O que você está pesquisando?

pesquisaUma breve confissão (ou seria um desabafo?) do pós-graduando. Uma situação corriqueira pela qual todos nós, estudantes universitários, já passamos (ou vamos passar) várias vezes durante a jornada acadêmica, especialmente em cursos de pós-graduação.


Sempre que digo a alguém que faço doutorado, já começo a ter calafrios. Porque em seguida, inevitavelmente, vem uma pergunta do tipo “ah é? e o que você está pesquisando?”. Pronto. Não existe tarefa mais árdua do que explicar a uma pessoa leiga no assunto o tema da sua pesquisa. É claro que a gente tem as hipóteses, os objetivos e, se bobear, até a metodologia na ponta da língua. Mas traduzir tudo isso de maneira simples, concisa e coesa não é fácil. Ainda mais quando parece ser impossível fugir dos termos técnicos. Entretanto, a outra pessoa não espera de você uma aula sobre o assunto. Às vezes ela nem mesmo quer saber de verdade o que você faz. Está apenas tentando ser educada.

Terminada esta etapa, dependendo do grau de especificidade do seu trabalho, vem o segundo ato: convencer a outra pessoa da relevância da sua pesquisa. Porque nem toda pesquisa é sobre a descoberta da cura do câncer ou sobre uma nova fonte de energia. Existem pesquisas básicas, sobre enzimas, proteínas ou novos materiais cujos resultados são ansiosamente aguardados no meio acadêmico. Mas vai explicar isso para a sua tia/vizinha/irmã-da-amiga-da-sua-prima! Depois de algumas tentativas mal-sucedidas, estou pensando seriamente na possibilidade de ensaiar alguma resposta-pronta-engraçadinha para quando for pego desprevenido nesta situação.

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Descreva sua pesquisa em apenas uma frase

Você se dedica a estudar determinado assunto, todos os dias, durante anos. Passa dias e noites tentando responder aquela pergunta inquietante. Não há como não se envolver emocionalmente com aquele tema. É bem provável que você consiga passar horas explicando suas descobertas. Ao final, você olha para todas aquelas folhas com um misto de alívio, alegria e sensação de dever cumprido. Mas você conseguiria resumir toda sua pesquisa em uma única frase? Pois esta é a proposta do tumblr LOL My Thesis, que virou febre entre os pesquisadores no exterior. As frases, na maioria das vezes escritas pelo próprio autor da pesquisa, resumem as pesquisas já concluídas com apenas uma frase, simplificando muitas vezes de maneira intencionalmente engraçada as intenções e descobertas. O resultado é que muitas pesquisas acabam soando ridículas, absurdas ou extremamente óbvias. Em alguns casos, a frase ainda vem acompanhada do link para o estudo que realmente foi publicado, o que torna tudo bem mais engraçado. E você, o que está pesquisando na pós-graduação? Conseguiria resumir sua pesquisa em uma frase?

Jornal A Tarde: “Je suis Charles”

Esse é o título de um artigo publicado nesta quarta-feira de cinzas no jornal A Tarde, de Salvador-BA, sobre este que vos escreve. Quem assina é Carlos Zacarias de Sena Júnior, doutor em História e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Leia o recorte do jornal abaixo e, para entender melhor o caso, recomendo também a leitura dessas duas matérias, publicadas pelo G1 no começo do mês:

Aprovado em medicina fez prova só para testar conhecimentos

Aprovado em 7 vestibulares e 4 concursos dá dicas de estudo

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Je suis Charles - Jornal A Tarde - Salvador (BA)

 

Apenas uma correção: No texto, o autor refere-se ao “caso do estudante de filosofia paraibano que, após ser aprovado para o curso de medicina na UFPB, resolveu que não ia abandonar a arte de Platão e Aristóteles”. Está errado. Eu não resolvi continuar na filosofia “após” passar em medicina. Na verdade eu jamais cogitei a possibilidade de cursar medicina. Como já cansei de explicar, faço o Enem todos os anos para testar meus conhecimentos e coloquei essa opção no Sisu apenas porque é o curso mais concorrido e eu queria testar se conseguiria passar. Foi apenas um desafio pessoal a que me propus.

Dicas de estudo #4 – Educação egoísta

Depois de estudar um assunto, ou toda vez que aprender algo novo, é interessante, sempre que possível, ensinar o que você aprendeu para outra pessoa. Se ninguém estiver disposto a lhe ouvir, uma alternativa é explicar a matéria para si mesmo. De qualquer modo, ensinar é a melhor forma de aprender. Isso acontece porque, para ser capaz de ensinar algo, é necessário que aquele conhecimento esteja tão bem sedimentado que você acaba aprendendo e fixando-o muito melhor. Quando você lê ou ouve algo, retém um pouco. Quando você estuda, retém um pouco mais. Mas o ápice da retenção é quando você ensina. Ensinar o que aprendeu é importante nem tanto pelo interesse altruísta de ajudar outra pessoa e compartilhar o conhecimento. É claro que isso também é importante, mas nesse sentido que eu proponho, o interesse é principalmente seu. Murilo Gun chama isso de “educação egoísta”, que é quando você ensina com o objetivo principal não de que a outra pessoa aprenda, mas de que você mesmo aprenda enquanto ensina. Ouça o que ele diz sobre isso:

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BÔNUS: Como as pessoas aprendem? (Murilo Gun)

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Outros posts da série dicas de estudo:

1 – A atitude correta
2 – O ciclo do aprendizado
3 – Individual e ativo
4 – Educação egoísta
5 – Concentração e foco
6 – As quatro etapas
7 – Pierluigi Piazzi
8 – Lúcia Helena Galvão
9 – Como estudar sozinho em casa
10 – Como estudar para uma prova

Dicas de estudo #3 – Individual e ativo

No último post da série, vimos que uma boa rotina de estudos obedece um ciclo do aprendizado: (1) assistir aula para entender, (2) estudar para aprender e (3) dormir bem para fixar. Ora, a aula quem prepara é o professor, não você. Você tem pouquíssimo controle sobre o conteúdo das aulas, porque ele geralmente é escolhido pelo professor, e este tem que obedecer um certo programa. Sobre o processo de sedimentação do conhecimento no seu cérebro durante o sono você também não tem nenhum controle, porque isso acontece enquanto você está inconsciente. Então a única etapa desse processo sobre a qual você tem pleno controle é a hora de estudar, e é precisamente sobre essa etapa que eu quero dar mais algumas dicas.

Ainda no post anterior, eu disse que há uma diferença básica entre aluno e estudante: aluno é quem assiste as aulas, estudante é quem estuda. Mas isso não é tudo. Existe outra diferença fundamental entre ser aluno e estudante, ou seja, entre assistir aula e estudar. Assistir aula é uma atividade COLETIVA e PASSIVA: você está em grupo e ouvindo o professor. Estudar é uma atividade INDIVIDUAL e ATIVA: você deve estar sozinho e escrevendo. Por mais legal que seja se reunir com os amigos para estudar, você acaba falando mais de outras coisas e as dúvidas permanecem. Portanto, se você quer ser um estudante de verdade em vez de apenas um aluno, você deve revisar o conteúdo das aulas e fazer os exercícios propostos sozinho em casa.

Um grande defensor dessa ideia de que só se aprende de verdade no estudo individual e ativo é o professor Pierluigi Piazzi. Ele costuma dizer que “ninguém está estudando se não estiver escrevendo”. Portanto, não se contente em apenas ler; isso não é estudar. Também não é suficiente sublinhar as partes mais importantes do texto ou sinalizá-las com um marca texto. Para estudar você precisa rabiscar e escrever, de preferência à mão. Segundo o professor Pier, como é carinhosamente apelidado pelos seus alunos, muitas pesquisas indicam que os alunos que escrevem à mão aprendem mais do que quem só digita. “Você tem movimentos totalmente distintos para escrever cada letra à mão, mas isso não acontece quando você está digitando. Isso faz com que mais redes neurais sejam ativadas no processo da escrita. (…) As neurociências já mostraram que aquilo que você escreve à mão vai pro teu HD; aquilo que você digita vai pro HD do computador. E na hora de fazer vestibular ou prestar um concurso, o computador que você leva é este, sua cabeça. É esse computador que você deve treinar mais”, diz.

Mas espere: não é porque você precisa estudar escrevendo que você deve sair copiando todo o conteúdo do livro. Faça resumos, fichamentos, resenhas e esquemas da matéria. Para saber o que vale a pena escrever, faça de conta que você está preparando uma cola para uma prova. Por ter pouco espaço e pouco tempo para consultá-la, é preciso ser conciso, mas, ao mesmo tempo, abordar os pontos principais. É justamente isso que você precisa escrever quando for estudar.

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Outros posts da série dicas de estudo:

1 – A atitude correta
2 – O ciclo do aprendizado
3 – Individual e ativo
4 – Educação egoísta
5 – Concentração e foco
6 – As quatro etapas
7 – Pierluigi Piazzi
8 – Lúcia Helena Galvão
9 – Como estudar sozinho em casa
10 – Como estudar para uma prova

Dicas de estudo #2 – O ciclo diário

No primeiro post da série, eu disse qual acredito ser a atitude correta diante dos estudos. Em suma, sugeri que o encarássemos como uma preparação para a vida e não apenas para as provas. Hoje, vou revelar como é o meu dia-a-dia de estudante. Basicamente, minha rotina de estudos é baseada num método que o professor Pierluigi Piazzi ensina em suas palestras sobre estimular a inteligência. Esse método consiste em obedecer um ciclo diário composto de três etapas: (1) assistir aula para entender; (2) estudar para aprender; e (3) dormir bem para fixar. Nessa ordem. Calma que eu explico:

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1. ASSISTIR AULA PARA ENTENDER

Antes de tudo, é preciso entender a função das aulas. O estudante brasileiro médio tem o péssimo hábito de achar que aula serve para aprender, e por isso não estuda depois da aula. Um erro comum é fazer dois cursinhos para ter um maior número de aulas, achando que isso vai melhorar o seu rendimento. Isso não vai ajudar, e o motivo é bem simples: Assistir aula não serve para aprender, mas para entender a matéria e tirar dúvidas. É o estudo pós-aula que serve para aprender. A diferença entre entender e aprender pode parecer muito sutil, mas não é. Quando o professor explica uma matéria, seu objetivo é que o aluno consiga acompanhar o raciocínio e então possa dizer consigo mesmo: “Ah, entendi!”. Se o aluno prestou atenção na aula e entendeu o que ele disse, a função da aula foi cumprida. Ao fim da aula, porém, o aluno ainda não aprendeu o assunto, ele apenas o entendeu. Ele pode até lembrar de tudo na prova que será aplicada uma semana depois, tirar uma boa nota e passar com facilidade. Mas ele ainda não aprendeu de verdade.

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2. ESTUDAR PARA APRENDER

O que faz o estudante absorver a matéria e realmente aprender não é a aula. Como eu disse, aula serve pra te fazer entender o assunto. É o estudo pós-aula que serve para aprender. Assistindo aula com atenção, o aluno entende o que o professor disse, mas aquela informação fica guardada na memória de curto prazo (uma espécie de memória RAM do cérebro) e, se nada for feito, será perdida em poucos dias. Para que isso não aconteça, o aluno precisa revisar e reforçar o mesmo conteúdo sozinho depois da aula. Só depois que ele faz essa espécie de backup é que aquelas informações vão para a memória de longo prazo (algo como o HD do cérebro) e pode-se dizer que houve de fato aprendizado. Portanto, o que realmente vai fazer a diferença é o momento em que você estuda sozinho, não o número de aulas que assistiu. Mas isso não significa que vale “gazear” ou dormir nas aulas: como já foi dito, elas são importantes para entender a matéria e tirar dúvidas. Ou seja, as aulas servem para nortear o estudo individual. Se o sujeito tem aula o dia inteiro, quando é que vai poder estudar? Ele vai só entender momentaneamente a matéria, mas não vai aprender; a sua cabeça vai virar uma bagunça e ele vai esquecer logo, porque o conhecimento não foi sedimentado.

Sobre aumentar a quantidade de aulas, especialmente em cursinhos, penso o seguinte: Nada contra fazer cursinho, mas esteja sempre ciente de que nenhum cursinho, por mais caro que seja e por mais professores famosos que tenha, pode te fazer passar em nada. A função do cursinho é te orientar, te ajudar a estudar. O seu estudo individual é que te fará passar. Ademais, a própria existência de cursinhos é a evidência de que o sistema educacional brasileiro não funciona; porque se funcionasse não existiria o cursinho. Qual é o perfil do aluno de cursinho? É o cara que descobriu tarde demais que fez tudo errado na escola e agora está correndo atrás do prejuízo. Eu mesmo, como sempre estudei em escola pública, uma vez resolvi fazer cursinho para complementar algo que supostamente teria faltado na minha formação básica. Isso foi logo após eu ter concluído o ensino médio. Comecei a trabalhar, me matriculei na turma da noite, paguei as mensalidades, comecei a ir, mas devo confessar que não aguentei passar mais de dois meses naquele ambiente. Eu ficava me perguntando o que estava fazendo ali. No segundo mês deixei de ir para ter mais tempo de estudar sozinho em casa. Foi uma ótima decisão.

O professor Pierluigi Piazzi costuma dizer que o maior problema da educação brasileira é que ela tem milhões de alunos, mas pouquíssimos estudantes. Mas não são a mesma coisa? Qual é a diferença? Segundo ele, aluno é quem assiste às aulas. A coisa mais fácil do mundo é ser um aluno. Basta estar matriculado e frequentar as aulas que você já é um aluno. Mas ainda não é um estudante. Estudante é quem estuda. E estudar não significa assistir aula, mas revisar o conteúdo da aula em casa. Portanto, quando você assiste aula, você é um aluno; quando chega em casa, faz os exercícios e revisa o conteúdo da aula, você é um estudante.

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3. DORMIR BEM PARA FIXAR

As neurociências já mostraram que é muito importante, após um dia de aula e estudo, que você tenha uma boa noite de sono. Você entende o assunto na aula, estuda para reforçar, mas é durante o sono que o seu cérebro organiza aquelas informações e consolida o conhecimento. Somente após essa consolidação é que o aprendizado é definitivo, para o resto da vida. Por isso é importante que você revise o conteúdo das aulas no mesmo dia, antes que se passe uma noite de sono, enquanto as informações ainda estão frescas na memória. Além de evitar acúmulo, estudar o conteúdo visto em sala de aula no mesmo dia fará com que seu cérebro entenda que aquilo é importante e memorize com mais facilidade. Se você assiste aula hoje e deixa para estudar aquele assunto no outro dia, não é a mesma coisa, porque você certamente já perdeu muita informação. Recapitulando: Na aula você entende, no estudo você aprende e numa boa noite de sono você fixa. Esse é o ciclo. Vale mais estudar pouco e todo dia do que estudar muito mas sem regularidade.

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Outros posts da série dicas de estudo:

1 – A atitude correta
2 – O ciclo do aprendizado
3 – Individual e ativo
4 – Educação egoísta
5 – Concentração e foco
6 – As quatro etapas
7 – Pierluigi Piazzi
8 – Lúcia Helena Galvão
9 – Como estudar sozinho em casa
10 – Como estudar para uma prova

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