A história real do ano novo

A geometria da vida é implacavelmente reta: você só vai ficando mais velho e pronto. Não acontece nada de sobrenatural na meia-noite do dia 1º de janeiro. No entanto, a ilusão de que as viradas de ano significam alguma coisa grande e boa é universal. E é graças a elas que você está aqui, vivo. É que você descende de alguém importante: algum sujeito pré-histórico que sobreviveu à maior crise econômica de todos os tempos. Ela aconteceu quando a única coisa que nós conhecíamos como trabalho era caçar. Às vésperas de 11.000 a.C., o modo de vida dos nossos avós caçadores estava no auge. E eles tinham uma arma inédita: a religião. Não exatamente aquilo que nós entendemos por religião hoje, mas algo completamente abstrato: a ideia de que existe algo além desta vida.

Este é um instinto básico dos humanos. E por ser algo comum a todos os humanos, tornava as tribos mais coesas em torno dos ritos espirituais e das divindades que cada uma criava. Agora, unidos, cada vez mais numerosos e habilidosos, os Homo sapiens tinham virado os maiores predadores da Terra. Era um momento de euforia. Só que, como toda euforia, essa também era irracional. A caça indiscriminada tinha diminuído a quantidade de animais selvagens disponíveis por aí. Para piorar, um aquecimento global (que daquela vez não foi culpa nossa, era só o fim de mais uma Era Glacial) fez rarear presas como bisões e mamutes. A escassez de proteína animal colocou em xeque o modo de vida dos nossos antepassados.

Isso não aconteceu de uma tacada só no planeta todo, note bem. Naqueles dias, a vida era organizada em tribos de 100, 150 pessoas que, quando entravam em contato umas com as outras, era para guerrear. Cada uma viveu uma escassez a seu tempo. E foi mais de uma. Só que, olhando daqui de longe, a junção desses problemas esparsos pode ser vista como uma grande crise global. Mas e para sair dessa crise? Bom, a solução foi parecida com a de hoje. O que os Bancos Centrais da maior parte do mundo têm feito para mitigar a crise de agora é imprimir dinheiro. Em 11.000 a.C. decidiram imprimir outra coisa: comida. Na terra. Cultivar sementes e esperá-las crescer era o jeito de conseguir as calorias que a caça não dava mais. Só que aí veio uma surpresa: essa técnica, a agricultura, permitia sustentar de 10 a 100 vezes mais pessoas no mesmo espaço físico. Os que optaram por esse caminho cresceram e se multiplicaram.

Mas só conseguiram isso porque criaram um novo deus: o calendário. No culto da passagem dos dias, a humanidade descobriu um ótimo método para saber as épocas certas de plantar: observar a posição das estrelas e a trajetória do Sol ao longo do ano. Fazer a leitura do céu era tão essencial para a agricultura que povos de todos os cantos do mundo acabaram aprendendo isso. E acabaram dominando algo que parecia sobrenatural: os ciclos do tempo. Mas pragmatismo científico nunca foi o forte da nossa espécie (talvez seja entre as formigas, vai saber). E é justamente por isso que o céu passou a ser tratado como divindade. Só o fato de você saber seu signo já se trata de uma herança dessa época – as 12 constelações do zodíaco eram os conjuntos de estrelas que as populações da Mesopotâmia usavam para marcar as estações do ano.

É esse mesmo impulso de divinizar as coisas que levou à felicidade instintiva de se entregar a rituais como pular sete ondas. É esse impulso que faz a vida parecer feita de ciclos. As colheitas é que são de fato cíclicas. Ao divinizá-las, nossos ancestrais imprimiram na cultura humana a ideia de que a própria vida se renova a cada ano. E festejar essas renovações era fundamental para que continuássemos vivos. Olha só: o Ano Novo é uma das duas festas para marcar o auge do frio no hemisfério norte – a outra é o Natal. Na ausência de um instinto biológico tão forte quanto o das formigas para acumular comida para o inverno, a sensação de que um evento superimportante estava para acontecer bem no meio da estação fria fazia nossos ancestrais agirem exatamente como elas, economizando para ter banquetes na época de fome. Cada geração transmitiu para suas crianças que aquele era o momento mais especial do ano. Era mesmo. Ainda é.

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