Como a reforma ortográfica do português prejudicou Tony Ramos e Cláudia Ohana

Comentário de Murilo Gun sobre as mudanças na língua portuguesa.

Começo a observar aos poucos nos veículos de comunicação a adoção das novas regras pós-reforma ortográfica. Até que eu gostei da extinção do trema, da inclusão das letras k, w e y no alfabeto e da supressão de alguns casos de hífen. Mas não entendi até agora a eliminação do acento diferencial. A diferenciação da preposição “para” e da forma verbal “pára” era essencial para evitar confusões do tipo “Trânsito para a cidade”. O acento diferencial também era fundamental para diferenciar a preposição “pelo” e o substantivo “pêlo”. Depois da reforma, a frase “Desculpe-me pelos pêlos”, frequentemente utilizada por Tony Ramos e Cláudia Ohana com seus respectivos parceiros sexuais, passou para “Desculpe-me pelos pelos”. A reforma deveria ter retirado, por exemplo, o acento da palavra “pá”, pois é totalmente desnecessário, já que não mudaria nada no som ou na compreensão da palavra “pá” se não houvesse acento. A justificativa dada para a reforma é que o objetivo não é necessariamente simplificar, e sim padronizar o idioma nos países de língua portuguesa. Mas até parece que com essas mudanças a gente fosse entender melhor o português de Portugal, por exemplo. Porque num lugar onde camisinha é chamada de durex, calcinha é cueca, grupo de crianças é canalha, pão francês é cacetinho, imposto é propina e injeção é pica… não vai ser a eliminação do trema que vai resolver o problema de comunicação.

Sonetos de Augusto dos Anjos

No centenário da morte do maior poeta paraibano, Augusto dos Anjos (1884-1914), compartilho com vocês nove de seus melhores sonetos. Saboreie a poesia, aprendendo a apreciar inclusive o gosto amargo de seus versos fúnebres, viscerais e verminais.


Versos íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!


A um monstro

Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,
Receando outras mandíbulas a esbangem,
Os dentes antropófagos que rangem,
Antes da refeição sanguinolenta!

Amor! E a satiríasis sedenta,
Rugindo, enquanto as almas se confrangem,
Todas as danações sexuais que abrangem
A apolínica besta famulenta!

Ambos assim, tragando a ambiência vasta,
No desembestamento que os arrasta,
Superexcitadíssimos, os dois

Representam, no ardor dos seus assomos
A alegoria do que outrora fomos
E a imagem bronca do que inda hoje sois!


Ao meu primeiro filho

(nascido morto com 7 meses incompletos, no dia 02 de fevereiro de 1911)

Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial

Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
A tua morfogênese de infante,
A minha morfogênese ancestral?!

Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!…

Ah! Possas tu dormir feto esquecido,
Panteisticamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER!


O morcego

Meia noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vêde:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede…”
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o tecto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!


O meu nirvana

No alheamento da obscura forma humana,
De que, pensando, me desencarcero,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero
Encontrei, afinal, o meu Nirvana!

Nessa manumissão schopenhauereana,
Onde a Vida do humano aspecto fero
Se desarraiga, eu, feito força, impero
Na imanência da Ideia Soberana!

Destruída a sensação que oriunda fora
Do tacto — ínfima antena aferidora
Destas tegumentárias mãos plebeias —

Gozo o prazer, que os anos não carcomem,
De haver trocado a minha forma de homem
Pela imortalidade das Ideias!


A ideia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica …

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.


Idealismo

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo
O amor na Humanidade é uma mentira.
E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
— Alavanca desviada do seu fulcro —

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!


Agonia de um filósofo

Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo.
O Inconsciente me assombra e eu nêle tolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!

Assisto agora à morte de um inseto!
Ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!

No hierático areópago heterogêneo
Das idéas, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!

Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!

Liberdade – Cecília Meireles

A poetisa, professora e jornalista carioca Cecília Meireles (1901-1964) estaria completando 113 anos hoje, se ainda não nos tivesse deixado. A crônica a seguir foi publicada no livro Escolha o seu sonho, no Rio de Janeiro, em 1964, ano de sua morte.


statue-of-libertyDeve existir nos homens um sentimento profundo que corresponda a essa palavra “liberdade”, pois sobre ela se têm levantado estátuas e monumentos, por ela se tem até morrido com alegria e felicidade. Diz-se que o homem nasceu livre, que a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade de outrem, que onde não há liberdade não há pátria, que a morte é preferível à falta de liberdade, que renunciar à liberdade é renunciar à própria condição humana, que a liberdade é o maior bem do mundo, que a liberdade é o oposto da fatalidade e da escravidão. Nossos bisavós gritavam: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade!”. Nossos avós cantaram: “Ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil!”. Nossos pais pediam: “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!”. E nós recordamos todos os dias que “o sol da liberdade em raios fúlgidos brilhou no céu da Pátria…” em certo instante. Somos, pois, criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposições de cantá-la, amá-la, combater e certamente morrer por ela.

Ser livre, como diria o famoso conselheiro, é agir segundo a nossa cabeça e nosso coração, mesmo tendo de partir esse coração e essa cabeça para encontrar um caminho. Enfim, ser livre é ser responsável, é repudiar a condição de autômato e de teleguiado, é proclamar o triunfo luminoso do espírito (suponho que seja isso). Ser livre é mais além: é buscar outro espaço, outras dimensões. É ampliar a órbita da vida. É não estar acorrentado. É não viver obrigatoriamente entre quatro paredes. Por isso os meninos atiram pedras e soltam papagaios. A pedra, inocentemente, vai até onde o sonho das crianças deseja ir (às vezes, é certo, quebra alguma coisa no percurso). Os papagaios vão pelos ares até onde os meninos de outrora não acreditavam que se pudesse chegar tão simplesmente com fio de linha e um pouco de vento.

Acontece, porém, que um menino, para empinar um papagaio, esqueceu-se da fatalidade dos fios elétricos e perdeu a vida. E os loucos que sonharam sair de seus pavilhões usando a fórmula do incêndio para chegarem à liberdade morreram queimados, com o mapa da liberdade nas mãos. São essas coisas tristes que contornam sombriamente aquele sentimento luminoso da liberdade. Para alcançá-la, estamos todos os dias expostos à morte. OS tímidos preferem ficar onde estão, prender melhor suas correntes e não pensar em assunto tão ingrato. Mas os sonhadores vão adiante, soltando seus papagaios, morrendo nos seus incêndios, como as crianças e os loucos. E cantando aqueles hinos que falam de asas e de raios fúlgidos, linguagem de seus antepassados, estranha linguagem humana, nestes andaimes dos construtores de Babel.

liberdade

Deixa o Alfredo falar!

Crônica de Fernando Sabino.

A arte brasileira da conversa não é de fácil aprendizado. Como toda arte, exige antes de mais nada uma verdadeira vocação. E essa vocação se aprimora ao longo do caminho que vai da inocência à experiência. Como em toda arte. Para princípio de conversa, distinga-se: quando falo em conversa, não estou me referindo à lábia, à astúcia, à solércia do brasileiro no passar a bicaria e vender o seu peixe. Falo precisamente no bate-papo, erigido numa das mais requintadas instituições nacionais. Mas por que arte brasileira? Os outros povos acaso não batem papo?

A própria expressão, brasileiríssima, corresponde em inglês exatamente ao verbo “to chat”, na acepção que lhe dá o dicionário: “to converse in an easy or gossipy manner; talk familiarly”. Até os ingleses, meu Deus, os ingleses têm também o seu papo: um deles, na mesa do bar, olha para fora e diz que vai chover; meia hora depois outro diz que não vai chover; meia hora depois o terceiro se retira dizendo que não gosta de discussão. A falta de graça desta velha anedota não está em ser velha, mas na finalidade útil que fez michar o papo. Este não deve ter finalidade alguma, senão a de matar o tempo da melhor maneira possível. É coisa de latino em geral e de brasileiro em particular: fazer da conversa não um meio, mas um fim em si mesmo. Se não me engano, essa é a distância que separa a ciência da arte.

No papo bem batido, a discussão não passa de uma motivação, sem intuito de convencer ninguém, nem de provar que se tem razão. Os que nela se envolvem devem estar sempre prontos a reconhecer, no íntimo, que poderiam muito bem passar a defender o ponto de vista oposto, desde que os que o defendem fizessem o mesmo. Os temas devem ser de apaixonante gratuidade, a ponto de permitir que, no desenrolar da conversa, de súbito ninguém mais saiba o que se está discutindo. Mesmo nas eternas discussões sobre mulher, religião ou futebol, para que se constituam em bate-papo, longas digressões hão de ser admitidas, desde que pertinentes. Esta última observação, aliás, é pertinente ela própria, já que falei em futebol, quando se trata de papo acalorado como o que batiam aqueles dois amigos, parados numa esquina, violando o silêncio da rua adormecida:

— Se o último jogo do Campeonato fosse do Botafogo contra o Fluminense…
— Ora, Alfredo, pra cima de mim! Ia ser de goleada.
— Você não me deixou terminar, Dagoberto. Eu queria dizer que o Botafogo…
— Que Botafogo que nada! Com o Vasco diziam a mesma coisa…
— Dagoberto, você não me deixa falar!
— … e no entanto ele acabou entrando bem. Essa não, Alfredo.
— Não estou falando no Vasco. Eu disse que o Botafogo…
— E no ano passado, que foi que o Botafogo fez? Me diga só o que ele fez.
— Você não me deixa falar, Dagoberto.
— Desde o princípio todo mundo sabia que o Fluminense…
— Você não me deixa falar!

A essa altura abriu-se uma janela no edifício da esquina e surgiu um indivíduo estremunhado:

— Ô Dagoberto! Deixa o Alfredo falar!

A boa conversa implica sempre em deixar o Alfredo falar. Além disso a discussão, ainda que gratuita, pode exaurir o papo diante de uma impossível opção, como a de saber qual é o melhor, Tolstoi ou Dostoievski, Corcel ou Opala, Caetano ou Chico. A menos que ocorra ao discutidor o recurso daquele outro, hábil em conduzir o papo, que teve de se calar quando, no melhor de sua argumentação sobre energia atômica, soube que estava discutindo com um professor de física nuclear:

— Você é presidencialista ou parlamentarista?
— Presidencialista.
— Pois eu sou parlamentarista.

E recomeçaram a discutir.

Mais ardente praticante do que estes, só mesmo o que um dia se intrometeu na nossa roda, interrompendo animadíssima conversa:

— Posso dar minha opinião?

Todos se calaram para ouvi-lo. E ele, muito sério:

— Qual é o assunto?

Mas percebo que me perdi em discussões, polêmicas, argumentos e desaguisados, afastando-me do verdadeiro espírito que deve presidir o culto dessa arte. De preferência, que ela seja praticada apenas a dois — como diz o mineiro, conversa de mais de dois é comício. E entre estes dois, bom será que reine amável concordância, para que, alternadamente ouvindo e falando, possam ambos conjugar o delicioso verbo discretear.

O feminino de sexo

Crônica de Luis Fernando Verissimo, extraída do livro Comédias para se ler na escola
(Rio de Janeiro: Objetiva, 2008).


sexualidade– Pai…
– Hmmm?
– Como é o feminino de sexo?
– O quê?
– O feminino de sexo.
– Não tem.
– Sexo não tem feminino?
– Não.
– Só tem sexo masculino?
– É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e feminino.
– E como é o feminino de sexo?
– Não tem feminino. Sexo é sempre masculino.
– Mas o senhor mesmo disse que tem sexo masculino e feminino.
– O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra “sexo” é masculina. O sexo masculino, o sexo feminino.
– Não devia ser “a sexa”?
– Não.
– Por que não?
– Porque não! Desculpe. Porque não. “Sexo” é sempre masculino.
– O sexo da mulher é masculino?
– É. Não! O sexo da mulher é feminino.
– E como é o feminino?
– Sexo mesmo. Igual ao do homem.
– O sexo da mulher é igual ao do homem?
– É. Quer dizer… Olha aqui. Tem o sexo masculino e o sexo feminino, certo?
– Certo.
– São duas coisas diferentes.
– Então como é o feminino de sexo?
– É igual ao masculino.
– Mas não são diferentes?
– Não. Ou, são! Mas a palavra é a mesma. Muda o sexo, mas não muda a palavra.
– Mas então não muda o sexo. É sempre masculino.
– A palavra é masculina.
– Não. “A palavra” é feminino. Se fosse masculina seria “O palavro”.
– Chega! Vai brincar, vai.
O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta:
– Temos que ficar de olho nesse guri…
– Por quê?
– Ele só pensa em gramática.

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