Profecias do fim do mundo que falharam

Profecia do fim do mundo com data marcada é um fenômeno assim meio sazonal. Mal uma é desmascarada como falsa, e já surge outra no seu lugar.  É um caso cíclico de lendas e mitos divulgados por pessoas que se acham iluminadas, mas não aprendem com os erros dos “profetas” que lhes antecederam. Na edição de 20 de maio de 2011, ainda sob o impacto do “fim do mundo” que Harold Camping havia previsto exatamente para aquele dia, a revista Time publicou a sua lista das 10 mais famosas profecias apocalípticas que falharam. Curiosamente, todas as profecias têm em comum o sentido de urgência. Aguarda-se o apocalipse para muito breve, e todos devem proceder com a rapidez desejada para tanto, e, cá entre nós, faz tempo que a sabedoria popular diz que a pressa é inimiga da perfeição. Agora, diante da perspectiva de mais um dia do fim do mundo fracassado, no caso ontem (21/12/2012), nada melhor do que relembrar aquela matéria da Time.

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Os anabatistas de Münster, 1530

Nos conturbados anos que se seguiram à Reforma Protestante, surgiram não só as igrejas reformadas tradicionais que conhecemos hoje em dia, mas várias seitas apocalípticas que incomodaram profundamente os próprios reformadores. Entre os anabatistas não estavam somente “pessoas que batizam de novo”, como a raiz grega do nome evoca, mas anarquistas e revolucionários de todo tipo que pregavam um mundo sem ordem e hierarquias enquanto aguardavam – para muito breve – o retorno de Cristo.

Na década de 1530, milhares de camponeses alemães tomaram a cidade de Münster, e ali ficaram entrincheirados numa espécie de sociedade comunista medieval, dizendo que Münster era a Nova Jerusalém, na qual esperavam a segunda vinda de Jesus. Entre eles estava Jan Bockelson, um alfaiate de origem holandesa, que se declarou o “messias dos últimos dias”, virou polígamo, emitiu moedas que profetizavam o apocalipse urgentemente vindouro e dominou cruelmente toda a população de Münster. O fim veio para Bockelson em 1535, quando a cidade foi tomada e a população dizimada pelas forças dos príncipes alemães. Detalhe: há quem diga que os testículos de Bockelson foram pregados no portão de entrada de Münster.

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Londres e o incêndio de 1666

O número 666 tem um significado místico-cabalístico que transcende aquele registrado como “a marca da besta” no livro de Apocalipse (13:18). As pessoas até suspeitam que o número 666 tem alguma, digamos, “maldição embutida”, embora nem sempre saibam exatamente a sua origem. Imagine agora como se sentiam os europeus às vésperas do ano 1666, sobretudo no ano 1665, quando uma praga matou 100 mil pessoas em Londres, o que equivalia a 20% da população local à época. Se já havia rumores de que o fim do mundo se aproximava, a praga só os reforçou, até que no dia 2 de setembro de 1666 um incêndio aparentemente inofensivo começou numa padaria da Pudding Lane e rapidamente se alastrou pela cidade, cerca de 13 mil edifícios e dezenas de milhares de casas durante 3 dias do mais absoluto terror. Apesar do pânico gerado, quando o fogo baixou e as cinzas se assentaram, pouco menos de 10 pessoas morreram, e o fim do mundo foi adiado mais uma vez.

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William Miller, 1844

O pastor William Miller, a quem a revista Time chama de “provavelmente o mais famoso falso profeta da história”. Miller começou a pregar o fim do mundo no começo da década de 1840, dizendo que Jesus retornaria à Terra e o planeta arderia em fogo em algum ponto entre 21 de março de 1843 e 21 de março de 1844. A mensagem de Miller foi amplamente divulgada e cerca de 100 mil seguidores seus venderam tudo o que tinham e foram para as montanhas esperar o fim predito. Entretanto, quando o período anunciado passou em brancas nuvens, Miller disse que havia cometido um “equívoco” nos cálculos, e marcou a nova data do fim do mundo para 22 de outubro de 1844. Novo fiasco. Esse dia entrou para a história americana como o “Dia da Grande Decepção”, mas boa parte dos seguidores de Miller se reagrupou alguns anos depois sob o comando de Ellen G. White, vindo a formar a Igreja Adventista do Sétimo Dia, que manteve o dia 22 de outubro de 1844 como a sua peculiar doutrina do “juízo investigativo”, em que Cristo teria retornado aos céus para terminar sua obra de expiação dos pecados.

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Testemunhas de Jeová, 1914

Os Testemunhas de Jeová fazem de tudo para que o mundo esqueça que seu fundador, Charles Taze Russell, havia previsto  a segunda vinda de Jesus para 1914. O início da 1ª Guerra Mundial neste ano fez com que Russell decretasse o “fim da era dos gentios”, o que se confirmou, na verdade, como mais uma previsão furada. Ele morreria em 1918,  deixando aos seus sucessores a difícil tarefa de explicar por que o fim não chegou no ano previsto. A solução destes foi apontar 1914 como o retorno invisível de Jesus (que já tinha sido previsto por Russell para 1874). Afinal, a 1ª Guerra Mundial era um evento importante demais para não ser aproveitado como evidência, já que eles haviam previsto alguma coisa estranha para aquele ano.

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Testemunhas de Jeová, 1925

Só que as previsões para o fim do mundo não parariam por aí. O segundo presidente da Sociedade Torre de Vigia, Joseph Franklin Rutherford, faria ainda uma previsão para 1925, quando os profetas do Antigo Testamento seriam ressuscitados. Para acomodá-los (fisicamente falando), ele construiu a casa conhecida como Beth Sarim (“Casa dos Príncipes”), e depois de 1925 a “hospedaria profética” sem uso acabou se tornando sua própria residência, onde morreria em 1942.

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Testemunhas de Jeová, 1975

Um novo fim do mundo seria ainda previsto para 1975. A Torre de Vigia alegava que a criação do homem completaria 6 mil anos naquele ano específico. Em uma semana cujos dias equivalem a mil anos (2 Pedro 3:8) os próximos mil anos seriam uma espécie de “milênio sabático”. Mais uma vez a data passou em branco.

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William Branham, 1977

O pastor pentecostal estava numa de suas pregações públicas em 1963 no Estado do Arizona (EUA), quando uma “linda e misteriosa nuvem” teria deslizado pelo deserto. William Branham então subiu à montanha Sunset, onde, segundo alegou posteriormente, teria se encontrado com 7 anjos que revelaram a ele o significado dos 7 selos do livro do Apocalipse. Alguns dias depois, já no Tabernáculo Branham de Jeffersonvile (Indiana), o pastor pregou 7 sermões por 7 noites, explicando o significado dos selos e das 7 visões que ele teria recebido, concluindo que Jesus retornaria à Terra em 1977. Não houve tempo, entretanto, para que Branham visse sua previsão dar com os burros n’água, já que ele morreu na noite de Natal de 1965, 6 dias após um motorista bêbado ter colidido seu carro com o do pastor.

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David Koresh, 1983

Depois de uma infância pra lá de problemática e passagens pelas igrejas batista e adventista, David Koresh (cujo nome verdadeiro era Vernon Wayne Howell) se juntou em 1981 à seita Ramo Davidiano, um grupo dissidente dos adventistas que se formou na década de 1950. A seita davidiana era sediada em Waco, no Estado do Texas (EUA), num rancho que eles denominaram de Monte Carmelo. Não demorou muito, entretanto, para que Koresh decidisse alçar, digamos, voos próprios. Em 1983, ele se autoproclamou profeta, e após uma sucessão de intrigas dentro da seita, que incluíram assassinatos de líderes concorrentes, Koresh convenceu vários seguidores a se juntarem a ele no rancho em Waco para aguardar o fim do mundo. Só que o fim do mundo para Koresh veio na forma de um cerco das autoridades americanas, que durou 50 dias e exterminou da face da Terra dezenas de seguidores de Koresh, além dele próprio e alguns policiais.

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Hal Lindsey e Edgar Whisenant, 1988

Hal Lindsey é um pastor e escritor americano que ficou muito conhecido nos anos 1970 por seu livro best seller “The Late, Great Planet Earth”, traduzido no Brasil por “A Agonia do Grande Planeta Terra”, publicado no Brasil pela editora Mundo Cristão. Lindsey foi um grande expoente do dispensacionalismo (corrente teológica que divide a história do mundo em “eras” ou “dispensações” dos desígnios de Deus), e no livro em questão, tomando como base sobretudo o retorno do povo judeu a Israel algumas décadas antes, predisse que o mundo terminaria em alguma data pouco antes de 31 de dezembro de 1988. Na esteira das previsões de Hal Lindsey, Edgar Whisenant publicou em 1988 o livro “88 Reasons Why the Rapture Will Be in 1988” (“88 razões pelas quais o arrebatamento acontecerá em 1988”), que (como todo bom “fim do mundo”) vendeu pra caramba, 4,4 milhões de cópias, deixando seu autor envergonhado pela falsa profecia, mas com uma gordíssima conta bancária para afogar suas lágrimas de crocodilo.

Os ensinos de Lindsey continuam populares até hoje, já que a famosa série “Left Behind” (“Deixados para Trás”), de Tim LaHaye e Jerry Jenkins, continua vendendo muito bem, obrigado, e não é nada mais nada menos do que a oferta das mesmas ideias requentadas da agonia do planeta Terra da década de 1970. Não vai tardar muito, portanto, para reaparecer uma nova “profecia do fim do mundo” nesses mesmos moldes. Dá grana! Aliás, esse é outro detalhe curioso. Porque esses “profetas” gostam tanto de ganhar dinheiro com isso se não terão tempo de gastar esse dinheiro?

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bug do milênio, 2000

Os mais jovens não se lembrarão disso, mas a maioria recordará o furor que tomou conta do mundo por ocasião da virada do ano 1999 para o ano 2000. O temor de uma catástrofe mundial se baseava no fato de que a imensa maioria dos computadores de então, por uma questão de economia de equipamento, havia previsto apenas duas casas para designar o ano na data. Desta maneira, quando 1999 virasse para 2000, o risco era que, naquela meia-noite específica, os computadores de bancos, empresas aéreas, fornecedoras de serviços públicos, etc., entendessem que o mundo havia voltado a 1900 e alastrassem o caos pelo planeta. Associe a esse dado tecnológico ao ditado popular “até 2000 chegarás, de 2000 não passarás” (que de bíblico não tem nada), e – pronto! – a confusão está estabelecida. Apesar de todo o pânico prévio gerado pelo bug do milênio, nenhum incidente cibernético de monta foi registrado nos primeiros dias do ano 2000. Outro grande logro que também vendeu pra caramba.

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Harold Camping, 1994 e 2011

O pastor americano é reincidente na triste função de falso profeta. Em 1992 ele já havia previsto a segunda volta de Cristo e o fim do mundo para alguma data em meados de setembro de 1994. Depois que sua profecia fracassou, Camping disse que estava triste mas isso não o incomodava nem um pouco. No entanto, o segundo fracasso, em 2011, parece que convenceu o frustrado pastor futurólogo a aposentar sua bola de cristal.

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Calendário Maia, 2012

Ontem, 21 de dezembro de 2012, foi exatamente o dia em que o calendário maia terminou, segundo algumas fontes. Entretanto, existe uma grande controvérsia sobre se o calendário maia foi corretamente interpretado, o que não impediu que muita gente entrasse em pânico com a simples possibilidade de que ele pudesse estar certo. De qualquer maneira, filmes foram produzidos, livros foram escritos e – como sempre – muito dinheiro se ganhou com o pânico gerado pela previsão midiática. Sinal de que, diante do fracasso do apocalipse maia, novas profecias virão em seguida, a fim de que alguns espertalhões continuem ganhando muita grana às custas dos incautos.

Fonte: O Contorno da Sombra.

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