O maior dilema de todo professor

Crônica do professor e cientista político português João Pereira Coutinho
para o jornal Folha de S.Paulo do dia 18 de novembro de 2016.


Um amigo meu, professor do ensino secundário, contou-me a história de um colega que jamais esqueci. Certo dia, o docente em questão foi chamado ao gabinete do diretor. Motivo: as notas dos exames. Segundo parece, as notas que ele atribuía aos alunos estavam “abaixo da média”. Ele, surpreendido com a filosofia do colégio, limitou-se a afirmar que nunca corrigia exames de acordo com as notas dos outros professores. Limitava-se a aplicar a mais velha distinção do mundo entre acerto e erro. As notas apenas expressavam esse julgamento elementar.

O diretor compreendeu a seriedade do professor. Mas depois perguntou – uma forma suave de ridicularizar – se o ensino moderno pode ser resumido a uma dicotomia tão estreita entre “saber” e “não saber”. Existem outros valores – extra-epistemológicos, digamos assim – que devem ser tidos em consideração. E, além disso, os alunos pagam mensalmente uma quantia generosa para estudarem na instituição. Não será legítimo esperar que eles tenham direito ao sucesso? O pobre homem ficou mudo. E o diretor, em tom amigável, pediu-lhe para “repensar os critérios”, até porque “os pais estão preocupados”. Não com a ignorância ou a preguiça dos filhos, entenda-se; mas com as “expectativas frustradas” de quem apostara naquele colégio em particular.

A noite foi de insônia. Será que um homem de meia-idade, com mulher e três filhos, tem direito aos luxos da ética? Será que a seriedade profissional compensa quando há uma casa e um “estilo de vida” para pagar? A resposta foi negativa. Ele regressou para o colégio, continuou com as suas aulas e corrigiu os exames com outros critérios. Aliás, os critérios foram tão generosamente alargados que todos os alunos da turma terminaram o ano com a nota mais elevada. O professor regressou ao gabinete do diretor para ser informado que não era possível comunicar aos pais a “farsa das notas altas”. Não era “verossímil”. E o colégio tinha um nome a defender. O professor estava “dispensado”.

Os grandes contra os pequenos

Crônica de Rubem Alves.

Vou contar uma estória que aconteceu de verdade. Sobre um menininho de oito anos, meu amigo. Passei, por acaso, na cidade onde ele mora. O avião chegou tarde. Seus pais foram me esperar no aeroporto. Enquanto íamos para casa, perguntei: “Então, e o Gui, como vai?”. “Ah! Não vai bem, não”, revelou a mãe. “Na escola, o orientador educacional nos chamou. Problemas de aprendizagem, desatenção, cabeça voando, incapacidade de concentração… Até nos mandou para um psicólogo”. Fiquei surpreso. O Gui sempre me parecera um menininho alegre, curioso, feliz. O que teria acontecido? Sua mãe continuou: “O psicólogo pediu um eletroencéfalograma”. Aí me assustei. Imaginei que o Gui deveria ter tido alguma perturbação neurológica grave, algum desmaio, convulsão. “Não, não teve nada”, a mãe me tranquilizou. “Mas o psicólogo pediu… Nunca se sabe… Até ele não aceitou o exame no lugar onde mandamos fazer. Pediu outro”.

Fiquei imaginando o que deveria estar se passando na cabeça do Gui. Pai e mãe indo conversar com o orientador, entrevista com o psicólogo, depois aquela mesa, fios ligados à cabeça… Claro que alguma coisa deveria estar muito errada com ele. Tendo visto tantos desenhos de ficção científica na TV, é provável que ele tivesse pensado que, quando a máquina fosse ligada, os seus olhos iriam acender e piscar como luzinhas de diversões eletrônicas. Quando acordei, no dia seguinte, estranhei. Não vi o Gui lá pela casa. Mas era sábado, dia lindo, céu azul. Com certeza estaria longe, empinando uma pipa, jogando bolinhas de gude, rodando pião, brincando com a meninada. Dia bom para vadiar, coisa abençoada para quem pode. Pelo menos é isto que aprendi dos textos sagrados, que o Criador, depois de fazer tudo, no sábado parou, sorriu e ficou feliz. “Não, ele está estudando”, disse a mãe.

Foi aí que comecei a ficar preocupado. Assentadinho, no quarto, livro aberto à sua frente. Nem veio me dar um abraço. Ficou lá, com o livro. Cheguei perto e começamos a conversar. E ele logo entrou na coisa que o afligia: “É, tenho de fazer quinze pontos, porque se não fizer fico de recuperação. E isto é ruim, estraga as férias”. Lembrei-me logo do ratinho preso na caixa. Se pular alto que chegue, ganha comida. Se falhar, leva um choque. Seu pêlo fica arrepiado de pavor, com medo do fracasso. Ficou doente. Fizeram-no doente. Eu não sabia o que os tais quinze pontos significavam. Mas compreendi logo que eles eram o limite abaixo do qual vinha o choque. O Gui já aprendera lições não ensinadas: que o tempo se divide em tempo de aflição e tempo de alegria, escola e férias, dor e prazer. E a professora ainda queria que ele se concentrasse, e gostasse da coisa. Mas como? A cabecinha dele estava longe, o tempo todo, pensando em como seria boa a vida se a escola também fosse coisa gostosa. Desatenção na criança não quer dizer que ela tenha dificuldades de aprendizagem. Quer dizer que há alguma coisa errada com a escola, e que a criança ainda não se dobrou, recusando-se a ser domesticada.

Continuamos a conversa e ele começou a falar de uma forma estranha, que eu nunca ouvira antes. Vocês podem imaginar uma criança de oito anos falando em aclive e declive? Pois é, não aguentei e interrompi: “Que é isto, Gui? Por que é que você não fala morro abaixo e morro acima?”. “Mas a professora disse…”. Compreendi então. A pinoquização já se iniciara. Um menininho de carne e osso já não usava mais suas próprias palavras. Repetia o que a professora dissera. Fiquei pensando em quem é que estava doente: o menino ou a escola. Claro que o ratinho tem que ficar de pêlo arrepiado, pois o choque vem. E eu pergunto se não está mais doente ainda quem dá o choque.

Surpreendi-me com esta enorme e perversa conspiração entre a direção das escolas, os orientadores, os psicólogos… Todos unidos contra a criança. O orientador, coitado, não tem alternativas. Se aliar-se à criança, perde o emprego. Ele é o ideólogo da instituição, encarregado de convencer os pais, por meio de uma linguagem técnica, de que tudo vai bem com a escola e tudo vai mal com a criança. O psicólogo, por sua vez, fica sem saber como agir. Que é que vai fazer? Desautorizar o diagnóstico de uma rara fonte de clientes? É melhor fazer um eletro. Fios e gráficos dão sempre um ar de respeitabilidade científica a tudo. Lembrei-me da velha estória do cliente que chegava ao analista e dizia: “Doutor, tem um jacaré debaixo da minha cama!”. A que o analista respondia: “Sua cama não está na beira da lagoa, está? Então não há jacaré nenhum debaixo da sua cama. Volte para casa, tome estes remédios e durma bem”. E assim foi, semana após semana, até que o tal cliente não mais voltou. O analista ficou feliz. O tipo devia ter-se curado da estranha alucinação. Até que, um dia, encontrou-se na rua com um amigo do homem do jacaré: “Então, e o fulano, como vai? Sarou de tudo?”. E a resposta: “Mas o senhor não soube do acontecido? Ele foi comido por um jacaré que morava debaixo da sua cama”.

Há muitas escolas que não passam de jacarés. Devoram as crianças em nome do rigor, da boa base, do preparo para o vestibular. É com essa propaganda que elas convencem os pais e cobram mais caro. Mas, e a infância? E o dia que não se repetirá nunca mais? E os sonos frequentados por pesadelos de quinze pontos, recuperação, férias perdidas e palavras de ventríloquo? Essas escolas são como jacarés, que as crianças têm de frequentar e, quando começam a demonstrar sinais de pavor diante do bicho, tratam logo de dizer que o bicho vai muito bem, obrigado, que é a criança que está tendo problemas, um foco cerebral com certeza, caso para neurologista, psicólogo, psicanalista… E os pais vão, de angústia em angústia, gastando dinheiro, querendo o melhor para o filho. Quanto a mim, considero que isso não passa de crueldade dos grandes contra os pequenos. Torturá-los agora, em benefício daquilo que eles poderão ser, um dia, se caírem nas armadilhas que os desejos dos grandes para eles armam. Não, Gui, fique tranquilo. Está tudo certinho com você. São os outros que deveriam ser ligados a fios elétricos até que os seus olhos piscassem como se fossem lâmpadas de brinquedos eletrônicos.

Como é feita a prova do Enem?

Muitos candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ficam tão focados em conhecer o padrão de questões da prova e em como os conteúdos são cobrados, que acabam não pensando em como aquelas perguntas chegam no exame. Se você acha que um grupo de professores se reúne em uma mesa e monta as provas de uma vez, você está muito enganado. Tanto as questões do Enem quanto as de outros concursos públicos são selecionadas através de um acervo, o Banco Nacional de Itens (BNI).

O Ministério da Educação (MEC) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) convocam instituições públicas e federais, tanto da educação básica quanto da superior, para contribuir com o banco. Estas decidem quais professores serão indicados para elaborar as questões, pois os docentes devem estar dentro do perfil definido pelo Inep. Após serem elaboradas, essas questões passam por uma revisão do INEP. Todas elas devem ser objetivas, possuir um texto introdutório e 5 alternativas, sendo que somente uma é a correta. O conteúdo de todas as perguntas da prova deve estar relacionado às disciplinas do Ensino Médio. Cada professor recebe R$ 200 por questão aceita para integrar o Banco Nacional de Itens. Já os professores que ficam responsáveis pela revisão dos itens ganham cada um R$ 100 por questão.

O MEC realiza uma prova semelhante ao Enem com alunos do Ensino Médio da rede pública. O chamado pré-teste é composto por 45 questões, diferentes entre si. Após o teste, as questões entram para o Banco Nacional de Itens, que hoje possui mais de 10 mil questões. Como o processo é extremamente sigiloso, os alunos não sabem que a prova que estão fazendo é parte do processo de montagem do banco de questões que compõem o Enem. De acordo com o resultado do pré-teste, as questões recebem graus de dificuldade. Cada grau é representado por um número que vai de zero até mil. A partir desses números, é montada uma régua. As perguntas são dividias entre fáceis, médias e difíceis. As médias ficam mais ou menos na marca de 500 pontos.

Para montar a prova, o MEC seleciona 180 questões, sendo 45 de cada uma das quatro áreas do conhecimento (Ciências Humanas; Ciências da Natureza; Linguagem e Códigos; Matemática). As questões começam a ser analisadas e escolhidas cerca de 5 a 6 meses antes do dia do exame. Esse é o tempo necessário para elaborar, imprimir e distribuir a prova. O conjunto de questões de cada área precisa equilibrar o grau de dificuldade das perguntas (25% fáceis, 50% médias e 25% difíceis). Como um dos objetivos do Enem é diferenciar o grau de conhecimento dos candidatos, as questões que apresentaram alto nível de acertos ou erros durante o pré-teste são descartadas.

As notas obtidas pelos candidatos são calculadas com base na Teoria de Resposta ao Item (TRI), que avalia não só o número de questões acertadas, mas também o grau de dificuldade delas e a coerência e consistência dos acertos na prova. Mesmo com números iguais de acertos, duas pessoas podem ter notas diferentes de acordo com o nível de dificuldade das questões acertadas e com a consistência desses acertos (errar muitas fáceis e acertar muitas difíceis não apresenta coerência e pode configurar chute). Continue reading “Como é feita a prova do Enem?” »

O papel da filosofia na educação

Palestra ministrada pela diretora da Nova Acrópole de Brasília, professora Lúcia Helena Galvão, sobre o papel da filosofia na educação. Encontre tempo e ouça com atenção.

Previsões de Isaac Asimov sobre como a internet revolucionaria a educação

Neste vídeo de 1988, o futurólogo e escritor de ficção científica americano Isaac Asimov mostra toda sua genialidade prevendo a importância da internet para a educação. Trata-se de uma entrevista gravada por Bill Moyers no programa de TV World of Ideas.

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