Carta a um jovem escritor

escritorVocê quer ser escritor e pede alguns conselhos. Imagino que espere uma resposta repleta de entusiasmo. Nesse texto, publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, Nelson Fonseca Neto diz que não pode fazer uma coisa dessas. “Prefiro jogar limpo”, diz ele, antes de dar as seguintes dicas.

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Não tente acertar vários alvos. O escritor é um caçador solitário. Não desperdice a parca munição. Não dá para se sair bem em todos os gêneros. Faulkner foi excepcional romancista e contista mediano. Machado de Assis foi primoroso na prosa (conto, crônica e romance) e raso na poesia. Manuel Bandeira nunca escreveu romance. Jorge Luís Borges ficou no conto, na poesia e no ensaio. Os contos de Graciliano Ramos são bem mais fracos que os romances. Siga o exemplo de Tchekhov (sempre ele!), que preferiu ficar no conto. Atingir a excelência num só gênero já é trabalho suficientemente árduo.

Evite o “bloguismo”. Aposto que você conhece várias celebridades blogueiras. Diga a verdade: não é uma chatice ler 99,9% do que essas pessoas escrevem? Não dá para perceber a impostura? Tudo jogo de cena. Os caras forçam a barra. Temos o “blogueiro caubói”, que acha o máximo ser grosseiro e bancar o machão. Temos a “blogueira lírica”, que vê poesia até na caixa de leite longa vida. Temos o “blogueiro comentarista”, que dá palpites mordazes (e quase sempre sem qualquer fundamento) em política internacional, economia, cinema, teatro, arquitetura, televisão, educação, antropologia, filosofia e futebol. É o Da Vinci 2.0. Cada época com o Renascimento que merece. Sem contar a tara dessas pessoas pela confissão idiota. Tudo é importante em suas vidas. O carro quebrou? Post no blog. A data de validade do iogurte expirou? Post no blog. Trocou de celular? Post no blog. Seria a “cura pela palavra”? Que beleza!

Estude profundamente a língua portuguesa. Tem gente elogiando a ignorância. Fica bonitinho valorizar a naturalidade, como se escrever fosse um exercício de psicografia. Ora, escrita e artifício caminham juntos. Algumas coisas não mudam: o escritor trabalha com as palavras. Ele precisa escolhê-las e organizá-las. Léxico e sintaxe. Não custa nada entender o que é subordinação e o que é coordenação. Vale a pena colocar os adjetivos na balança. É importante saber como funciona o adjunto adverbial. Vírgula, ponto final e ponto-e-vírgula são apenas manchas no texto? Claro que não. Mas tome cuidado: conhecer a língua portuguesa não é a mesma coisa que bancar o esnobe. Não ache que, aqui, o passo mais importante é virar um mestre da nomenclatura. Tudo bem você conhecer análise sintática, mas não a transforme em jogo sem sentido. Entender como as palavras se organizam – função da sintaxe – é meio, e não fim.

Recomendo dois livraços que o ajudarão a refletir com maturidade sobre os mecanismos da língua: Comunicação em prosa moderna (Othon Garcia) e Estilística da língua portuguesa (Rodrigues Lapa). Essas duas obras não soterram o leitor com capítulos bobocas. Elas atiram para acertar: estrutura de parágrafos; posição de adjetivos e advérbios; importância dos “verbos de dizer”; seleção lexical; aplicação (muito bem justificada) da voz ativa e da voz passiva. Enfim, pontos cruciais do uso da linguagem escrita. Nada de coletivo de borboleta, por exemplo. Claro que não tem problema conhecer o coletivo de borboleta, mas muitos livros de gramática não enfatizam quais tópicos são importantes e quais são acessórios.

Leia com lupa. Infelizmente, ao escolher o ofício da escrita, você terá de mudar a maneira como lê literatura. Antes, você lia por prazer. Não reparava na construção das frases. Corria os olhos pelos diálogos. Você queria chegar ao final da trama, claro. Mas as coisas mudaram. Você precisa de exemplos, de lanternas que iluminem um pouco a floresta cerrada. Os grandes autores fornecem essa luz. Passe a reparar no estilo protocolar de Kafka. Em muitos momentos, aquelas palavras parecem saídas de um documento governamental. Repare na escassez de adjetivos do Antigo Testamento. Note a perfeição do conto “Os mortos”, que fecha Dublinenses, de James Joyce. Sinta a amargura dos últimos contos longos de Tchekhov. Transforme Memórias do Cárcere em livro de cabeceira. Compare as primeiras versões dos contos de Raymond Carver com as últimas. Aquilo é prática de corte. A faca é indispensável ao escritor.

A literatura não garantirá seu sustento. Você está no Brasil. Escritor brasileiro vende pouco. Escreva nas horas vagas. Aproveite as brechas que a rotina oferece. Trate de garantir o mínimo de conforto material. Não caia na conversinha do romantismo. Não veja a indigência como algo nobre. Cuidado com a síndrome do coitadinho. Estou cansado de ver candidatos a escritor chorando pelos cantos. Muitos desses caras são craques na hora de apontar o dedo na direção dos culpados. Para eles, todos são culpados. Eles sonham com a vitalícia subvenção do governo. Ou que uma Guggenheim os acolha. Eternos pidões, começam com um chororô que às vezes termina em estelionato. Aqui, as palavras de Flaubert são perfeitas: “O ideal é uma existência estável da vida externa para que a mente possa suportar suas tempestades e se revelar na página”. Viva como um burguês, pense como um artista. É o que posso dizer para você. Talvez sejam palavras um tanto amargas. Não ache que sou um cara azedo. O fato é que levo realmente a sério essa atividade chamada “literatura”.

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