As Aventuras de Pi

Indicado ao Oscar de melhor filme, “As Aventuras de Pi” (2012) surpreende ao oferecer uma visão alternativa sobre a experiência do sagrado. O longa-metragem é baseado no livro best-seller escrito em 2001 por Yann Martel, uma narrativa em parte fantasia e em parte relato da luta pela sobrevivência, que discute o lugar do homem na natureza.

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Aos 40 anos, Pi é entrevistado por um jornalista sobre a história que mudou para sempre a sua vida: ser o único sobrevivente de um naufrágio quando era adolescente. A trama, toda em forma de flashback pelo protagonista, criará uma situação metalinguística interessante: em qual versão da história devemos acreditar? De Pi, do jornalista que transcreverá a história ou do autor do livro que supostamente teria se baseado na entrevista que Pi deu ao jornalista?

A história é a seguinte: Pi é um garoto indiano, filho de um dono de zoológico, vegetariano e muito religioso. Na sua busca pelo sentido da existência acaba confessando 3 religiões diferentes ao mesmo tempo: hinduísmo, islamismo e cristianismo. Numa determinada cena, seu pai é irônico sobre isso: “Se você se converter a mais umas 2 religiões, não precisará mais trabalhar, pois todo o seu calendário será feriado”. Quando Pi finalmente começa a se encontrar na vida e conhece um grande amor, seu pai, em dificuldade financeira, decide recomeçar a vida do outro lado do mundo, no Canadá, para onde pretende levar a família e vender os animais.

A cena que segue lembra a arca de Noé: um navio cheio de animais selvagens. No meio da viagem, em pleno Oceano Pacífico e sobre a temida Fossa das Marianas, uma tormenta afunda o navio matando todos à bordo, incluindo toda a família de Pi. Pi é a única pessoa que sobrevive, junto com um orangotango, uma zebra, uma hiena e o ameaçador tigre de bengala Richard Parker (é assim que ele é chamado), todos em um bote salva-vidas. Começa então a sua luta pela sobrevivência, uma jornada que colocará Pi diante de sucessivas provações que abalam sua relação com Deus, da necessidade de abandonar o vegetarianismo para se alimentar de peixes, e da violência de seus novos companheiros, já que a pequena embarcação cria uma amostra da cadeia alimentar, sobrando apenas Pi e o tigre.

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Após meses à deriva, tendo que oferecer (em sacrifício?) a maior parte dos peixes que conseguia pescar ao tigre para aplacar sua fome (ira?) e não ser devorado (castigado?) por ele, Pi finalmente é levado pela correnteza à costa do México e encontrado por pescadores locais, sendo levado imediatamente a um hospital. Dias depois, ele reconhece que, não fosse a presença imponente e amedrontadora do tigre,  não teria sobrevivido. Sua mente permaneceu lúcida e ativa por causa do medo constante que a fera selvagem oferecia (além de ter uma companhia, claro).

Ainda no hospital, Pi é procurado e interrogado por representantes da seguradora e da empresa responsável pelo navio, para que relatasse o ocorrido. Os executivos, como era de se esperar, não aceitaram a história fantasiosa de Pi, com todos aqueles animais e acontecimentos milagrosos e irrealistas. Então ele deu o que os executivos queriam e passou a contar-lhes outra versão, bem mais chata, normal, padrão. Enfim, a “versão oficial”, que foi amplamente divulgada na imprensa e arquivada nos relatórios.

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Ao concluir a sua história para o jornalista, o velho Pi coloca-o diante de uma escolha: “Eu lhe contei duas histórias. Nas duas o navio afunda, minha família morre e eu sofro. Qual das duas você prefere?” E é então respondido: “A que tem um tigre”. Então ele acrescenta: “É a mesma coisa com relação a Deus”. A analogia é facilmente percebida por qualquer espectador mais atento. Pi de repente se acha sozinho em um pequeno bote salva-vidas no meio da imensidão do oceano pacífico, sem o menor sinal de terra firme a milhares de quilômetros de distância. Acima dele apenas o céu, com todas as surpresas que reserva, vez ou outra trazendo assustadoras tempestades, relâmpagos e trovões. Abaixo dele a temível Fossa das Marianas, o ponto mais profundo da Terra, com incríveis 11 mil metros de profundidade, e escondendo em suas trevas as mais terríveis criaturas marinhas.

Pi é claramente uma representação da humanidade, presa neste pequeno bote salva-vidas que é o planeta Terra, que flutua sobre a vastidão do Universo desconhecido. Mas e o tigre? O que ele representa? Obviamente que, para o autor, o tigre é a representação de Deus. Assim como a existência humana, a história de Pi pode ser encarada de duas formas: ou ele está sozinho no meio do nada, sem esperanças e sem achar sentido para a existência; ou ele tem a companhia de um tigre, e dá sentido aos seus dias fugindo dele, alimentando-o e tentando uma aproximação amigável.

NOTA: A reflexão acima foi a minha interpretação pessoal do filme. No entanto, o próprio filme foi construído de modo a poder ser interpretado através de vários outros pontos de vista. Você pode assistir o filme e deduzir muitas outras analogias por si mesmo.

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7 opiniões sobre “As Aventuras de Pi

  • 24 de janeiro de 2013 em 11:10
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    Esse filme entrou na lista do melhores que já assisti. Excelente texto e linha de pensamento, Charles. 🙂

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  • 25 de janeiro de 2013 em 17:20
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    Assisti o filme e gostei mais pelo visual do que pelo enredo (não que seja ruim!), as cenas com o tigre entre outras são muito bem feitas! Minha analise quanto ao enredo é que ele é uma tentativa de justificar o lado placebo ou ilusorio das religiões, e da crença em divindades, etc com suas narrativas fantasticas e em alguns pontos inspiradoras. No fim o personagem principal faz a observação… contei 2 estorias uma mais provavél e simples e outra bela e fantastica, porém absurda, cabe a quem ouviu escolher, e o ouvinte escolheu a segunda, e é mais ou menos assim com a maioria da humanidade e seu apego a religião! O ser humano evoluiu amortecendo a dureza da natureza através de uma fuga da realidade, mas ele também foi vitima dessa fuga ao criar a religião, pois ao passar do tempo ele perdeu os limites entre fantasia e realidade, como também a religião foi cada vez mais sendo usada como instrumento de controle, poder e dominação! Pi é muito parecido com qualquer um de nós buscando sobreviver às tempestades da vida e ser feliz num mundo muitas vezes cruel em que temos que persistir equilibrando nossas mentes entre a realidade e a fantasia!

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    • 27 de janeiro de 2013 em 13:37
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      Olá, Luciano!
      Que o objetivo do filme é “justificar o lado placebo das religiões”, fica muito claro na cena em que Pi é advertido pelo seu pai a não se aproximar do tigre porque ele é um animal selvagem e muito perigoso. Em resposta, Pi garante ao pai que o tigre tem alma e que viu isso nos olhos dele. Ao que é respondido: “Ele não tem alma! O que você vê nos olhos dele é apenas a sua própria imagem refletida. Você vê nele o que quer ver!”. Obviamente esta é uma alusão à ideia de que nosso conceito de deus foi criado pelo próprio homem, à sua imagem e semelhança.

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  • 27 de janeiro de 2013 em 9:34
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    Eu acho que a interpretação de cada um sobre o filme é o mesmo que o pai diz ao Pi que o que vemos nos olhos de outro animal (seja racional ou irracional) é aquilo que reflecte esses olhos, ou seja, nós mesmos ou até mesmo a nossa alma. Ontem vi o filme e quando li: “Eu lhe contei duas histórias. Nas duas o navio afunda, minha família morre e eu sofro. Qual das duas você prefere?” E é então respondido: “A que tem um tigre”. Então ele acrescenta: “É a mesma coisa com relação a Deus”. confesso que fiquei um pouco confuso, mas de repente todo o puzzle foi sendo montado.

    Passo a explicar a minha interpretação:
    Aquando da tempestade e naufrágio, a personagem Pi tenta salvar a sua família, e abre uma porta dos compartimentos dos quartos e sai uma Zebra (que é o monge chinês do filme). A zebra não podia estar ali visto que os animais estavam todos na zona de carga do navio. Depois está o cozinheiro no bote salva vidas e diz para os que estão no cargueiro saltarem (incluindo o monge chinês que só comia arroz e molho), e de repente vemos uma zebra saltar e ficar com a perna partida no barco, ou seja o monge chinês saltou e ficou com a perna partida.

    Aquando da descida do barco e do quase afogamento da personagem Pi deixamos de ver o cozinheiro que se colocou por baixo da lona do barco, e vemos a personagem Pi a avistar alguém ao longe (a sensação que dá quando vemos o filme é de que é uma pessoa, mas não, era o tigre). O tigre que nesse momento representa o jovem Pi, enquanto que a personagem Pi representa o próprio Jesus ou Deus. Esta conclusão irão perceber melhor no final deste texto.

    Entretanto o orangotango foi salvo e resgatado para o barco, pelo jovem Pi representado pela personagem Pi. E este pergunta ao orangotango porque olha para o mar, e ao mesmo tempo responde dizendo: pois, olhas à procura do teu filho. Antes de tudo isto acontecer não me recordo de ver os filhos do orangotango fêmea no entanto ele fala-lhe do filho dela. Quando o puzzle se montou na minha cabeça percebi que se tratava da mãe da personagem Pi a falar do irmão Ravi, que se “perdeu” no mar.

    Então temos 4 personagens no barco, o chinês, o cozinheiro, a mãe do Pi e o próprio Pi, representados por zebra, hiena, orangotango, e o tigre. A hiena (cozinheiro) mata a zebra (chinês) para comer, e mata o orangotango (mãe do Pi) porque esta se revoltou por ele matar a Zebra (chinês). E no momento de toda a viragem do filme, o ponto onde a personagem Pi se torna o Tigre (que até aquela hora não tinha aparecido, ou saído de baixo da lona do barco), foi quando vemos o Pi em cima da lona a tentar impedir que a hiena (cozinheiro) matasse o orangotango (mãe do Pi) foi quando vemos o tigre (jovem Pi) a surgir e matar a hiena (cozinheiro). E quando isso acontece, vemos que o tigre (o jovem Pi) se depara com Deus/Jesus (personagem Pi). Na minha opinião este é o momento de transição e inversão dos acontecimentos. Então o tigre (jovem Pi, que sempre acreditou em Deus e em vários deuses, que sempre quis que Deus o salvasse a si e à sua família, se deparou que todos os que lhe eram queridos, morreram.

    Então vemos o dilema da fé, presente em todos os pedaços do filme. Pois a personagem Pi (Deus/Jesus) tentou ajudar o tigre (jovem Pi) a sobreviver, e a mostrar a sua presença e compreensão, dando-lhe água e mostrando-lhe onde estava a comida. A princípio o tigre (jovem Pi) recusava e afastava a personagem Pi (Deus/Jesus) mas depois a presença de Deus (representada pela personagem Pi) continuava a ser constante, sendo que o tigre (jovem Pi) começou a acreditar e aceitar ajuda da personagem Pi (Deus/Jesus).

    No final da história, quando vemos o tigre (jovem pi) a pousar a cabeça no colo da personagem Pi (Deus/Jesus), percebemos que a aceitação e a fé o levou à salvação. No final tanto Deus/Personagem Pi como o tigre/jovem Pi estão exaustos, um porque teve de fazer o outro acreditar, e o outro porque tentou sobreviver.

    Depois deste puzzle ter sido montado, percebi que ao concluir a sua história para o jornalista, o velho Pi coloca-o diante de uma escolha: “Eu lhe contei duas histórias. Nas duas o navio afunda, minha família morre e eu sofro. Qual das duas você prefere?” E é então respondido: “A que tem um tigre”. Então ele acrescenta: “É a mesma coisa com relação a Deus”. Percebi que a história do Tigre, é a história onde Deus está presente, e que por isso é a história que Deus prefere. Deus prefere a história onde nós temos dúvidas, nós o rejeitámos, para ele se mostrar, para ele iluminar e fazer crescer a fé em nós. Mesmo quando não o vemos.

    Termino por dizer que os últimos segundos do filme são brilhante, fantásticos, legend…wait for it…daryyy. Isto porque o Tigre (jovem Pi) fica de frente para o bosque, de frente para a vida e pronto a seguir o seu caminho, e não olha para trás, não olha para a personagem Pi (Deus/Jesus), pois não precisa de ver para crer, e segue em frente sabendo que Deus estará sempre com ele.

    Um filme brilhante, uma história ainda mais fantástica, uma magia arrepiante. O retrato do livro de Pi.

    Cumprimentos

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    • 27 de janeiro de 2013 em 13:47
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      Olá, Duarte!
      Realmente são estas as duas leituras possíveis da história do naufrágio. Mas para perceber cada uma das suas analogias, com todo o seu detalhismo, acho que preciso assistir o filme novamente, em casa, com calma e dando pauses pra pensar. Isso só mostra que o filme é genial, na medida em que faz o público pensar para desvendá-lo. Obrigado pela contribuição.

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  • 1 de fevereiro de 2013 em 13:44
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    Na verdade Pi conta as 2 versões para o reporter e pergunta qual ele gosta mais e o reporter responde da primeira (versão com os animais) e Pi diz: Deus também! Eu interpretei assim: Deus nos vê como seres sem maldade que agem de forma errada ou cruel sem compreensão do que estão fazendo, desta forma Deus nos ama, assim como se agissimos um cão que entra num recinto destrói tudo e o por mais que fique irritado na hora, depois esquece porque não viu maldade na atitude do cão. Assim é Deus com nossos atos errados. Nós vemos maldade uns nos outros e dificilmente perdoamos a falha alheia. Se conseguissimos ver um outro ser humano como um ser sem maldade e falível talvez a humanidade estivesse de outra forma.

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