médio. Mas ninguém consegue provar que língua um esqueleto de 9 mil anos falava, já que não havia escrita. Jared Diamond, autor do livro “Armas, Germes e Aço”, no qual defende que o avanço da agricultura ajudou a forjar as línguas dominantes, diz que a hipótese dos kurgans ainda é a mais aceita pelos linguistas. “Mas, se eu fosse reescrever meus livros hoje, daria mais espaço para a hipótese dos agricultores no caso do indo-europeu”.

Fonte: Folha.

Modos de dizer

Crônica de Ivan Ângelo publicada na revista Veja São Paulo em setembro de 2009.


Certos hábitos de linguagem são curiosos. Usos que surgem sem a gente perceber ou pensar neles, maneiras de dizer, psicologia da língua. Ocorreu-me isso quando estava jogando bola com meu neto no parque e o pipoqueiro perguntou: “O senhor já tem uns sessentinha, não?”. Sessentinha. Delicado, isso. O diminutivo significaria que eu parecia estar no começo dos meus anos sessenta? Se fosse o caso, um sessentão seria aquele que já vai lá mais adiante? Ou o diminutivo poderia, lisonjeiramente, significar que eu parecia ágil para os sessenta? Sutil a língua brasileira com relação à idade das pessoas. Ninguém diz que você é um vintão, um trintão. Mas logo ganha um “ão” quando chega aos quarenta, e a partir daí é quarentão, cinquentão, sessentão, setentão. Aos oitenta, você se torna vítima de uma bem-intencionada deferência e ganha o rótulo de octogenário. Não se diz oitentão. Nem noventão (nonagenário) nem centão (centenário).

Vejam os anúncios de apartamentos para vender ou alugar. Quartos agora são chamados de dormitórios, como se dormitório fosse mais chique do que quarto. Nas sutilezas captadas pelo marketing, “dormitório” deve ter mais prestígio, deve vender mais apartamentos do que “quarto”. Na hora do uso, porém, ninguém diz: “Já para o seu dormitório, menino!”, ou “Vamos para o dormitório, querida?”, ou “O que está acontecendo com essa menina, que não sai do dormitório?”. Da mesma forma, certas pessoas empregam palavras mais pomposas ou formais quando falam alguma coisa na televisão. A ideia aqui talvez seja falar bonito para uma plateia maior. A classe média adora caprichar na linguagem. Prestem atenção nos policiais, principalmente militares, e nas autoridades: além de usarem o jargão profissional, tentam falar bonito. São essas pessoas que dizem dormitório em vez de quarto, veículo em vez de carro, calçado em vez de sapato, local em vez de lugar, rodovia em vez de estrada, aeronave em vez de avião, armamento em vez de arma, residência em vez de casa, evadiu-se em vez de fugiu, etc. Deve ser a mesma pretensão que leva comerciantes a escrever “sale” e “off” nas vitrines de suas lojas, como se aquele esnobismo se transferisse para as mercadorias que vendem. De novo surge um conflito entre a aparência e a realidade. Quando uma amiga chama a outra para ir a uma liquidação, ela não fala “sale“, e diz que estão oferecendo 50% “de desconto” e não “off“.

Alguns modos de dizer tornam-se armadilhas, pegam distraídos até dicionaristas. No caso que vou citar, a distração poderia sinalizar um preconceito. E se não foi distração? Pode ter sido uma decisão. Explico. Os dicionários sempre registram os adjetivos e certos substantivos pelo gênero masculino. Vejam lá: amado, rico, feio, antigo, belo. Quando chegam aos adjetivos começados por “mal”, seguem registrando no masculino: mal-acabado, mal-afamado, mal-agradecido, mal-ajambrado, mal-ajeitado… Mas de repente vemos lá a palavra “mal-amada”, no feminino, só no feminino. Por que teriam mudado justamente nessa palavra a regra que vinham seguindo? Como se apenas mulheres fossem irrealizadas no amor, ou não correspondidas. Como se esse fosse um atributo do gênero feminino. O dicionário que uso não fica nisso: sugere que quem consulta “mal-amada” confira a palavra “bem-amado”. Subentende-se: homem bem-amado existe; mal-amado não. Não deve ter sido distração.

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