32 livros com “qualquer coisa e a filosofia”

Luís Gustavo Guadalupe Silveira, professor de filosofia no IFTM e doutorando em filosofia pela USP, publicou no Facebook uma lista que fez durante visita a uma livraria de Uberlândia, interior de Minas Gerais. Vasculhando a sessão “Filosofia” nas prateleiras, ele encontrou 15 títulos de livros sobre a cultura pop terminando com a expressão “e a Filosofia”. Bandas, filmes, séries de TV… É incrível a quantidade de coisa que consegue vender fazendo associações com a filosofia. Com uma pesquisa rápida no Google, confirmei que todos os livros estão realmente à venda no Brasil e ainda aumentei a lista para 32 títulos! A ideia não é de todo desonesta, explica Luís Silveira. Para ele, parece haver um lado bom nessa exploração mercadológica da filosofia. Ele garante que, dentre os livros citados na lista, todos os que ele conhece possuem “ensaios bem interessantes” e usam os temas “como pretexto ou objeto de reflexão filosófica”. Confesso que não li nenhum desses livros, mas confio na palavra do colega. Certamente esse pode ser um bom começo para leigos e alunos iniciantes tomarem gosto pela filosofia e se interessarem pelos clássicos. “Quem sabe essas ‘drogas’ mas leves não venham a ser a porta de entrada para as mais pesadas?”, sugere o professor. Veja abaixo as capas e, logo em seguida, a lista dos títulos:


BANDAS

U2 e a Filosofia

Metallica e a Filosofia

Os Beatles e a Filosofia

Pink Floyd e a Filosofia

Black Sabbath e a Filosofia


SÉRIES

Lost e a Filosofia

House e a Filosofia

Seinfeld e a Filosofia

24 Horas e a Filosofia

South Park e a Filosofia

Os Simpsons e a Filosofia

Jogos Vorazes e a Filosofia

The Walking Dead e a Filosofia

A Família Soprano e a Filosofia

The Big Bang Theory e a Filosofia


FILMES

X-man e a Filosofia

Batman e a Filosofia

O Hobbit e a Filosofia

Star Trek e a Filosofia

Star Wars e a Filosofia

Watchmen e a Filosofia

Crepúsculo e a Filosofia

Harry Potter e a Filosofia

A Paixão de Cristo e a Filosofia

A Guerra dos Tronos e a Filosofia

As Crônicas de Nárnia e a Filosofia

Buffy, a caça vampiros e a Filosofia

Alice no País das Maravilhas e a Filosofia

Garota com Tatuagem de Dragão e a Filosofia


OUTROS

Jesus e a Filosofia

Hip Hop e a Filosofia

Super-Heróis e a Filosofia


NOTA: É claro que não espero que minha pesquisa tenha sido exaustiva. Certamente deve haver outros livros lançados no Brasil que seguem o mesmo estilo e que não entraram na lista. Sem falar que a cada semana outros títulos são publicados. Se você se lembra de algum título que essa lista deixou escapar, por favor, avise-me nos comentários.

Kant, um filósofo da minha cidade

Crônica de Ekaterina Kucheruk, conterrânea de Immanuel Kant (1724-1804), mas que hoje vive e estuda em Portugal. Ele foi publicado originalmente no blog 50 Lições de Filosofia.


immanuel kant

Kant é um filósofo que dispensa apresentações. Mas poucos de nós conhecem Königsberg, a cidade onde ele sempre viveu. Königsberg é hoje uma cidade russa e chama-se Kaliningrado. Para mim, que  vim de Kaliningrado, onde passei vários anos da minha vida, é enorme a curiosidade sobre como era a “minha cidade” no tempo de Kant. Desde sempre Königsberg representou um atrativo para muitos povos. 90% do âmbar mundial encontra-se nesta região. Vários metais são obtidos ali e a cidade também possui uma saída para o Mar Báltico, que sempre foi muito importante. Fundada em 1255 pelos Cavaleiros Teutônicos sob o nome de Königsberg (montanha do rei), fez parte da Polônia de 1466 até 1656. Foi a capital da Prússia e, a partir de 1871, fez parte do Império Alemão. Voltando a Kant, ele foi um respeitado e destacado professor na Universidade de Königsberg, onde permaneceu durante toda a sua vida. Após sua morte, como um magnífico professor e um importante filósofo, foi sepultado na catedral, perto da universidade, onde se encontrava uma pequena igreja de um lado e a Biblioteca Real do outro.

Depois  da Segunda Guerra Mundial, na Conferência de Potsdam, ficou decidido que Königsberg passaria a pertencer à União Soviética. A população alemã foi evacuada para a Alemanha. A cidade encontrava-se em ruínas, após múltiplos bombardeios dos aliados. A maior parte das construções alemãs, principalmente as igrejas, acabaram depois por ser destruídas pelos sovietes. Mas a catedral, que continua a albergar o túmulo de Kant, foi reconstruída, o que mostra o enorme respeito dos governantes da URSS pelo filósofo. Atualmente Kaliningrado tem poucas semelhanças com aquela cidade que Kant conhecia. A maior parte da população de Kaliningrado sabe que Kant foi um importante filósofo e sabe onde é que ele está enterrado: um lugar situado no centro da cidade, onde ocorrem muitas celebrações de datas importantes. Mesmo assim, poucos leram algum livro dele ou simplesmente sabem o que ele defendia. Isso acontece principalmente entre a população mais jovem. Muitos tentam combater isso. Em 2005 a Universidade de Kaliningrado passou a chamar-se a Universidade Immanuel Kant e no mesmo ano foi aberto o museu deste grande filósofo, entre outras iniciativas ligadas à memória do filósofo. E cada vez mais turistas vêm visitar este lugar.

kant casaAcho, contudo, que a gente de Kaliningrado ainda não consegue aproveitar bem a riqueza histórica e material deste lugar. Os antigos habitantes de Königsberg até a água conseguiam aproveitar de forma eficaz, construindo prédios perto das margens e utilizando-a como via de transporte dentro da cidade. Cada edifício era mais bonito do que o outro. Os parques tinham grandes áreas, e penso que ninguém tinha medo de passear, mesmo à noite. Mas agora é pouco aconselhável andar a certas horas por algumas zonas verdes. Muitas delas estão cheias do lixo e de alcoólatras. Claro que Kaliningrado não é só isso e a maior parte da população não é assim. Mas as pessoas preocupam-se mais com as suas casas, o trabalho e o dinheiro. Resumindo, cada vez mais ignoram tudo o que está fora da sua esfera estritamente pessoal. Neste momento a situação está a melhorar e espero que continue. Mas também sei que Kaliningrado não voltará a ser a Königsberg de ruas escondidas e casas que pereciam pequenos castelos tirados dos sonhos, como nesta imagem, em que se vê o castelo de Königsberg e, no lado esquerdo, a casa em que Kant viveu. Houve outros intelectos brilhantes que nasceram em Königsberg, como o do matemático David Hilbert, mas muito dificilmente voltaremos encontrar lá um intelecto tão brilhante como o de Kant.

gelada com kant
Eu tomando uma cerveja com Kant

Padres, revolucionários e poetas

Crônica de Aires Almeida, professor de filosofia em uma escola secundária de Portugal, publicada em novembro de 2008 no blog Questoes Básicas.


Nunca mais me esqueço do que, há muitos anos, um colega mais velho de matemática me disse na sala dos professores. Além do seu cachimbo (nessa altura ainda se fumava nas escolas), esse colega era conhecido por assumir frequentemente uma atitude intelectualmente provocadora e até politicamente incorreta, como hoje se diz. Estava eu, então, a lamentar baixinho pelo fato de tantas pessoas pensarem que os filósofos são aqueles que procuram saber tudo sobre coisa nenhuma quando o colega, que ainda mal conhecia, se virou para mim e disse: “Olha lá, pá, ainda não cheguei a perceber se tu és dos padres, dos pseudo-revolucionários ou dos poetas lunáticos”.

Fiquei intrigado com o comentário dele e perguntei o que queria dizer com aquilo. “Ora, todos os professores de filosofia que conheci ou pareciam padres ou pseudo-revolucionários de esquerda ou tolinhos armados em poetas lunáticos”. Achei a generalização algo abusiva, mas quis saber como ele caracterizava cada um desses grupos. A resposta foi mais ou menos nestes termos: “Os padres ensinam filosofia como se fosse catequese; os pseudo-revolucionários de esquerda não estão interessados em ensinar seja o que for, mas a levar a rapaziada a mandar bocas contra o sistema; os poetas lunáticos são aqueles que, sem paciência para raciocinar disciplinadamente, querem liberdade para dizer a primeira bobagem que lhes passe pela cabeça”.

Penso que o comentário do colega foi injusto, pois felizmente não se aplica a muitos professores de filosofia. Mas, ainda assim, não deixou de me fazer pensar. A verdade é que ele estava a tentar denunciar aquilo em que a filosofia não se pode tornar e que, a ser assim, a tornaria dispensável. O colega queria, no fundo, protestar contra a ideia de que a filosofia é um conjunto de preceitos que se transmitem dogmaticamente (os padres); ou um gesto de pura contestação, seja contra o que for (os revolucionários); ou ainda um pretexto para cada um exprimir o que lhe vai na alma, seja lá isso o que for (os poetas). Sem desprimor para os verdadeiros padres, revolucionários e poetas.

Ora bem, esta ideia não é totalmente uma invenção dele. A verdade é que a tentação para muitos de nós santificarmos ou idolatrarmos os nossos filósofos preferidos pode fazer-nos deslizar facilmente do campo do exercício crítico que caracteriza a filosofia para o campo da catequese quase religiosa. Assim como é fácil ser impaciente e criticar sem antes ter compreendido, ou confundir a ausência de dogmas com a livre expressão de sentimentos e o reino do vale tudo. Filosofia não é religião, não é política e não é poesia. A filosofia ocupa-se dos seus próprios problemas, apesar de alguns deles serem acerca da religião, da política e da poesia. É certo que estes domínios por vezes se contaminam, tal como se pode misturar água com café. Mas, tal como a água não passa a ser café e o café não passa a ser água, também a filosofia não passa a ser religião, política e poesia, bem como estas a ser filosofia. Também não é de estranhar que a melhor filosofia se manifeste na discussão direta com os filósofos, pois afinal são eles os profissionais do ofício, os que mais treinados estão para formular corretamente e discutir criticamente os problemas filosóficos. A filosofia tem um valor intrínseco e não precisa de se tornar religião, política ou poesia para ter dignidade.

Biblioteca Nacional de Israel exibe na internet manuscritos teológicos de Isaac Newton

IsaacNewton-1689Conhecido por estudos que revolucionaram a física, a matemática e a astronomia nos séculos 17 e 18, Isaac Newton era também um estudioso em um campo de conhecimento que não o deu tanta visibilidade: a teologia. Além de estudos conhecidos como as três leis do movimento, que são a base dos estudos da mecânica clássica e levam seu nome, Newton deixou uma grande coleção de escritos sobre teologia. O legado teológico do cientista britânico está reunido em uma coleção de cerca de 7.500 páginas escritas a mão que pertencem à Biblioteca Nacional de Israel que, de acordo com a Associated Press, digitalizou todo esse material e o disponibilizou online. Os textos abordam assuntos como interpretações da Bíblia e história de culturas antigas.

De acordo com o curador da coleção de Ciências Humanas da Biblioteca Nacional de Israel, Milka Levy-Rubin, Newton era um cristão devoto que abordou muito mais a teologia do que a física, e que acreditava que a Bíblia fornecia um “código” para o mundo natural. O curador afirma também que, diferente da forma com que fazemos distinção entre essas áreas hoje (ciência e fé), “para Newton era tudo parte de um mesmo mundo”. “Ele acreditava que o estudo cuidadoso dos textos sagrados era um tipo de ciência, que se analisado corretamente poderia prever o que estava por vir”, completou o curador.

Esses textos tornaram-se propriedade da biblioteca israelense de uma maneira, no mínimo, curiosa: Anos após a morte de Newton em 1727, seus descendentes doaram seus manuscritos científicos à Universidade de Cambridge. No entanto, a universidade rejeitou os seus manuscritos não científicos, que foram leiloados na casa de leilões Sotheby’s em Londres, em 1936. Como outra casa de leilões famosa de Londres, a Christie’s estava oferecendo uma coleção de arte impressionista que chamou muito mais atenção, apenas dois lançadores interessaram-se pela coleção de Newton naquele dia.

Os escritos teológicos foram arrematados por Abraham Shalom Yahuda, um pesquisador de estudos orientais judaicos. A coleção de Yahuda foi legada à Biblioteca Nacional de Israel em 1969, anos após sua morte. Em 2007, a biblioteca exibiu os papéis pela primeira vez, e agora elas estão disponíveis para todos online. Levy-Rubin afirma que os textos mostram que “no que diz respeito a Newton, sua abordagem da teologia era tão ciência quanto à da física. Sua visão de mundo era que o seu ‘laboratório’ para entender a história era a Bíblia”. O curador disse ainda que, para Newton, “sua fé não era menos importante para ele do que sua ciência”.

Veja todos os manuscritos digitalizados AQUI (em inglês).

A morte de Sócrates

Extraído do prefácio do livro Apologia de Sócrates (Nova Fronteira, 2011).

Por ocasião da morte de Sócrates, Platão estava doente. Não pôde participar das conversas do mestre com os discípulos aproveitando o atraso da execução da sentença, durante o qual Sócrates fazia versos sobre as fábulas de Esopo ou recusava a Críton a fuga oferecida, possivelmente com a própria complacência das autoridades públicas, que começavam provavelmente a reconhecer a fatal injustiça que haviam cometido, graças às intrigas dos acusadores. Platão não pôde tampouco acompanhar a Críton, Fédon, Apolidoro, Cebes e Símias – os cinco amigos e discípulos fiéis que participaram do memorável encontro do último dia de Sócrates, cujo resultado Fédon, depois da morte do mestre, foi contar a Echécatres e este referiu a Platão, que por sua vez o imortalizou no diálogo a que deu nome de Fédon. Aliás, toda obra de Platão está, de igual modo, penetrada pelos ensinamentos de Sócrates, a tal ponto que nenhum comentador conseguiu distinguir nela o que pertence ao discípulo e o que proveio do mestre.

As duas grandes acusações contra Sócrates, que levaram a maioria do júri a condená-lo à morte, foram atentar contra a religião do Estado ateniense e corromper a juventude: ateísmo e subversão. Foi fácil a ele, na sua defesa, destruir completamente tanto uma como outra acusação, como se percebe nas suas palavras perante o Areópago. Longe de ser um ateu, Sócrates mostra que foi a voz do oráculo de Delfos que sempre o guiou. Ao contrário de se considerar infalível, o que o oráculo lhe ensinara é que “toda a sabedoria humana não valia grande coisa e mesmo não valia nada”. E não foi outra a lição socrática: a voz da humildade e do reconhecimento de que “há mais coisas entre o céu e a terra do supõe nossa vã filosofia”, como Shakespeare exprime 23 séculos mais tarde. Meleto, seu acusador, não teve o que responder quando Sócrates pulverizou sua acusação de ateísmo, porque realmente não era verdadeira. A verdade é que Sócrates condenava o politeísmo oficial, a religião de Estado, que obrigava a um conformismo incompatível com a dignidade humana e com a liberdade de consciência.

De fato, a filosofia socrática estava longe de ser um ateísmo, pois considerava que as raízes do universo sensível estavam acima e fora deste universo – de modo que Platão sistematizou essas doutrinas em sua teoria das ideias e da divindade suprema. No entanto, era, isso sim, uma condenação do estatismo  isto é, da autocracia humana que se servia dos deuses para impor aos homens uma escravidão política e moral, pior do que a escravidão puramente social. Esse estatismo, para Sócrates, tanto podia ser democrático como oligárquico. Contra os 30 Tiranos fora ele a única voz no Pritaneu que ousou erguer-se contra um decreto injusto da ditadura. E foi morrer vítima de um governo democrático e até mesmo da facção “moderada” da democracia. O fanatismo “democrático” ou “ditatorial”, é que é o inimigo da dignidade humana e da liberdade de consciência que Sócrates representa.

Não era, pois, uma questão de regime. Na realidade, Sócrates não morria por um regime político, mas por um princípio mais alto do que todos os regimes – o da dignidade humana. O que ele não tolerava era a opressão do pensamento, fosse pelo Estado, fosse pela multidão, fosse em nome dos deuses ou de qualquer outra coisa. Por esse princípio é que Sócrates enfrentou a morte com a mesma serenidade com que passara a vida discutindo livremente com os cidadãos de Atenas. Se é verdade, como diz Faguet, que “Platão tinha ódio aos atenienses”, como tinha “ódio à democracia”, nesse ponto o platonismo nada tinha de socrático. Sócrates nunca sonhou em organizar uma República que pudesse, pela rigidez de suas leis, como pretendeu Platão, dar felicidade aos cidadãos. Pelo contrário, Sócrates dizia que sempre, desde criança, uma voz interior o aconselhava a não se meter na vida política. Não era esta a sua vocação.

Não era uma lição de escapismo, mas de sabedoria. Cada um no seu quadrado. E o de Sócrates era argumentar com os cidadãos, levá-los a pensar, pensar com eles… E não entrar na esfera política para governá-los ou mesmo para elaborar as leis que os deviam tornar felizes, como Platão queria que os filósofos fizessem e em vão o tentou junto aos tiranos. por aí se vê que nem todo platonismo é socratismo. A morte de Sócrates era pela liberdade e não pela autoridade. Era esta, a autoridade de um regime democrático, que praticava contra ele uma trágica injustiça. Contra isso é que ele se revolta, não por atos, mas por palavras, não por violência, mas por serenidade, não por emoção, mas por razão. Mais do que pela razão, pela sabedoria. E mais do que pela sabedoria humana, pela sabedoria sobre-humana, divina, oracular.

Nesse sentido é que Sócrates foi uma prefiguração de Cristo. Sua morte, como a de Cristo, foi um protesto contra todas as formas de tirania, de César ou da multidão, dos teocratas, dos aristocratas ou dos democratas. Só há uma “cracia” autêntica – a “cracia” divina, do Bem, da Verdade, da Justiça, do Amor, aquela sob a qual Sócrates viveu e agora morria. A importância da morte de Sócrates e da sua apologia, que Platão exprimiu para a posteridade, como poeta e filósofo, tanto na própria Apologia de Sócrates, como no Críton ou no Fédon, transcendem, pois, de muito, o próprio mundo helênico e a própria cultura grega. Nunca a dignidade humana, a liberdade de consciência, a defesa da verdade, da justiça, da virtude, a serenidade perante a morte, a humildade de espírito e a grandeza de alma, a compreensão e a fortaleza de ânimo, a coragem sem jactância, nunca um pensamento tão alto, uma lição tão profunda, foi dada por um homem aos homens em termos tão perfeitamente belos. Só mesmo a divindade de Cristo poderia ultrapassar a humanidade de Sócrates.

Chegado o dia da execução, Sócrates enfim toma a cicuta, esse veneno tão sutil e fatal, com que ele ingressava não na morte, mas na eternidade. Não com lágrimas nos olhos, mas com um sorriso nos lábios. Condenando para sempre, na pessoa dos seus algozes, a arrogância dos fanáticos e a violência dos medíocres. “Mas já é hora de irmos: eu para a morte, e vós para viverdes. Mas quem vai para melhor sorte, isso é segredo, exceto para Deus.” (Sócrates, em suas últimas palavras).

A Apologia de Sócrates se coloca entre as mais belas páginas de eloquência que nos foram legadas pela antiguidade. A autodefesa do filósofo, feita perante seus impenitentes acusadores, evocada por Platão com devoção de discípulo fiel, é, não obstante à brevidade do texto, uma síntese da filosofia socrática, de grandíssimo valor literário e como documento humano. A admirável serenidade do sábio, só preocupado com o destino dos seus acusadores e com a sagrada verdade, manifesta-se em toda a sua grandeza nas páginas imortais deste pequenino e grande livro.

Veja também: O método de Sócrates

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