A audácia de enxergar à frente

O texto a seguir recebeu nota máxima na prova de redação do vestibular da Fuvest.
O ano da aplicação e o nome do autor não foram divulgados.

Estar à frente de seu tempo quase nunca é uma vantagem. A dureza das sociedades humanas em aceitar certas noções desmente, não raro, o ditado popular que diz que “Em terra de cego, quem tem um olho é rei”. A História é pródiga em nos apresentar exemplos. Sócrates foi obrigado, pela sociedade ateniense, a tomar cicuta, em razão de suas ideias. Giordanno Bruno, que concebeu a Terra como um simples planeta, tal como sabemos hoje, foi chamado herege e queimado. Darwin debateu-se contra a incompreensão e condenação de suas ideias, mais tarde aceitas. Esse mal não será curado tão cedo. Isso porque as pessoas que conseguem enxergar à frente apresentam ao homem o que ele odeia desde sempre: a necessidade de rever suas próprias convicções. Enquanto esse ódio – ou será medo? – não for superado, a humanidade continuará mandando outros “Giordanno Bruno” para a fogueira da incompreensão e do isolamento. E, ignorando as pessoas de visão, continuará cega para o futuro e para si mesma.


Uma das frases mais conhecidas do físico alemão Albert Einstein é esta: “A mente que se abre a uma nova ideia jamais retornará ao seu tamanho original”. O próprio Einstein deve ter se debatido muito com o problema até ter o insight que quebrou o antigo paradigma da física: E se o tempo e o espaço não fossem absolutos? E se eles pudessem se comprimir e se expandir? Refez os cálculos considerando essa hipótese e viu que tudo se encaixava. A partir dali, toda a física precisava ser reformulada porque os antigos padrões não serviam mais, não eram compatíveis com os novos problemas da mecânica quântica e da física moderna. Como uma grande mente coletiva, a física se abriu a essa nova ideia proposta por Einstein, e depois disso nunca mais poderá voltar ao que era antes dele.


Fernando Pessoa (1888-1935), consagrado poeta português, na obra Heróstato:

É admissível que o gênio não seja apreciado na sua época porque a ela se opõe; mas pode-se perguntar por que razão é apreciado nas épocas vindouras. O universal opõe-se a qualquer época, pois as características desta são necessariamente particulares. Por que será então que o gênio, que se ocupa de valores universais e permanentes, é mais favoravelmente recebido por uma época do que por outra? A razão é simples: cada época resulta da crítica da época precedente e dos princípios subjacentes à vida civilizacional da mesma. Enquanto que um só princípio está subjacente, ou parece estar subjacente, a cada época, as críticas desse princípio único são variadas, tendo apenas em comum o fato de se ocuparem da mesma coisa. Ao opor-se à sua época, o homem de gênio critica-a implicitamente, integrando-se implicitamente numa ou noutra das correntes críticas da época seguinte. (…) Quanto mais universal é o gênio, mais facilmente será aceite pela época imediatamente a seguir, pois mais profunda será a crítica implícita da sua própria época. Quanto menos universal for, na sua universalidade substancial, mais difícil será o seu caminho, a menos que lhe aconteça coincidir com o sentido de uma das principais correntes críticas da época seguinte.

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