Uma questão de nacionalidade: Americano, norte-americano ou estadunidense?

Veja também: Diferença entre Inglaterra, Reino Unido e Grã-Bretanha

USA

Qual a maneira correta de indicar a nacionalidade de quem nasce nos Estados Unidos da América? Como devo me referir a algo que tem origem, características ou ligação com esse país? Americano, norte-americano ou estadunidense? Eu mesmo convivi com essa dúvida por um bom tempo (inclusive na hora de escrever posts para este blog) e somente agora tive a disposição de ir pesquisar, ler, comparar opiniões e finalmente me posicionar. Eis o que encontrei: Primeiramente, nota-se que as três formas são muito comuns no Brasil, muito embora no resto do mundo a primeira seja bem mais usada. Vejamos as principais críticas e objeções suscitadas por brasileiros acerca de cada um dos termos, bem como os melhores argumentos em favor de cada um deles:

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ESTADUNIDENSE

Quem defende o uso da expressão “estadunidense” está, na maioria das vezes, motivado politicamente – são geralmente influenciados pela ideologia anti-americana. Dizem eles que “americano” é quem nasce na América (como brasileiros, argentinos, mexicanos e estadunidenses); e “norte-americano” é quem nasce na América do Norte (como canadenses e estadunidenses). De acordo com esse ponto de vista, qualquer imposição cultural que use outro termo mais abrangente, que não seja “estadunidense”, para referir-se àquele país é de caráter imperialista e deriva do egocentrismo característico desse povo. Segundo essa posição, os próprios “estadunidenses” usurparam o termo e se autodenominaram “americanos” por se considerarem a parte mais importante da América. Por que logo eles, os “estadunidenses”, teriam o direito de usar como emblema a sonoridade de América, se nós também somos América?

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NORTE-AMERICANO

Numa tentativa de estreitar o uso do termo “americano”, muito por conta das críticas citadas acima, surgiu a expressão “norte-americano”. Obviamente ela não resolve muita coisa, já que norte-americano claramente se refere à América do Norte em geral, incluindo os canadenses. Não há um argumento forte que sustente tal uso: ele cristalizou-se no Brasil aparentemente apenas por conta do uso frequente. Esta é, portanto, uma maneira pouco precisa de se referir a esse povo. Algo como chamar brasileiros de sul-americanos ou latino-americanos num sentido exclusivo.

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AMERICANO

O termo mais comum (e mais usado em documentos oficiais) em todo o mundo é “americano”, de modo que esta discussão sobre qual dos três termos usar é uma peculiaridade brasileira – que, certamente, surgiu após as objeções anti-imperialistas explicadas acima. Essa discussão é também muito recente, haja vista que “americano” é a forma mais enraizada na história de nossa língua. De Machado de Assis a Caetano Veloso, existe uma tradição cultural séria a legitimar “americano” como termo preferencial para designar o que se refere aos EUA no português brasileiro. Isso sem falar que, na nacionalidade, no passaporte ou no documento de identidade de uma pessoa que pertence aos EUA, está sempre escrito “american”; ou, se for um documento brasileiro, está escrito “americana (nacionalidade)” e não “estadunidense”.

No entanto, sempre houve quem se incomodasse com isso, por acreditar que essa escolha aparentemente inocente traz embutida uma concordância com o sequestro que os ianques fizeram do termo que deveria ser propriedade de todo o Novo Mundo. O problema é que o principal argumento contra o uso de “americano” – o de que o termo está errado porque quer dizer tudo o que se refere às três Américas – é ingênuo. De acordo com a grande maioria dos dicionários de língua portuguesa, a palavra “americano” é usada para se referir à pessoas do continente americano e/ou pessoas que são dos EUA. Ou seja, tem os dois usos – assim como “mineiro” pode designar tanto um trabalhador de minas, seja ele búlgaro ou cearense, quanto uma pessoa natural do Estado de Minas Gerais, e o contexto resolve qualquer possível ambiguidade.

Existem críticas muito consistentes aos termos alternativos. A expressão “norte-americano”, como já vimos, faz referência à América do Norte e inclui os canadenses. A expressão “estadunidense”, por outro lado, é a que menos faz sentido. Quem está um pouco familiarizado com a História do Brasil deve se lembrar que nosso país, antes de se chamar oficialmente “República Federativa do Brasil”, chamava-se “Estados Unidos do Brasil”. Mas nem por isso nosso povo foi, naquela época, chamado de “estadunidense”: éramos, ainda assim, “brasileiros”. Isso porque o termo “Estados Unidos” diz respeito à forma de organização do país e não ao nome do país propriamente dito. “Estados Unidos”, nesse caso, é o equivalente de “República Federativa”. Chamar um americano de “estadunidense” seria o equivalente a chamar um brasileiro de “republicano-federativo”. O mesmo vale para as pessoas que nascem no Reino Unido da Grã-Bretanha. Seguindo a mesma lógica que querem os defensores do termo “estadunidense”, os súditos da rainha deveriam ser chamados de “reinunidenses” em vez de “britânicos”. Ora, se o povo dos Estados Unidos do Brasil sempre foi chamado de “brasileiro”, o povo da República Federativa do Brasil continua sendo chamado de “brasileiro” e o povo do Reino Unido da Grã-Bretanha é chamado de “britânico”, devemos, por uma questão de coerência, chamar o povo dos Estados Unidos da América de “americano”.

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17 opiniões sobre “Uma questão de nacionalidade: Americano, norte-americano ou estadunidense?

  • 14 de abril de 2014 em 12:50
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    Caro Charles Andrade Santana, boa-tarde! Meus comentários não são acerca dessa dúvida cruel. Eu, pessoalmente prefiro chamá-los estadunidenses. Meu problema é com relação à língua portuguesa que foi, por você, seguidamente, usada erroneamente. Povo é coletivo, logo o verbo e o substantivo devem estar no singular. O povo brasileiro foi sempre chamado de brasileiro. O povo da Grã-Bretanha foi sempre chamado de britânico E não como você escreveu. Saudações cósmicas: Martins.

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  • 9 de dezembro de 2014 em 18:59
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    O que ocorreu foi uma usurpação do nome do continente. O mesmo ocorreria se um país fosse chamado de Europa ou Asia. Por isso o termo estadunidense é mais adequado, pois diferencia do gentílico maior que é o do povo do continente americano.

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  • 12 de janeiro de 2015 em 15:26
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    Brasileiros está em concordância com éramos, e, não com a palavra povo, portanto, está correto.

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  • 19 de janeiro de 2015 em 10:22
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    Se olharmos pela sua lógica, os 3 termos estão errados! Pior ainda é chamá-los de norte-americanos como gentílico de quem nasceu naquelas terras dos Apaches, afinal, o Canadá e o México que você esqueceu, fazem parte da América do Norte. Seria injusto com os canadenses e cucarachas! Vale lembrar, que em quase toda a América hispânica, o termo estadunidense é bem difundido. Outra coisa é a sua comparação com o Brasil. Éramos no passado Estados Unidos do Brasil e não éramos chamados de estadunidenses, logicamente, pois Brasil é uma parte do continente americano e não o continente como um todo, ao contrário dos Estados Unidos da América que leva o nome do continente. Então, soa equivalente à comparação com o Brasil e portanto, mesmo eu não aceitando, é melhor e mais correto. O que realmente importa, é que eles lá nos EUA não referiam à América como unicamente suas terras e portanto, não falem em nome dos povos americanos, pois isso soa como se estivessem falando por todo o continente.
    Pra terminar: quando viajar pra Europa ou Ásia e na volta disser que vai voltar pra América, não fique acanhado, pois vocês estará completamente correto. Somos todos americanos, assim como um italiano, francês ou inglês é europeu!

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  • 29 de janeiro de 2015 em 11:24
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    Errado,, Como os Estados Unidos não tem nome próprio, e fica situado no continente Americano o mais correto seria o cidadão nascido nesse País de estadunidense ate um dia existir um nome próprio como referencia, dizer que estadunidense é americano é o mesmo que dizer que chileno é americano brasileiro é americano sem referencia de estado, Americano em geral é notificação dada a um continente e não a um País, sendo assim é o mesmo que chamar o Japão de Asia sendo que a China as Coreias Taiwan etc. também fazem parte deste continente, Conclusão isso é um desrespeito para com os demais Países de um continente ter um único País usando o nome de todos os outros.

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  • 14 de fevereiro de 2015 em 2:47
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    Paradoxalmente os comentários são mais profundos e até mais corentes que o artigo! Os cidadãos nascidos nos estados unidos da américa, proposital a letra minúscula, tão superiores que se julgam deveriam criar um nome específico para seu gentílico.

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  • 1 de março de 2015 em 14:40
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    América é o nome do continente, Estados Unidos é o nome de um país do continente, portanto o cidadão que nasce nos Estados Unidos, é um estadunidense.

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    • 17 de maio de 2015 em 22:19
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      Na verdade o nome do Pais e America, segue o ponto de vista… Estados Unidos do Brasil, o nome e Brasil e o restante referencia aos estado em Uniao, continuando o ponto de vista…. Estados Unidos da America, sendo assim o nome e so America, como o Brasil e so Brasil. O que leva nao entendo o que levou eles a tal grau, porem nao esta errado… E nos brasileiros nao deixamos de ser Americanos tambem…

      P.S. Vale ressaltar que quem escreveu escreceu de colocar o Mexico no seu devido lugar de NORTE-AMERICANO tambem.

      Vlw

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  • 1 de março de 2015 em 15:37
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    Estados Unidos é o nome de um país da América, América é um continente, portanto , cidadão que nasce nos Estados Unidos é um estadunidense.

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  • 14 de março de 2015 em 12:52
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    Eu acho uma completa idiotice chamar o povo dos EUA de “americano”, pois todos que são do continente da América são americanos. Os EUA não tem um nome próprio, por isso usurparam o nome do continente. É o mesmo que chamar a Alemanha de “Europa” ou o Japão de “Ásia” e até mesmo os brasileiros de “latino-americanos”.

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  • 18 de março de 2015 em 15:13
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    Esta história de deque os Estados Unidos é a América, vem do início do século xlx com a doutrina monroe, dai os estadunidenses se acharem os legítimos americanos do nosso continente.

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    • 26 de abril de 2015 em 0:58
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      Osvaldo e outros que comentaram: sempre foi e é uma questão para mim, o gentílico, que, no latim, se refere a gente, povo, cidadão. Daí que eu gostaria de saber se o termo hodierno cidadão não deveria ser incorporado ao nosso linguajar. Diferenciar continente de conteúdo. Fiz uma pesquisa, nada científica, sobre como cidadãos/âes se julgam sobre sua cidadania e não teve erro: alemães, japoneses, russos, coreanos, moçambiquanos, libaneses, sírios, sem contar os chilenos, argentinos, equatorianos etc, dizem que são o que afirmei acima e que é uma injúria confundir continente com conteúdo. Morei um tempo na Espanha e, para o povo de lá, é estadunidense e acabou. Nem ficam nas madrugadas esquentando com isso. Mas eu sou brasileira e gostaria que meu gentílico fosse respeitado, na concepção de cidadão que, acho, os EUA não querem rever.

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  • 13 de outubro de 2015 em 14:22
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    Priscila aqui quem escreve é o Osvaldo, para tirar a sua dúvida, você é dignamente uma americana de nacionalidade brasileira

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  • 26 de dezembro de 2015 em 2:36
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    O MÉXICO também pertence à América do Norte. Então os mexicanos podem querer ser chamados de “norte-americanos”. Qualquer referência aos “norte-americanos” inclui também o MÉXICO.

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  • 9 de janeiro de 2016 em 19:27
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    Prefiro usar sempre estadunidense, é este termo feio que aquele povo metido merece.

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  • 23 de janeiro de 2016 em 16:25
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    O gentílico correspondente aos estados unidos da américa é estadunindense, e ponto.

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