Biblioteca Pública Digital da América

A biblioteca reunirá documentos de museus, universidades e outras instituições americanas. É mais um passo rumo à universalização do acesso ao conhecimento, como mostra a matéria a seguir, publicada na Época.


Reunir todo o conhecimento já produzido pela humanidade, em pedra, placas de argila, peles de animais, papiros, pergaminhos, papel ou bits, é uma das ambições mais nobres e difíceis. Dos idealizadores da Biblioteca de Alexandria, no século 3 a.C., aos tecnófilos do Vale do Silício, passando pelos iluministas do século 18, muitos já se dedicaram a esse sonho. Com os esforços de grandes instituições para converter seus arquivos ao formato digital, surgiram novas tentativas de concretizá-lo. A recém-inaugurada Biblioteca Pública Digital da América (DPLA, na sigla em inglês) é a mais recente delas – e um dos projetos mais ambiciosos.

Pôsteres da Segunda Guerra Mundial, a Declaração da Independência dos Estados Unidos escrita à mão por Thomas Jefferson e poesias originais de Emily Dickinson são alguns dos destaques do acervo de 2,4 milhões de itens, disponíveis gratuitamente para internautas de todo o mundo no site dp.la. Não é preciso fazer nenhum cadastro para acessar o conteúdo. A base de dados reúne arquivos digitalizados de museus, bibliotecas e outras instituições dos EUA. A expectativa é que essa coleção aumente muito nos próximos meses, à medida que outras bibliotecas do país se juntem à nova DPLA e que as antigas continuem a digitalizar seus acervos

A página surge como uma reação ao Google Book Search, um ambicioso projeto do Google para digitalizar todos os livros do mundo. Até agora, 30 milhões de obras saíram de prateleiras e foram para o acervo digital. Apenas obras de domínio público ou sem restrições legais podem ser lidas na íntegra. É possível acessar apenas alguns trechos de obras protegidas por direitos autorais. Por oferecer aos leitores a possibilidade de comprar as obras, e definir o preço com seus parceiros comerciais, o Google foi alvo de críticas. As motivações comerciais também fizeram com que outras instituições impedissem o uso de seus dados pelo Google. Para evitar essa armadilha, os idealizadores dizem que o conhecimento deve ser gratuito para todos e defendem a superioridade técnica do projeto. “Teremos melhores descrições e materiais que não aparecem numa busca no Google. Será uma experiência muito superior”, diz Dan Cohen, diretor executivo da DPLA.

O projeto foi criado sob a liderança da Universidade de Harvard (EUA), sem a ajuda do governo americano. Embora alguns técnicos da Biblioteca do Congresso tenham participado, o financiamento coube a fundações sem fins lucrativos, como Soros, Knight e Sloan, além do Instituto de Museus e Bibliotecas, uma agência independente. O maior desafio, porém, não foi financiar a biblioteca, e sim superar as barreiras legais para digitalizar os acervos. Problemas semelhantes foram enfrentados pelo Google, quando a empreitada de digitalizar milhões de livros foi limitada após decisões judiciais favoráveis aos escritores. Em diversos países, a Justiça entendeu que o projeto não tinha respaldo legal. Com o trabalho de professores de Direito e especialistas, a DPLA pretende evitar os erros cometidos pelo Google. Até 2014, seus organizadores querem firmar uma aliança com autores de livros fora de circulação, para fazer com que suas obras ressurjam na internet. “A vida comercial de um livro é muito limitada”, diz Darnton.

A inspiração para o projeto veio da Europeana, uma biblioteca digital europeia criada em 2008, que atualmente agrega 20 milhões de itens de 20 mil organizações da União Europeia. Com o estabelecimento da DPLA, baseada nos mesmos padrões tecnológicos, os organizadores das duas bibliotecas já sonham com a fusão das coleções para criar um grande acervo mundial. “No futuro próximo, imagino que teremos um sistema de biblioteca transatlântico. Reuniremos recursos de toda a Europa e dos Estados Unidos para torná-los disponíveis a todo o mundo”, afirma Darnton. “Também espero a participação da América do Sul. Desejo que um dia as bibliotecas públicas do Brasil também façam parte disso”.

No Brasil, há poucos acervos digitais. Esforços públicos e privados têm sido somados para mudar isso. Uma das iniciativas foi a formação, em 2011, da Rede Memorial. Ela reúne bibliotecas, museus, arquivos e outros institutos para discutir o acesso aberto ao conhecimento, padrões de tecnologias de digitalização e formas de obter investimentos. Uma das principais articuladoras é a recém-inaugurada Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo (USP), que desenvolveu um sistema para implantação e gerenciamento de bibliotecas digitais. “Esperamos que, nos próximos dois anos, o país tenha um volume considerável de materiais digitalizados para criar um site semelhante ao da Europea­na”, afirma Pedro Puntoni, diretor da Brasiliana USP. A biblioteca tem mais de 3 mil títulos digitalizados.

A meta é fazer isso com a maior parte do acervo de 32 mil títulos, dentro dos limites legais. Formar uma aliança com escritores e seus herdeiros, seguindo o exemplo da DPLA, pode ser uma maneira de contornar essas barreiras. “Tanto pela lei americana quanto pela brasileira, que seguem os mesmos princípios internacionais, o autor decide sobre o uso de sua obra, a não ser que haja restrições no contrato com a editora”, afirma José Carlos Costa Netto, presidente da Associação Brasileira de Direito Autoral. Respeitar o direito dos autores é uma forma de acelerar a contribuição do país para a grande biblioteca mundial.

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