Teoria da gravidade: o fundo de verdade na história da maçã de Isaac Newton

Artigo de Steve Connor para o jornal The Independent do dia 18 de janeiro de 2010. Traduzido por Eli Vieira para o blog Xibolete.

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É uma das anedotas mais famosas da história da ciência. O jovem Isaac Newton está sentado em seu jardim, quando uma maçã cai em sua cabeça e, num lampejo de genialidade, ele de repente inventa sua teoria da gravidade. A história é certamente enfeitada, tanto por Newton quanto por gerações de contadores de histórias que vieram depois dele. Mas hoje qualquer um com acesso à internet pode ver por si mesmo a história em primeira mão de como uma macieira inspirou o entendimento da força gravitacional. A Royal Society em Londres está tornando disponível em forma digitalizada o manuscrito original que descreve como Newton imaginou sua teoria da gravidade depois de observar uma maçã caindo de uma árvore no jardim de sua mãe no condado de Lincolnshire, embora não haja evidência para sugerir que a maçã o atingiu na cabeça.

Era 1666 e, por causa da peste negra, muitos eventos e prédios públicos estavam fechados. Newton teve de abandonar Cambridge e ir para o Solar de Woolsthorpe, perto da cidade de Grantham, em Lincolnshire, a casa modesta em que ele nasceu, para contemplar os problemas estelares que ele havia perseguido na universidade. Ele tinha obsessão em particular pela órbita da Lua em torno da Terra, e veio a raciocinar que a influência da gravidade deve se estender por distâncias vastas. Depois de ver como maçãs sempre caem em linha reta ao chão, passou vários anos trabalhando na matemática mostrando que a força da gravidade diminuía na razão inversa do quadrado da distância. Mas que evidência há de que Newton foi mesmo inspirado por uma maçã em queda? Ele não deixou nenhum registro escrito disso, embora haja outros documentos sugerindo que ele falou a respeito para outros quando já velho.

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Solar de Woolsthorpe, casa da infância de Isaac Newton

Historiadores apontam para um relato escrito em particular de um dos contemporâneos jovens de Newton, um antiquário e proto-arqueólogo chamado William Stukeley, que também escreveu a primeira biografia do maior cientista da Grã-Bretanha, com o título “Memórias da Vida de Sir Isaac Newton”. Stukeley também nasceu em Lincolnshire, e usou seus contatos para fazer amizade com o notoriamente briguento Newton. Stukeley passou um tempo conversando com o idoso Newton, a dupla se encontrava regularmente como membros da Royal Society, e se falavam. Em uma ocasião em particular em 1726, Stukeley e Newton passaram a noite jantando juntos em Londres. “Depois do jantar, como o tempo estava bom, fomos ao jardim e bebemos chá sob a sombra de uma macieira; só ele e eu”, escreveu Stukeley no manuscrito meticuloso liberado pela Royal Society.

“Entre outros discursos, ele me disse que estava na mesma situação quando, no passado, a noção da gravidade lhe veio à mente. Por que deveria a maçã sempre descer perpendicularmente ao chão, pensou ele consigo; por ocasião da queda de uma maçã, enquanto sentado em humor contemplativo. Por que ela não cai para o lado, ou para cima, mas constantemente em direção ao centro da Terra? Certamente a razão é que a Terra a puxa. Deve haver um poder de atração na matéria. E a soma do poder de atração na matéria da Terra deve estar no centro da Terra, não em qualquer lado da Terra. Portanto, a maçã cai perpendicularmente ou em direção ao centro? Se matéria dessa forma puxa matéria; deve ser em proporção à sua quantidade. Portanto, a maçã puxa a Terra, tão bem quanto a Terra puxa a maçã”.

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Memórias da Vida de Sir Isaac Newton, 1752

Essa é a versão mais detalhada da anedota da maçã, mas não é a única dos tempos de Newton. Ele também a tinha usado para entreter John Conduitt, o marido da sobrinha de Newton e seu assistente na Casa Real da Moeda, que Newton chefiou em idade mais avançada. Conduitt escreveu: “No ano de 1666 ele se afastou novamente de Cambridge para a casa da mãe em Lincolnshire. Enquanto andava pensativamente num jardim, veio ao seu pensamento que o poder da gravidade (que trouxe uma maçã de uma árvore ao chão) não era limitado a uma certa distância da Terra, mas que esse poder deve se estender para muito mais além do que se pensava. Por que não tão alto quanto à Lua, disse ele a si mesmo, e se é assim, que deve influenciar seu movimento e talvez reter sua órbita, e assim ele se pôs a calcular qual seria o efeito dessa suposição”.

Ambas as versões do incidente da maçã foram relembradas por Newton cerca de 50 anos depois. Isso aconteceu mesmo, ou foi uma história que Newton enfeitou ou até inventou? “Newton foi aperfeiçoando astutamente essa anedota ao longo do tempo”, disse Keith Moore, chefe dos arquivos da Royal Society. “A história foi certamente verdadeira, mas digamos que foi ficando melhor ao ser contada. A história da maçã se encaixava com a ideia de um objeto em forma de planeta sendo atraído pela Terra. Também tinha uma ressonância com a história bíblica da árvore do conhecimento, e sabe-se que Newton tinha opiniões religiosas extremas”, disse o sr. Moore.

No Solar de Woolsthorpe, agora propriedade da Fundação Nacional para Lugares de Interesse Histórico ou Beleza Natural do Reino Unido, a governanta da casa, Margaret Winn, disse que a mesma macieira, de uma variedade usada em cozinha, ainda cresce na frente da casa, com vista para a janela do quarto de Newton. “Ele contou a história quando idoso, mas você se pergunta se realmente aconteceu”, disse a srta. Winn, que já cozinhou com as maçãs. Mas mesmo se a história foi invencionice fantástica de um velho homem, o conto da maçã em queda foi registrado na história como o segundo maior “momento eureka” na ciência, depois de Arquimedes, que descobriu como calcular o volume de objetos enquanto estava tomando banho.

Marcelo Gleiser no Canal Livre falando sobre vida extraterrestre, ciência e religião

Entrevista concedida por Marcelo Gleiser, professor de física e astronomia na Universidade de Dartmouth, nos Estados Unidos, ao programa Canal Livre, da Band.
Na ocasião, ele falou sobre a probabilidade e as consequências de existir vida fora da Terra, sobre a relação entre ciência e religião, e sobre os limites éticos da ciência.




Veja também: Extraterrestres existem ou não? (Marcelo Gleiser)
Cientistas já discutem os procedimentos padrão em caso de contato alienígena

BÔNUS: Programa Canal Livre (Band) exibido no dia 23 de março de 2014, com a presença de Douglas Galante, doutor em astronomia pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), e do professor emérito da USP, Sylvio Ferraz Mello, doutor em ciências matemáticas pela Academia de Paris e Doutor Honoris Causa do Observatório de Paris. Apresentação de Boris Casoy, com a presença dos jornalistas Fernando Mitre e Ulisses Capozzoli na bancada.

Tabela periódica ilustrada

Keith Enevoldsen, cientista e professor de Engenharia Mecânica da South Dakota State University, nos Estados Unidos, criou a tabela periódica abaixo. As ilustrações mostram a principal utilidade prática de cada elemento químico. Clique na imagem para ver em tamanho maior. Saiba mais no site do projeto.

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Do que morrem os brasileiros?

Neste dia de Finados, quero compartilhar com vocês dois infográficos produzidos pela equipe do jornal Nexo a partir de dados oficiais extraídos do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS) entre os anos de 2001 e 2014. Eles mostram quais foram as principais causas de morte no Brasil, por idade e por gênero.

Dica: clique na imagem para ver em tamanho maior.

mortes-brasil-idade-genero

NOTA: As categorias são provenientes do Catálogo Internacional de Doenças (CID10). A categoria “Homicídios” é uma subdivisão da categoria “Causas externas”. A categoria “Sintomas anormais de exames clínicos” compreende causas mal definidas, desconhecidas e sem diagnóstico preciso. O período perinatal consiste no período que ocorre imediatamente antes e depois do parto.

O que os autores realmente queriam dizer em seus artigos científicos

Todo pós-graduando lê (ou deveria ler) semanalmente uma boa quantidade de artigos científicos, resumos, teses, dissertações e demais publicações de resultados de pesquisas e trabalhos acadêmicos. É possível identificar, com o passar do tempo, alguns padrões na redação científica que, com um pouco de senso crítico e muito de bom humor, nos faz pensar sobre como os textos seriam elaborados pelos autores se a sinceridade fosse possível neste universo acadêmico de cobranças exageradas por publicação a qualquer preço. Assim, apresentamos abaixo algumas interpretações sinceras e bem-humoradas das discussões de resultados encontrados em artigos publicados.

O que foi publicado no artigoO que significa na verdade
“Vários autores relatam que…”“Tive preguiça de procurar a referência”
“Como é de conhecimento geral”“Eu acho que é assim”
“Geralmente se afirma que…”“Eu e meus colegas pensamos assim”
“Há algumas discussões em torno do assunto”“Ninguém acredita em mim”
“Isto pode ser demostrado”“Acredite em mim”
“De grande importância teórica”“Eu acho isso interessante”
“De grande importância prática”“Isto justifica o meu emprego”
“De grande importância histórica”“Isto pode me tornar famoso”
“Com os resultados característicos podemos concluir que…”“Escolhemos os melhores resultados”
“Correto, em uma certa ordem de grandeza”“Errado”
“Valores obtidos de forma empírica”“Valores obtidos acidentalmente”
“Os resultados não são conclusivos”“Os resultados poderiam destruir minha hipótese”
“Outros trabalhos são necessários…”“Preciso de mais dinheiro para o projeto”
“Sintetizado de acordo com os protocolos padrões”“Comprado da Merck”
“Gostaria de agradecer a José da Silva pela assistência na parte técnica e a Maria José pelas valiosas contribuições”“Gostaria de agradecer a José da Silva por ter feito todo o trabalho e a Maria José por ter me explicado o que tudo significa”
“Por enquanto não é possível obter respostas precisas para este problema”“Mesmo não tendo a resposta, achei que poderia publicar um artigo com essas besteiras”
“Acredita-se que este efeito possa ser observado em intervalos maiores de tempo”“Não tive paciência para realizar um experimento mais demorado”
A concordância com o modelo proposto é:
1. Excelente
2. Bom
3. Satisfatório
4. Regular
5. Como esperado
A concordância com o modelo proposto é:
1. Regular
2. Fraco
3. Duvidoso
4. Péssimo
5. Inexistente
“Trabalhos adicionais são necessários para elucidar os resultados”“Não entendi os resultados obtidos”
“Lamentavelmente uma teoria com abordagem quantitativa não foi formulada ainda”“Todo mundo já percebeu que isso não faz o menor sentido”
“Espero que este trabalho estimule outras pessoas a investir neste campo de conhecimento”“Por favor, não me abandonem!”
“Composto de alta pureza”“Isto é o que afirmava o rótulo”
“Algumas amostras foram escolhidas para o estudo”“As outras amostras não faziam sentido”

E você, consegue acrescentar algum item nessa lista?

Fonte: Pós-graduando.

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