A arte de não se odiar

Crônica de Pablo Capistrano, professor de filosofia de Natal-RN, extraída do livro Simples Filosofia – A história da filosofia em 47 crônicas de jornal (Rocco, 2009, p. 109-112).


No dia 1º de março de 1580, o Barão Michel de Montaigne, senhor da terra de Bordeaux, no sul da França, escreveu a advertência que fica na introdução de seu livro Ensaios. Como eu já tenho um pouquinho de tempo nessa labuta de escrever, mais ou menos uns dezoito anos de teclado (isso levando em conta a máquina de escrever Remington que me introduziu no mundo da prosa), posso afirmar, sem muita dúvida, que esse dia foi o dia em que Montaigne terminou seu livro.

Ninguém começa um livro pela apresentação. Essa é a última coisa que a gente escreve. É como registrar um filho. Não dá para fazer isso antes de a criatura nascer e a gente olhar bem para cara dela para confirmar o nome que tinha imaginado. Na verdade, Montaigne viveu até os 38 anos como um nobre francês do século 16 ou uma socialite brasileira viveria: cercado de frivolidades. Mas, após a morte de um amigo, Montaigne mergulhou em profunda melancolia e, nessa tristeza, encontrou o caminho para escrever sua obra. Isolado em uma torre, cercado de livros e de citações em grego e latim gravadas nas ripas de madeira do teto, o senhor de Bordeaux, barão de Montaigne, tocou em um dos centros nervosos da modernidade: o “Eu”.

Na apresentação de seu livro, o barão escreveu: “Eis aqui, leitor, um livro de boa-fé. (…) Voltei-o em particular a meus parentes e amigos, e isso a fim de que, quando eu não for mais deste mundo (o que em breve acontecerá), possam nele encontrar alguns traços de meu caráter e de minhas ideias e, assim, conservem mais inteiro e vivo o conhecimento que de mim tiveram. Se houvesse almejado os favores do mundo, ter-me-ia enfeitado e me apresentaria sob uma forma mais cuidada, de modo a produzir melhor efeito. Prefiro, porém, que me vejam na minha simplicidade natural, sem artifício de nenhuma espécie, porquanto é a mim mesmo que pinto”.

Era o próprio Michel de Montaigne o objeto de seu livro. Ele mesmo, com todos os seus defeitos, com suas peculiaridades, com sua biologia, sua calvície, sua barriga flácida, seus odores, seus hábitos alimentares e seus procedimentos intestinais. Montaigne usou a si mesmo como campo de batalha intelectual para diagnosticar um dos mais inquietantes sentimentos humanos: a inadequação. Vou confessar: durante algum tempo, antes de começar a praticar ioga, eu frequentei uma academia. Sim, eu sei, foram anos estranhos para mim, mas eu tinha minhas razões para participar desse mundo, algo que talvez, como Montaigne, eu possa vir a confessar com mais detalhes após os 38, quando o tempo começar a retirar de mim os sinais de minhas vaidades ridículas. O fato é que eu percebi que uma academia de ginástica é um ambiente perfeito para a inadequação.

Muitas pessoas sentem-se desconfortáveis com os próprios corpos. Existe uma sensação fundamental de vergonha com a matéria biológica que nos compõe. Hoje, se veem filas de mulheres se mutilando em salas de cirurgia plástica para esticar, cortar, desdobrar ou paralisar partes do corpo que são inadequadas para o modelo social de beleza. Observamos pela TV meninas definharem e morrerem de fome para enquadrar o corpo em uma medida de magreza construída socialmente por algum funcionário da moda que odeia o corpo feminino. Garotos atrofiados tomando medicamentos veterinários para inchar os músculos. Pessoas se medindo, pessoas se pesando ao lado de toneladas de lixo publicitário que vendem as mais miraculosas e ridículas formas de alguém ficar “em forma” (ou melhor, “em fôrma”).

Nossa neurose é a mesma do século 16. Precisamos nos sentir adequados, enquadrados, encaixados, embalados para presente. Nosso corpo tem que entrar no manequim, nosso quadril encaixar na calça. Nossas nádegas precisam estar rígidas e empinadas, nosso abdômen duro, nossas coxas torneadas, nossa silhueta esguia, ou então estaremos condenados à mais miserável infelicidade. Sabe o que é engraçado? Na época de Montaigne, também era assim. Só que os motivos pelo quais as pessoas torturavam o próprio corpo eram outros. Ao invés de mostrá-los, as pessoas os cobriam, escondiam seus defeitos, guardavam suas imperfeições. Naquela época de vestidos compostos e de golas fechadas, o francês médio sofria tanto pelo seu corpo como o “carioca saradão” da academia. Mas naquele tempo a inadequação vinha de dentro. Flatular, arrotar, excretar, menstruar e ejacular eram coisas consideradas hediondas e vergonhosas. Atos da mais miserável ignomínia.

Montaigne percebeu que essas ideias vinham da noção de que o corpo humano era a ligação com a faceta animal que nos compõe e, por isso, o corpo e seus processos biológicos precisavam ser negados, escondidos, ocultados. O corpo era mau. Os processos animalescos foram moralizados e transformados em expressões desse mal inerente à natureza que liga o homem à sua banda primitiva. Montaigne mostrou que a única coisa que conseguiríamos negando o dado fundamental de que todos nós temos um intestino grosso é nos sentirmos inadequados e padecermos de cólicas ou de uma desconfortável prisão de ventre. Acabamos então por cultivar um miserável sentimento de ódio contra nós, um pânico, uma obsessão contra uma imagem que temos de nós mesmos e que precisa ser negada. Hoje, os motivos de nossa tortura corporal são outros. Como o corpo ficou nu, ele precisa ser moldado para atingir a perfeição visual.

Ficamos nus para sermos vistos. Malhamos o tríceps para impor à irregularidade natural de nosso corpo um padrão geométrico de beleza que deve ter sido extraído de algum jarro grego do século 6 a.C. Comemos e depois corremos para o banheiro para vomitar, para deixar nosso corpo magro e fino, para que o nosso espelho não nos destrua. Aprendemos a nos odiar e, nessa luta constante contra o objeto de nosso ódio, nos mutilamos, nos cortamos, nos injetamos. Estamos ainda como o homem do século 16, negando a irregularidade natural e biológica de nossa própria herança para conseguir mais aceitação social, mais fama e mais sexo. É bom nunca esquecer quem somos, e é isso que Montaigne nos lembra quando diz: “Mesmo no mais elevado trono do mundo, continuamos sentados sobre nossos cus”.

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