Alberto Manguel sobre livros e literatura

Trechos da entrevista de Alberto Manguel para a revista Veja, publicada em 1999. Alberto Manguel nasceu em 1948, em Buenos Aires, na Argentina, e hoje é cidadão canadense. Passou a infância em Israel, estudou na Argentina e vive atualmente no interior da França. É ensaísta, organizador de antologias, tradutor, editor e romancista.


Alberto ManguelA atual cultura de imagens é superficialíssima, ao contrário do que acontecia na Idade Média e na Renascença, épocas também marcadas por uma forte imagética. Pense, por exemplo, nas imagens veiculadas pela publicidade. Elas captam a nossa atenção por apenas poucos segundos, sem nos dar chance para pensar. Essa é a tendência geral em todos os meios visivos. Assim, a palavra escrita é, mais do que nunca, a nossa principal ferramenta para compreender o mundo. A grandeza do texto consiste em nos dar a possibilidade de refletir e interpretar. Prova disso é que as pessoas estão lendo cada vez mais, assim como mais livros estão sendo publicados a cada ano. Bill Gates, presidente da Microsoft, propõe uma sociedade sem papel. Mas, para desenvolver essa ideia, ele publicou um livro. Isso diz alguma coisa.

Os livros de hoje derivam dos pergaminhos e estes, das tábuas. Ou seja, são resultado de um processo que visou facilitar a vida do leitor. O formato atual do livro permite carregá-lo para qualquer lugar, folheá-lo sem esforço e anotar em suas margens. Também possibilita que saibamos exatamente seu tamanho, o que era difícil no caso do pergaminho. As palavras impressas no papel são tangíveis, você quase pode tocar a tinta, e têm uma durabilidade incrível. No museu de arqueologia de Nápoles, vi papiros queimados na erupção do Vesúvio que destruiu Pompeia, e ainda é possível ler o que está escrito nesses fragmentos! Já se um HD cair na água o texto nele contido desaparecerá para sempre. No computador, o texto não tem uma realidade sólida, além de ser extremamente frágil – se você apertar um comando errado, adeus texto.

Quando falamos em ler um livro, nosso vocabulário é gastronômico: “devoramos um livro” ou “saboreamos um texto”. Já em relação ao computador usamos palavras que têm a ver com superfície, como “navegar” ou “surfar” na internet. É impossível interiorizar o texto que aparece na tela luminosa. Isso me faz pensar que não lidamos com a informática da maneira correta. A história mostra que esse tipo de problema ocorre sempre que adotamos uma nova tecnologia. No final do século passado, dizia-se que, com o nascimento da fotografia, a pintura morreria. Da mesma forma, acredita-se hoje que a mídia eletrônica substituirá a imprensa. Bobagem. Assim como a fotografia encontrou uma linguagem própria, a informática também achará a sua.

Shakespeare escreve numa linguagem antiga. Uma criança pode entender algo desde que seus textos sejam vertidos para uma linguagem mais simples. Ainda assim, as crianças só compreenderão Shakespeare até certo ponto, dada sua parca experiência de vida e limitada formação intelectual. (…) Por que uma criança deve ser obrigada a ler obras clássicas? Ela pode começar lendo livros próprios para sua idade e, depois de crescida, chegar a Shakespeare. (…) Mais do que uma simplificação, a adaptação de uma obra implica uma intervenção inadmissível em seu conteúdo. No limite, ela pode tirar o desejo de ler um clássico na versão integral. Não há por que tratar a leitura de grandes livros como obrigação. Não há prazer na obrigação e devemos ler apenas por prazer.

Da mesma maneira que não podemos fazer com que uma criança goste de alguém, não temos a capacidade de transformá-la num leitor. O que devemos fazer, como adultos responsáveis, é colocar a literatura à disposição da garotada. Uma das razões pelas quais às vezes não apreciamos um determinado livro é por termos sido forçados a lê-lo na escola ou por nossos pais terem lido e nos obrigado a fazer o mesmo. Parte da maravilha e da riqueza da leitura vem da liberdade que ela sugere e da possibilidade de vagar por florestas de prateleiras, escolhendo o livro certo para aquele momento, como se nós fôssemos seu primeiro leitor ou estivéssemos chegando a um país desconhecido. Essa é uma experiência que não devemos tirar de nossas crianças. Devemos deixá-las escolher.

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