A ciência não é democrática

Artigo de opinião de Gerardo Furtado, biólogo brasileiro que atualmente vive na Austrália, publicado originalmente no blog Biologia Evolutiva.


Dizem por aí que “para toda regra há uma exceção”. Sendo esse o caso, há regras sem exceção. A explicação é bem simples: o enunciado “para toda regra há uma exceção” é ele mesmo uma regra, e ele estipula que para toda regra – no caso ele próprio – há uma exceção. A conclusão é que há regras sem exceção. Do mesmo modo, eu costumava ouvir muito, nos meus tempos de professor, “sempre que um enunciado possuir a palavra sempre, ele está errado”. Ora, a conclusão disso é que há enunciados que possuem a palavra “sempre” e que estão corretos. Como distinguir o correto do errado? Não há uma fórmula, temos que analisar cada enunciado individualmente.

Vejamos: “O ferro 2 (ou ferroso) tem sempre um nox menor que o ferro 3 (ou férrico)”. Esse é um enunciado perfeitamente correto e válido, para o qual não há exceção. Do mesmo modo, “a aceleração que uma força impõe a um corpo macroscópico sólido é sempre dependente da massa desse corpo” também é válida e verdadeira. Porém, há uma série de afirmações contendo a palavra sempre que são quase unanimemente consideradas como verdades absolutas, mas cuja análise mais detalhada nos mostra vez por outra não ser o caso. Tomemos uma delas, “a vida humana é sempre mais valiosa que qualquer outra coisa”. Será? Vamos supor o seguinte diálogo, entre Alice e Beto:

Beto: A vida humana é sempre mais valiosa que qualquer outra coisa.
Alice: Qualquer outra coisa?
Beto: Sim, qualquer outra coisa.
Alice: Ok, imagine que uma pessoa está doente, e que para salvá-la a gente tem que gastar 10 mil dólares. Ele vale esse gasto?
Beto: É claro que vale!
Alice: E um bilhão de dólares?
Beto: Vale!
Alice: E se, para salvá-lo, tivermos que sacrificar 50 mil ratos de laboratório?
Beto: Vale!
Alice: E uma baleia azul?
Beto: Vale!
Alice: E 100 baleias azuis?
Beto: Mmmm… Ainda assim, vale.
Alice: E todas as espécies de baleia da terra?
Beto: Opa, espera aí…
Alice: E se para salvá-lo tivermos que destruir a Amazônia inteira?
Beto: Ei, eu disse espera aí…
Alice: Ou 10 sistemas planetários inteiros?
Beto: Espera! Você está sendo radical!

Mas Alice não está sendo radical. Dizer que a vida humana sempre vale mais que qualquer outra coisa é que é um enunciado radical, porque qualquer coisa é qualquer coisa! Pode ser inclusive o universo inteiro, no qual o enfermo está inserido. Portanto, a vida humana não é sempre mais valiosa que qualquer coisa: cada situação deve ser analisada individualmente. E assim chegamos a outra afirmação comum, razão de eu ter escrito este post: “A democracia é sempre a melhor forma de tomada de decisões numa comunidade”. Eu não irei aqui tecer um ataque à democracia, nem afirmar que a tirania, a anarquia ou qualquer outra “ia” é melhor que a democracia, não é isso. Trata-se apenas de questionar aquele sempre no enunciado. Há situações em que a vontade da maioria não pode ser aceita, e outras em que a vontade da maioria não deve sequer ser indagada.

A ciência nos permite desvendar os mistérios do mundo e compreender a maravilhosa e complexa natureza que nos cerca e que nos compõe. Porém, para de fato entender o universo e compreender os fenômenos que nele se desenrolam, a ciência não deve (e nem pode) jamais ouvir a vontade da maioria. A ciência não é democrática, nem depende de opiniões. A gravidade ocorre independente de nove, dezenove ou noventa e nove porcento das pessoas acreditarem nela. Imagine numa sala de aula o professor de física perguntando: “Vamos lá, quem acha que a gravidade deve ser 5 m/s2 levanta a mão… 6 votos. Quem acha que deve ser 10? 3 votos. E 15 m/s2? 31 votos! Pronto, turma, nosso g será 15 m/s2 então”. Acontece que a aceleração da gravidade no nível do mar é de 9,831 m/s2 (obrigado, WolframAlpha), independente da vontade da maioria.

Dá-me vontade de rir (na verdade, de chorar) quando eu leio sobre o imbróglio dos criacionistas, principalmente nos EUA. Coisas como isto: “Os pais sabem o que é o melhor para os seus filhos. Não cabe à escola empurrar o evolucionismo goela abaixo nos nossos filhos. A escola deve ensinar o evolucionismo e o criacionismo, e nós, os pais, devemos decidir qual o melhor”. Ora, os pais geralmente amam os filhos, quanto a isso não há dúvidas; e normalmente, com alguns tropeços, escolhem o que julgam ser melhor para eles. Mas os pais não são especialistas! Eles não conhecem o assunto, e não cabe a eles decidir o currículo escolar dos filhos. Se você não concorda com o que eu acabei de enunciar, imagine a mesma situação: Numa aula do curso de engenharia civil, o professor diz: “Alunos, eu vou ensinar quatro técnicas de construção de vigas. Só uma delas funciona, as outras três não funcionam e o prédio vai desabar. Mas como somos uma universidade democrática, eu vou ensinar as quatro, e cabe a vocês escolher a de que mais gostam”. Isso é inaceitável. Nenhum conselho ou entidade de engenheiros aceitaria isso, e esse curso seria fechado.

Recentemente, li quase que exatamente a mesma argumentação em relação ao movimento antivacinação. Não sei como está a situação atual no Brasil, mas ao redor do mundo o movimento antivacinação é a mais nova estupidez capaz de causar um dano gigantesco. O que li nos comentários de um jornal online foi algo assim: “O governo não pode determinar o que eu tenho ou não que fazer com meu filho. O governo deve apenas oferecer a vacina. Cabe a nós, os pais, que sabemos o que é o melhor para nossos filhos, decidir se os vacinamos ou não”. Acontece, repito, que os pais não são especialistas. Se fossem, saberiam que não há nenhuma dúvida na comunidade científica em relação ao funcionamento das vacinas, ou quanto à relação, inexistente, entre vacinas e distúrbios mentais. E pensar que tudo isso, todo esse movimento se deve a um artigo fraudulento; apenas um artigo, já há muito eliminado do jornal que o publicou!

Convém lembrar o óbvio: o fato dos pais terem gerado seus filhos e serem responsáveis por eles não torna esses filhos suas propriedades, nem permite que os pais façam o que quiserem com eles. Pelo contrário: sendo os responsáveis, é dever dos pais zelar pelos filhos da melhor maneira possível, e isso inclui ouvir os especialistas. Os especialistas podem estar errados, mas hoje em dia, ao contrário da idade média, em que os próprios especialistas eram a fonte da legitimidade daquilo que diziam, uma teoria científica deve ser substituída por outra teoria igualmente científica. A ciência não está sempre certa, ela erra às vezes. Mas o fantástico é que a ciência possui, dentro de si (e essa é uma das suas principais características) um sistema de detecção de erros, um sistema de teste e eliminação de hipóteses falsas. No entanto, a democracia não faz parte desse sistema.

“Então a ciência não é democrática”, você deve estar se perguntando. Bem, nesse sentido, não. Mas, ao mesmo tempo, a ciência é uma das coisas mais democráticas que existem atualmente. Qualquer um pode fazer ciência, você mesmo pode fazer ciência, agora mesmo, sem sequer uma graduação! Pouca gente percebe que não há uma profissão chamada “cientista”. Se você coletar dados corretamente, analisá-los estatisticamente e testar as suas hipóteses adequadamente, você pode publicar um artigo científico! Não precisa ser doutor, mestre ou seja o que for. A ciência está aí, aberta, disponível para quem quer que queira estudá-la, compreendê-la e praticá-la. Não é um clube fechado, você não paga nada, e está acessível a qualquer pessoa, independentemente de suas crenças, gênero, idade, cor da pele ou lugar de nascimento. Há poucas coisas mais democráticas que isso.

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