Bíblia do Matuto

O publicitário e designer paraibano Rayan Rodrigues teve a sacada de contextualizar passagens da Bíblia com a linguagem típica do Nordeste brasileiro ao idealizar a Bíblia do Matuto. Eu já lhe dei a ideia de um livro mas, por enquanto, o trabalho está sendo divulgado apenas no Facebook – e fazendo sucesso por lá. Repara que ideia arretada:

E se as revistas fossem mais sinceras?

Vi esse trabalho gráfico lá no blog Puxa Cachorra e achei super engraçado. Ele faz uma sátira das principais revistas impressas atualmente em circulação no Brasil. Vê se de fato não ocorre mais ou menos assim:

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Todas elas juntas num só ser

Helô Pinheiro tinha apenas 15 anos quando costumava passar em frente ao Bar Veloso, na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, que era frequentado por ninguém menos que Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Seu caminhar despreocupado e indiferente aos olhares masculinos foi a fonte de inspiração para o maior sucesso da dupla de compositores: Garota de Ipanema. “É ela a menina que vem e que passa / No doce balanço, a caminho do mar”, diz a letra (ouça aqui). Essa e mais 49 histórias são contadas no livro “Músicas & Musas: a verdadeira história por trás de 50 clássicos pop“, que acaba de ser lançado no Brasil. “Garota de Ipanema” é a única canção brasileira lembrada pelos autores Michael Heatley e Frank Hopkinson. As demais envolvem nomes como Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, entre outros. No entanto, se as musas verde-amarelas foram esquecidas no tal livro, foram mais do que lembradas (embora não homenageadas) por Lenine em “Todas elas juntas num só ser”, canção belíssima cuja letra cita (quase) todas as mulheres já “cantadas” na música brasileira. Ouça abaixo e você entenderá o tamanho da genialidade:

Sobre “O Nome da Rosa”

nome da rosaAssisti três vezes antes de começar a escrever. E escrever não foi uma opção: foi, antes, algo que eu não podia deixar de fazê-lo. Uma necessidade que surgiu enquanto eu me encontrava numa fascinante aventura ao lado de William de Baskerville e seu jovem discípulo Adso de Melk na grande biblioteca-labirinto de um mosteiro sombrio situado nas montanhas do norte da Itália, no final do outono de 1327. Esse é o cenário para onde o cineasta francês Jean Jacques Annaud nos leva com admirável competência por pouco mais de 2 horas.

E por “nos leva” entenda que estou falando sério: realmente me senti dentro da história, como que vivendo as experiências dos personagens. Experiências que, de tão marcantes e prazerosas, eu, como amante da literatura que sou, já cogito a compra do livro homônimo do qual o filme derivou. E não digo “prazerosa” só por causa da cena de sexo e nudez lá pela metade do filme, mas porque há prazer na busca pelo conhecimento livre e sem censura – este sim, tema acerca do qual o enredo se desenvolve. Outras discussões importantes sobre como a comédia (o riso), as riquezas ou a ciência afetam a cristandade – e até uma paixão reprimida – completam o conjunto de argumentos que o filme traz à tona, abrindo espaço para o debate de ideias.

O enredo começa a ganhar forma quando monges franciscanos de várias partes da Europa reúnem-se com representantes do papa no tal mosteiro para uma conferência. Mas a missão deles é ofuscada por um grande “desconforto espiritual” devido a uma série de assassinatos misteriosos dentro do mosteiro, os quais os religiosos passaram a atribuir aos “ardis do demônio”. Entra em cena, então, as habilidades do monge franciscano William de Baskerville (Sean Connery), que, auxiliado pelo seu noviço Adso de Melk (Christian Slater), começa a investigar as causas das mortes. “A única prova que vejo do demônio é o desejo de todos de vê-lo atuar”, diz William. “Não vamos nos deixar influenciar por boatos irracionais. Em vez disso, vamos exercitar os nossos cérebros e tentar solucionar este torturante enigma”, completa.

Com uma brilhante capacidade de dedução que chega a lembrar o famoso detetive Sherlock Holmes, William passa por grandes apuros, que vão desde a acusação de heresia pela Inquisição à acusação de ser o autor dos assassinatos – passando por um incêndio –, até conseguir desvendar este intrigante mistério de uma forma que eu, preocupado em não contar o desfecho do filme e lhe estragar a emoção, prefiro omitir. Em vez disso, considero muito útil fazer uma análise crítica de uma ideologia predominante e de um costume comum na Idade Média, e em torno da qual o filme se constrói. Por “ideologia”, refiro-me à ideia de que a sabedoria está ligada diretamente à tristeza, beirando o mau humor. Diversas vezes é apregoado que “um monge não deve rir”, pois “para isso existe o bobo, que levanta a voz em risos”. O problema do riso para a Igreja, na Idade Média, baseava-se em uma lógica muito simples, representada no filme pelas palavras de um monge, o venerável Jorge: “O riso mata o temor. E sem temor não pode haver fé. Se não há temor no demônio, não é necessário haver Deus”.

Finalmente, por “costume”, me refiro à prática da Igreja de censurar livros que eles mesmos consideravam “espiritualmente perigosos”, ou seja, livros que apresentavam ideias capazes de pôr em dúvida os dogmas das escrituras. Ou, nas palavras do próprio William: “É porque contêm uma sabedoria diferente da nossa”. Sentindo por admitir que tamanha intolerância ainda vigora, disfarçadamente, nos nossos dias, concordo totalmente com William quando ele, eufórico por ter descoberto uma das maiores bibliotecas de sua época, composta apenas por livros proibidos pela Igreja, diz: “Ninguém deveria ser proibido de consultar estes livros!”.

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