50 tons de sexo

Antes era fácil. Só havia homens e mulheres. Agora, quem preenche um perfil no Facebook tem de escolher entre 52 – isso mesmo: cinquenta e duas – opções. É o que mostra a matéria a seguir, publicada na Época.


sexo-facebookPara quem escreveu o Gênesis era fácil. Deus fez Adão e Eva – e pronto. A humanidade toda se restringia a dois sexos – ou dois “gêneros”, como preferem os puristas. Pois o mundo mudou, mudou, mudou, veio a libertação sexual, o feminismo, o casamento gay – até que apareceu o Facebook. E nem as mentes mais liberais e abertas para a diversidade da sexualidade humana estavam preparadas para isso. Ao criar uma conta na rede social, o usuário informa dados como data de nascimento, idioma, cidade natal e um que para muitos passa despercebido: “gênero”.  Responder a isso era tão simples quanto para os escribas bíblicos: “feminino” ou “masculino”. Era. No começo de 2014, o Facebook anunciou para seu site em inglês mais 50 novas opções de gêneros, além das duas. Somando tudo, o usuário agora tem de escolher quem ele é entre 52 tons de sexo.

“Estamos orgulhosos de oferecer uma nova opção de customização de gênero para ajudar você a expressar melhor sua própria identidade”, escreveram os representantes do Facebook no comunicado oficial. Na longa lista de 50 novas opções de gênero, há algumas conhecidas, como “transgênero” (alguém que não se identifica com seu gênero biológico) e termos totalmente misteriosos, como “dois espíritos” (definição usada por tribos indígenas da América Norte para quem se sente, ao mesmo tempo, homem e mulher). A seleção dos termos durou um ano e foi feita em parceria com líderes de organizações LGBT dos Estados Unidos. O Facebook Brasil diz que não há previsão para que as 50 novas opções de gênero estejam disponíveis na versão em português do site – assumindo que, no Brasil, também seríamos igualmente criativos nessa área.

Os psicólogos e psiquiatras ouvidos por ÉPOCA dizem que é importante que as pessoas possam se definir sexual­mente de acordo com sua própria percepção. O psicólogo mineiro Klecius Borges diz que os termos são “diferentes tentativas” de definição da própria identidade. “A escolha de um desses termos ajuda a quebrar a forma binária como nossa cultura e sociedade tratam a questão do sexo”, afirma. Mesmo ele, porém, acha 52 opções um pouco demais. “Quando se especifica demais, perde-se o foco e passa-se a concentrar em detalhes que não importam”, diz Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório de Transtornos de Identidade de Gênero do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Ao mesmo tempo, Saadeh afirma que a decisão do Facebook gera discussão e pode servir para expor os preconceitos. Mas será que alguém se tornará mais tolerante ao ser informado das 50 novas opções de sexo do Facebook?

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